Se um filme pudesse ser traduzido em gestos, Iron Lung seria aquele sujeito que entra numa sala com a coragem estampada no peito, fala alto, ocupa o espaço com uma presença inegável – mas, de tão concentrado em não pisar fora da linha, acaba tropeçando nos próprios pés. É uma obra que se sustenta naquilo que tem de mais ousado, e desaba exatamente pelo mesmo motivo.
A história é conhecida: Mark Fischbach – Youtuber conhecido como Markiplier –, pegou um jogo indie, despejou recursos próprios, juntou uma câmera, um submarino apertado e um oceano de sangue fictício, e entregou um longa-metragem que, contra todas as probabilidades, fez mais de 20 milhões de dólares no fim de semana de estreia. Só que, para além dos números, é melhor falar do que arde.
O filme é sobre Simon (interpretado pelo próprio Fischbach), um condenado jogado num minissubmarino para coletar amostras num mar vermelho e viscoso, após boa parte do universo simplesmente sumir sem dar satisfação. É um cenário de desolação total, e Fischbach passa a maior parte do tempo nos trancando ali junto com ele. E aqui já se anuncia o primeiro movimento de corda-bamba: o diretor parece ter tanto medo de perder a essência do jogo original que esquece, em alguns momentos, que está fazendo cinema.
As primeiras imagens, por exemplo, demoram uma eternidade para engrenar. É daquelas aberturas que fazem a gente olhar pro canto da tela para ver quanto tempo ainda falta. E o roteiro tem um vício curioso: em vez de deixar o mundo se revelar aos poucos, ele joga informações como quem descarrega um caminhão. Mas há uma linha tênue entre o convite ao replay e o teste de paciência.
O que segura o espectador, então? A direção de fotografia, principalmente. Philip Roy faz do espaço claustrofóbico um campo de experimentação. As lentes se comportam quase como um segundo personagem: hora estão grudadas nas mãos de Simon enquanto ele tenta emendar fios, hora abrem num olho de peixe para lembrar que existe um submarino, e logo depois fecham de novo, sufocando. Os canais vazam, as luzes falham, e há uma sensação de que a própria câmera está respirando com dificuldade. É quando o filme acerta – quando menos se parece com um videogame filmado e mais com um pesadelo industrial.

O calcanhar de Aquiles, porém, está na frente das câmeras. O próprio Fischbach interpretando Simon, e a escolha, embora compreensível pelo controle total que ele tinha sobre a produção, cobra um preço. O personagem transita entre o estresse e o estresse mais agudo, com poucas variações. Numa cena específica, em que ele discute com uma comandante chamada Ava, a voz dela sai de um interfone sem rosto e ainda assim entrega mais camadas emocionais do que o protagonista em carne e osso.
Fischbach parece funcionar melhor quando é sarcástico, mas quando o roteiro pede terror existencial, ele entrega o mesmo tom de quem está lendo o papel pela primeira vez.
Curiosamente, o filme também parece hesitar sobre o que quer ser. Há momentos em que abraça o pastelão sci-fi com frases como “isto não é uma expedição, é uma execução”, e outros em que tenta discutir algo mais espinhoso: como sistemas que pregam dignidade tratam pessoas como combustível. Simon descobre, do pior jeito, que “risco calculado” é uma expressão que só soa bem na boca de quem não corre perigo.
Mas talvez o mais fascinante em Iron Lung não esteja na tela, mas ao redor dela. O filme chegou aos cinemas sem estúdio grande, sem marketing tradicional, carregado apenas pela paixão de um criador que construiu uma audiência ao longo de anos na internet. Enquanto Hollywood aperta o cerco, engessando artistas em fórmulas pré-aprovadas, Fischbach fez o caminho inverso: pegou uma câmera, um cenário único, um roteiro que ele mesmo escreveu, e mostrou que cinema também pode ser um ato de insistência.
Iron Lung é, antes de tudo, um documento de que arte não se faz só com técnica. Acontece que, às vezes, paixão sozinha também não basta. O filme escorrega em lugares que um olhar mais distante – ou menos apaixonado – talvez tivesse aparado. Mas ele existe. E isso, no cenário atual, já é uma pequena revolução.
Provavelmente já tem comentários que se trata de um filme é desajeitado, que a atuação do protagonista não acompanha a ambição da fotografia, que o ritmo oscila entre o sufoco e o tédio. E, em partes, estão certos. Mas há também algo de profundamente sintomático em ver um criador vindo do YouTube ocupar salas de cinema com uma história sobre um homem preso num submarino, vigiado por uma corporação que promete cuidado enquanto o envia para o abismo. Fora das telas, a metáfora não é nada sutil.
O sucesso de Iron Lung é um recado de que existe um público disposto a acompanhar visões autorais que não passaram pelo triturador industrial. O filme pode ser irregular, mas sua existência é um sintoma de que os caminhos para o cinema estão se multiplicando. E que, às vezes, a melhor maneira de escapar de um sistema que te engole é construir sua própria cápsula – mesmo que apertada, mesmo que improvisada – e descer.
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