Em Os Bastidores do Amor, primeiro longa-metragem do roteirista e agora diretor Victor Rodenbach, somos convidados a entrar nos camarins empoeirados e nos apartamentos minimalistas de um casal de artistas. O filme, que à primeira vista se molda como uma comédia romântica leve, rapidamente se revela uma análise cinematograficamente consciente sobre os custos pessoais da criação artística e a arquitetura frágil de um relacionamento sob tensão. Rodenbach cria um estudo de personagens onde o verdadeiro drama não está nas falas de Tchekhov que eles interpretam, mas nos silêncios carregados que compartilham no carro, de volta para casa.
A trama central gira em torno de Nora (Vimala Pons), uma dedicada diretora de teatro público, e Henri (William Lebghil), seu ator e companheiro de vida. A fusão profissional e amorosa que os define começa a rachar quando Henri conquista um papel em um filme. O que poderia ser um conflito maniqueísta – a arte pura do teatro contra a vaidade comercial do cinema – é habilmente desconstruído por Rodenbach. O roteiro evita clichês, apresentando o cinema não como um vilão, mas como algo diferente. A “rivalidade” entre as formas de arte serve, na verdade, como metáfora para a divergência de desejos e prioridades em um casal.

A grande sacada do filme, e seu principal trunfo técnico e narrativo, é utilizar a linguagem do cinema para falar sobre a criação artística de forma não narcisista, mas investigativa. Rodenbach emprega uma direção que oscila entre o naturalismo documental e momentos de pura invenção lírica. As cenas de ensaio da peça “Ivanov” são filmadas com uma câmera mais inquieta, quase ensaística, capturando a fricção bruta do processo criativo. Já as sequências no set de filmagem possuem um acabamento mais polido, uma iluminação mais controlada, refletindo o ambiente diferente – e não necessariamente inferior – que Henri experimenta. Essa escolha visual cria um contraste sensorial para o espectador, que sente a mudança de mundo com o personagem.
Na fotografia há uma atenção quase tátil aos elementos: o grão da imagem em certas cenas internas remete a uma memória afetiva, as cores saturadas da grama em momentos-chave intensificam a emotividade sem cair no piegas. A direção de fotografia parece operar no registro do olhar apaixonado ou do olhar que perde o foco.

Cenas íntimas, como a do beijo interrompido, onde a câmera se detém na tensão entre dois rostos que se afastam, ou a sequência quase onírica em que um papel de cenário voa em um raio de luz alaranjada, são pequenas joias de narrativa visual. Elas não servem apenas para embelezar, mas para externalizar estados internos – a incerteza, a lembrança, a magia efêmera da ideia artística.
Lebghil, em um momento de destaque na cena francesa, traz a Henri uma melancolia palpável e uma vulnerabilidade que desarma. Seu perfil “triste e alegre”, como é descrito no filme, é explorado com nuance pela câmera, que frequentemente o captura em momentos de introspectiva solidão, mesmo em meio a aglomerações. Mas é Vimala Pons quem rouba a cena e, de fato, a transfixa com sua performance. Conhecida por papéis mais excêntricos, aqui ela se revela uma atriz de profundidade comovente. Seu rosto é um mapa de emoções contraditórias. O destaque fica para uma cena em um carro, sem nenhum diálogo, apenas o jogo de luzes da rua iluminando seu semblante, ela consegue transmitir raiva, mágoa, amor e desespero em questão de segundos.

O filme, no entanto, não é isento de pontos onde assa “energia artística” parece minguar. A trama envolvendo François (Jérémie Laheurte), o ator famoso do filme dentro do filme, introduz uma ambiguidade bem-vinda – ele não é um antagonista óbvio – mas, em certos momentos do segundo ato, a narrativa perde um pouco do foco, tentando equilibrar muitas linhas dramáticas ao mesmo tempo.
Os Bastidores do Amor se firma, portanto, mais do que uma comédia sobre um casal. É uma reflexão sobre os compromissos que a vida em comum e a vida artística exigem. Rodenbach investiga como os papéis que interpretamos no palco e na tela podem, por vezes, infiltrar-se e reescrever os papéis que desempenhamos na vida privada. O filme questiona: é possível separar o artista da pessoa? O sucesso de um deve significar o fracasso do outro? Ao final, a conclusão a que se chega não é sobre vitórias ou derrotas, mas sobre a possibilidade de um reencontro a partir de novos roteiros, pessoais e profissionais, escritos a quatro mãos.
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