Crítica | 'Entre Quatro Paredes' o Nigéria Futebol Clube se mostra uma banda melhor que seu disco
Nigéria Futebol Clube/Divulgação

Crítica | ‘Entre Quatro Paredes’ o Nigéria Futebol Clube se mostra uma banda melhor que seu disco

O primeiro impacto de Entre Quatro Paredes, disco de estreia do Nigéria Futebol Clube, é o de um manifesto. A abertura, com sua ambientação grave e declamatória, é uma convocação para ouvir histórias das periferias, mas também um aviso: os protocolos estão prestes a ser violados. O projeto, formado por Raphael Conceição (bateria e voz), Rodrigo (guitarra e voz) e Cauã de Souza (baixo), que tem como um de seus objetivos “matar o rock”, por considerar o gênero apropriado e esvaziado de seu potencial revolucionário original, que, para eles, é negro. Este disco é a arma escolhida para esse suposto regicídio, e a experiência de escutá-lo é, em muitos momentos, tão caótica e ambiciosa quanto a missão proposta.

A proposta conceitual é clara. Entre Quatro Paredes se coloca como um trabalho que busca reinserir a negritude, as vivências periféricas e a raiva social no centro de um experimentalismo sonoro que o rock, em sua visão, teria abandonado em prol do “caretice” e de um experimentalismo vazio. A inversão da ordem do clássico “Sobrevivendo no Inferno”, dos Racionais MC’s, ao abrir com “Agradecimentos (Não existe capitalismo sem racismo)”, é um gesto inteligente e cheio de significado.

Não se trata de sobreviver, mas de começar agradecendo – ou acusando. A faixa inicial mergulha nas memórias de Itaquaquecetuba, cidade natal da banda, e constrói uma imagem poética e dolorida de uma São Paulo onde corpos negros dedicam a vida a erguer “monumentos de homens brancos”. Aqui, a produção é crua, os instrumentos soam próximos, quase claustrofóbicos, reforçando a ideia do título: estamos todos, de alguma forma, confinados.

O potencial dessa premissa é gigantesco, e a banda demonstra flashes de genialidade em sua costura de referências. “Ambiência vol. I” é talvez o ponto alto dessa colagem. A fusão de samples de Cartola e Dona Ivone Lara, falando sobre a Mangueira, com uma base psicodélica e distorcida, cria um contraste vertiginoso entre a raiz e a ruptura. O verso “pega ladrão/roubaram meu sol!” surge como um grito ancestral distorcido por um amplificador. Em “Lurdes”, exploram um instrumental soturno que beira o samba-jazz stoner, demonstrando uma sensibilidade interessante para atmosferas.

No entanto, é justamente na execução dessa ambição desmedida que o projeto começa a rachar. A promessa de um disco divisor de águas, sugerida pela introdução, se perde em uma miríade de direções que mais parecem tiros para todos os lados do que uma estratégia coesa. A impressão que fica é a de um laboratório de ideias onde tudo foi mantido, sem a curadoria necessária para transformar experimentos em canções.

A faixa “Nerds/Punks”, por exemplo, se estende por dez minutos em um noise-rock agressivo. A raiva contra neo-nazistas, a “revolta comprada” e a nostalgia de um rock que um dia se pretendeu revolucionário são temas excelentes. Musicalmente, porém, a construção não evolui; fica estagnada em um barulho estático que, após os primeiros minutos, soa mais como ruído de fundo do que como uma narrativa sonora em desenvolvimento. A técnica de produção, que em outros momentos parece escolhida para criar claustrofobia, aqui soa como falta de direção.

Como ouvinte, e especialmente como um homem preto que cresceu mergulhado no universo do rock e da música independente – um meio notoriamente branco e, muitas vezes, hostil a corpos e narrativas como o meu –, confesso que Entre Quatro Paredes me provocou um sentimento complexo. Esta banda parece a materialização sonora de um desejo adolescente meu: ver uma formação que, partindo da linguagem distorcida e barulhenta que eu amava, vocalizasse as dores, as raivas e as paisagens da minha própria realidade. O Nigéria Futebol Clube, em sua essência declaratória, é um projeto necessário. Felizmente, ele é mais do que isso, é uma boa realmente boa.

Crítica | 'Entre Quatro Paredes' o Nigéria Futebol Clube se mostra uma banda melhor que seu disco
Nigéria Futebol Clube/Divulgação

Porém, a necessidade de um discurso não isenta a obra da necessidade de apuro estético. A vontade de “matar o rock” pode ser um mote forte, mas o disco peca ao confundir desconstrução com desorganização. Há uma diferença entre ser experimental e ser inconsequente. A sensação ao longo da escuta é a de que a banda quis abraçar todos os estilos de uma vez: no-wave, punk, psych, samba, jazz, noise e rap. O resultado, pode tornar a experiência de escuta do álbum completo uma tarefa árdua.

Curiosamente, isso é completamente diferente de suas apresentações ao vivo. O que parece excesso no disco, no show – e, francamente, onde mais importa – parece se organizar de forma mais coesa dentro dessa proposta de um “caos organizado”. Ressalto isso porque, embora encontre problemas no disco, a banda é uma das mais instigantes e divertidas de se ver ao vivo. Deixo aqui, um aperitivo do último show que assisti os caras:

Entre Quatro Paredes é, portanto, um disco que não consegue cumprir suas altas expectativas. Ele carrega a semente de algo verdadeiramente revolucionário, essa fusão da denúncia social à brasileira com um experimentalismo de vanguarda. Suas ideias são ótimas e urgentes no cenário atual. No entanto, essa desconstrução, para ser eficaz, precisa de um projeto. Do contrário, soa apenas como ruído – e por mais político que o ruído possa ser, o grito perde o sentido quando não conseguimos entender.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.