É deliciosamente irônico em um filme chamado Justiça Artificial soar, em vários momentos, como se tivesse sido concebido por uma Inteligência Artificial (IA) treinada com suspenses tecnológicos do início dos anos 2000. Tudo está lá: o debate raso sobre máquinas que “aprendem com os humanos”, o medo difuso de algoritmos decidindo destinos, a crença quase ingênua de que dados são sinônimo de verdade. Falta apenas o aviso no canto da tela: “este filme foi gerado a partir de padrões já existentes”. E talvez seja justamente aí que o longa encontre seu comentário mais involuntário sobre o nosso tempo – não porque aprofunde a discussão, mas porque se torna exemplo da própria artificialidade que tenta questionar.
Dirigido por Timur Bekmambetov (“O Procurado”), cineasta que construiu carreira explorando linguagens visuais chamativas e formatos não convencionais, Justiça Artificial se ancora na estética do desktop thriller, agora repaginada para a era das chamadas de vídeo, das câmeras corporais e da vigilância onipresente.
Como o próprio subgênero diz, a narrativa se desenrola majoritariamente através de telas: janelas que se abrem, se sobrepõem, se fecham, sempre mediando a ação e filtrando a realidade. A encenação aposta nessa fragmentação como reflexo de um mundo onde tudo é registrado, analisado e, sobretudo, julgado. Funciona? Em termos de ritmo, sim. A montagem é precisa, dinâmica, conduzindo o espectador com a eficiência de um algoritmo bem ajustado para manter a atenção.

A fotografia reforça essa sensação de assepsia emocional. Predominam tons frios, superfícies lisas, ambientes iluminados de forma impessoal, mesmo quando a ação se desloca para espaços que deveriam sugerir intimidade. Nada parece realmente acolhedor em Justiça Artificial, e isso não é um defeito em si. Pelo contrário, é uma escolha coerente com um universo onde a experiência humana é constantemente traduzida em números, percentuais e probabilidades. Bekmambetov sabe explorar essa estética e criar tensão a partir dela, transformando o julgamento em um espetáculo quase esportivo, com placares de culpa subindo e descendo conforme novas informações surgem.

No centro desse tribunal high-tech está Maddox, a juíza algorítmica interpretada por Rebecca Ferguson. Sua presença em cena é, paradoxalmente, o elemento mais orgânico do filme. Ferguson constrói a personagem com minúcia, explorando olhares, pausas e microexpressões que sugerem algo além do cálculo frio.
O problema é que essa sofisticação atua contra a própria lógica do roteiro de Marco van Belle. Maddox foi criada para ser imparcial, desprovida de emoções, mas demonstra ironia, surpresa e até certo prazer simbólico em conduzir o julgamento. A atuação evidencia uma contradição central: o filme quer uma máquina objetiva, mas precisa de uma figura carismática e “humana” para sustentar o drama.

Essa incoerência se estende à maneira como a IA lida com os dados. Informações relevantes são ignoradas ou desconhecidas, enquanto outras surgem de forma conveniente, mais próximas de comentários expositivos do que de deduções lógicas. Não se trata de cobrar rigor técnico de uma obra de ficção, mas de notar como essas escolhas fragilizam o discurso que o próprio filme tenta vender. Quando a máquina erra, o roteiro pede indulgência; quando acerta, exige confiança absoluta. É uma lógica seletiva que serve mais à dramaturgia do que à reflexão.
O caso em julgamento envolve Raven, policial vivido por Chris Pratt, acusado de assassinar a esposa. Desde cedo, o filme deixa claro que não se trata de um protagonista exemplar. Seu comportamento é explosivo, intimidatório, marcado por atitudes abusivas que o roteiro parece tratar como falhas de caráter toleráveis. Essa caracterização já cria um atrito com o espectador, e o longa não parece interessado em resolvê-lo. Ao longo da narrativa, informações sobre a vítima surgem de maneira a relativizar a violência sofrida, alimentando leituras perigosamente próximas de justificativas conhecidas. Mesmo sem pedir empatia direta pelo agressor, Justiça Artificial flerta com a suavização de condutas violentas em nome da eficiência, da intuição ou do “bom policial”.

Quando o foco se desloca do homem para a máquina, o filme aposta em um discurso ainda mais confortável. A IA é apresentada como falível porque reflete falhas humanas, uma constatação correta, porém tratada como revelação profunda. A discussão sobre responsabilidade, poder e desigualdade estrutural fica na superfície, mencionada de passagem através de zonas marginalizadas e contextos sociais que nunca ganham centralidade. Essas realidades existem apenas como pano de fundo, enquanto o verdadeiro drama permanece restrito à arena tecnológica do julgamento.
Do ponto de vista formal, Justiça Artificial é competente. A direção domina o ritmo, a montagem sustenta a tensão e a fotografia constrói uma identidade visual clara. É um filme que sabe entreter, que entende o funcionamento do suspense e que conduz o espectador com segurança. O problema surge quando essa eficiência formal passa a servir como cortina de fumaça para um discurso raso e, em certos momentos, eticamente questionável. A forma é sofisticada; o conteúdo, nem tanto.
Justiça Artificial é um produto curioso do nosso tempo: um filme que quer discutir IA, mas recorre a ideias prontas; que critica sistemas desumanizados, mas normaliza violências humanas; que aposta na tecnologia como espetáculo, mas evita confrontar suas implicações mais incômodas. Talvez por isso a sensação persistente seja a de estar diante de algo calculado demais para ser provocador e artificial demais para ser verdadeiramente inquietante. Como uma IA treinada para agradar, o filme entrega exatamente o que se espera – e nada além disso.
Leia outras críticas:



















Deixe uma resposta