Crítica | Jurassic World: Recomeço: Escavando ossos velhos em busca de ouro
Universal Pictures/Divulgação

Crítica | Jurassic World: Recomeço: Escavando ossos velhos em busca de ouro

Ironicamente, existe algo paleontológico na forma como Hollywood continua escavando os ossos da franquia Jurassic Park. A cada novo filme, é como se um estúdio faminto desenterrasse mais um fóssil, esfregasse poeira nele e o vendesse como descoberta revolucionária – quando, no fundo, é o mesmo esqueleto de sempre, remontado com um pouco mais de cola e efeitos especiais. Jurassic World: Recomeço não foge à regra: chega às telas com aquele cheiro já conhecido de oportunismo disfarçado de nostalgia, um produto que sabe que vai lucrar mesmo sem se esforçar para ser mais do que um passatempo vazio. E o pior? Ele confirma todas as suspeitas daqueles que, como este crítico (e muitos outros), já olhavam para a franquia com um misto de ceticismo e cansaço. Afinal, por que investir em criatividade quando o público continua comprando ingresso para ver os mesmos dinossauros rugirem pela sétima vez?

Dirigido por Gareth Edwards, conhecido por “Godzilla” (2014) e “Rogue One: Uma História Star Wars”, o longa prometia um tom mais sombrio, quase um horror jurássico. E, de fato, há momentos em que a fotografia de John Mathieson cria atmosferas tensas, com dinossauros escondidos em névoas ou revelados em planos abertos que destacam seu gigantismo. Edwards sabe construir suspense, especialmente em sequências como o ataque do Mosassauro, onde a câmera oscila entre a perspectiva humana e a ameaça que se esconde nas profundezas. A edição, por sua vez, mantém um ritmo ágil, cortando entre planos fechados dos personagens e wide shots que imergem o espectador no cenário. Tecnicamente, o filme é competente – mas técnica sem alma vira exercício de estilo.

Crítica | Jurassic World: Recomeço: Escavando ossos velhos em busca de ouro
Universal Pictures/Divulgação

O roteiro de David Koepp, que já assinou o clássico original, é onde as fissuras aparecem. A trama repete fórmulas conhecidas: cientistas ambiciosos, crianças em perigo, um vilão corporativo e dinossauros que, mais uma vez, escapam do controle. Scarlett Johansson entrega o que pode como a protagonista, uma mercenária durona com um passado mal resolvido, mas o texto não a aprofunda. Seus diálogos soam genéricos, e as motivações do grupo – incluindo um pai interpretado por Manuel Garcia-Rulfo e suas filhas – são tão previsíveis que fica difícil se envolver. O filme tenta emular a dinâmica de “Jurassic Park”, de 1993, com cenas de família e discussões sobre responsabilidade científica, mas falta aquele brilho inteligente que fez o original ser atemporal.

Um dos maiores problemas é a falta de risco real. Se no primeiro longa da franquia, cada morte tinha peso, cada fuga era suada. Aqui, os personagens parecem blindados pelo roteiro, sobrevivendo a situações que deveriam ser letais. Quando um T-Rex surge em uma cena noturna à beira de um rio – sequência que homenageia um momento cortado do filme de 1993 –, a tensão é visivelmente artificial. Sabemos que ninguém importante morrerá, e isso reduz o impacto. Até o novo dinossauro híbrido, o Dementus Rex, mais parece um design de videogame do que uma ameaça palpável. A trilha sonora de Alexandre Desplat tenta salvar a emoção com temas grandiosos, mas não consegue disfarçar a sensação de que já vimos tudo isso antes.

A fotografia, pelo menos, é um destaque. Edwards e Mathieson usam luz e sombra com maestria, especialmente nas cenas noturnas, onde os dinossauros são iluminados por holofotes ou relâmpagos. Há um plano particularmente belo em que um pterodáctilo cruza a tela contra a lua cheia, lembrando que a franquia ainda pode ser visualmente poética. O design de produção também merece elogios: a ilha parece viva, com florestas densas e ruínas de antigos parques que sugerem um mundo abandonado. Esses detalhes mostram que a equipe técnica entende o potencial do universo, mesmo quando o roteiro falha em explorá-lo.

Crítica | Jurassic World: Recomeço: Escavando ossos velhos em busca de ouro
Universal Pictures/Divulgação

Mas e a pergunta que não quer calar: para onde vai a franquia agora? Jurassic World: Recomeço tenta se vender como um reinício, mas é mais do mesmo. As cenas de ação divertem, os efeitos visuais impressionam, mas falta substância. O filme levanta questões interessantes – como a vulnerabilidade dos dinossauros em um mundo moderno ou o uso de seu DNA para medicina –, mas as abandona rápido em favor de perseguições e rosnados. Até o vilão Martin Krebs, interpretado por Rupert Friend, é reduzido a caricatura, com discursos sobre lucro que já soam ultrapassados.

O maior pecado, talvez, seja a nostalgia mal aplicada. O filme cita Jurassic Park a todo momento, desde efeitos sonoros até enquadramentos idênticos, como se esperasse que o público ficasse emocionado só por reconhecer referências. Mas nostalgia não sustenta um filme sozinha. Spielberg equilibrava maravilha e terror, criando cenas como a do copo d’água tremendo – simples, mas eficaz. Aqui, tudo é excessivo: dinossauros maiores, híbridos mais assustadores, explosões mais altas. E, no meio desse caos, perdemos a conexão humana que fez o original brilhar.

Jurassic World: Recomeço é como um parque de diversões desgastado: as atrações ainda funcionam, mas a magia se foi. Gareth Edwards entrega um produto tecnicamente sólido, com momentos de puro espetáculo, mas a franquia parece ter esgotado suas ideias. Se o objetivo era recomeçar, faltou ousadia para mudar de verdade. Talvez seja hora de deixar os dinossauros descansarem – pelo menos até alguém encontrar um DNA narrativo realmente novo.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.