No começo dos anos 2000, ninguém sabia muito bem o que Paris Hilton era. Ela era famosa, isso era inegável – mas não exatamente uma artista. Atuou em alguns filmes, lançou músicas, participou de realities, tudo sempre da forma mais superficial e industrial possível. Faltava algo que lembrasse intenção artística. Ainda assim, sua presença era onipresente. Olhando em retrospecto, vinte anos depois, fica claro: Paris Hilton inaugurou o que hoje chamamos de influencer. O termo não existia, mas a lógica já estava toda ali.
É a partir desse atraso histórico que Infinite Icon: Uma Memória Visual ganha algum interesse. Vendido como um olhar “por trás das câmeras” do segundo álbum de estúdio de Paris Hilton, o documentário tenta mostrar onde ela está hoje – como musicista e mãe. E, embora seja um filme bastante convencional, até previsível, há algo curioso nesse esforço tardio de retirar a máscara de alguém que, por tanto tempo, foi apenas superfície.
Dirigido por J.J. Duncan e Bruce Robertson, mas com forte controle da própria Hilton, que também assina como produtora executiva, o filme mergulha sem muita mediação em sua rotina criativa, seus bastidores e sua autoimagem. Em vários momentos, isso soa como autocelebração excessiva, uma espécie de narcisismo não editado, que se arrasta mais do que deveria. Ainda assim, é coerente com a personagem: afinal, a exposição sempre foi sua principal linguagem.

O documentário acerta ao reconhecer que Paris foi vítima de uma cobertura midiática cruel e misógina, típica dos tabloides dos anos 2000. A participação da escritora Sarah Ditum, autora de “Toxic: Women, Fame and the Noughties”, traz uma camada analítica interessante sobre esse período. Infelizmente, essa reflexão não se sustenta por muito tempo, e o filme evita encarar de frente o privilégio de sua origem extremamente rica – algo que aparecia com mais clareza em “This Is Paris” (2020), quando sua persona de reality show ainda era parte assumida do discurso.

Como no filme anterior, Infinite Icon aborda os abusos emocionais e sexuais que Hilton sofreu na adolescência, enquanto esteve internada na controversa Provo Canyon School, em Utah. Também há espaço para falar de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e ativismo, ainda que tudo isso, em certos momentos, pareça integrado ao mesmo pacote de marca pessoal que ela vem refinando ao longo dos anos.

Em Infinite Icon, no final das contas, o que vemos por trás da máscara não é exatamente uma grande revelação – mas talvez nunca fosse para ser. O documentário não desmonta Paris Hilton, nem a reinventa radicalmente. Ele apenas a contextualiza. E, nesse sentido, ajuda a entender como alguém que “não era nada muito definido” acabou sendo, sem saber, o molde de uma cultura inteira que só ganharia nome décadas depois.
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