Enquanto há bandas que amadurecem em silêncio, há aquelas que crescem aos berros, como se cada novo disco fosse um grito de existência. Lupe de Lupe, o quarteto mineiro que nunca se curvou a algoritmos ou modas passageiras, pertence claramente ao segundo time. Amor, seu oitavo álbum, lançado pelos selos Geração Perdida MG e Balaclava Records, é – mais um – exercício de intimidade brutal. Quatro faixas longas, entre 9 e 12 minutos cada, que funcionam como cartas abertas sobre o que resta quando o amor vira pó.
Dizer que este é um disco sobre o fim de relações seria reduzi-lo. Amor é sobre a cicatrização – ou a falta dela. Cada música é assinada por um integrante diferente, o que transforma o álbum numa colcha de retalhos emocionais. Jonathan Tadeu abre com “Vermelho (Seus Olhos Brilhando Violentamente Sob os Meus)”, uma avalanche pós-punk que desmorona em noise-rock, enquanto Vitor Brauer entrega “Se Nosso Nome Fosse Um Verbo (Canibalismo Como Forma de Amor)”, um soco no estômago que oscila entre o lírico e o animalesco, culminando num uivo que parece sair direto das entranhas. Pode parecer uma descrição um tanto exagerada (e é), mas quem conhece o histórico da banda sabe do que estou falando.
A estrutura das faixas é tão importante quanto o que é dito. Lupe de Lupe não tem pressa: as músicas respiram, se esticam, quebram. Em “Uma Bruta Realidade (O Nosso Jatobá)”, Gustavo Scholz constrói uma narrativa em dois atos – um início contido, quase hesitante, que explode numa catarse de bateria e trompete (cortesia de Gabriel Elias, dos Mineiros da Lua). Já Renan Benini, em “Redenção (Três Gatos e um Cachorro)”, mostra porque é um dos letristas mais sensíveis da cena atual, misturando saudade cotidiana (“três gatos e um cachorro”) com guitarras que lembram Interpol em seu ápice melancólico.
A produção, feita em casa, é tão crua quanto deliberada. Não há polimento excessivo aqui – as guitarras são sujas, as vozes se perdem na distorção, e os arranjos surgem como camadas de um mesmo trauma. Participações como a do violinista Felipe Pacheco Ventura (Baleia) em Redenção ou do baterista Estevan Cipri em Vermelho não servem para embelezar, mas para aprofundar as feridas. É música como confissão, onde o erro e o acaso têm o mesmo peso.
O que chama atenção em Amor é justamente essa ausência de medo. Aos oito discos de carreira, Lupe de Lupe não precisa provar nada a ninguém – e essa liberdade transborda. Eles podem, numa mesma faixa, evocar o shoegaze de My Bloody Valentine, o caos do screamo e até a sofrência do sertanejo (sim, as letras têm tanto de Dorival Caymmi quanto de Joy Division). Em Se Nosso Nome Fosse Um Verbo, Brauer escreve: “abri seu ventre, sua boca, suas pernas e seus seios”, mas também “todo amor é feito pra acabar / está escrito nos livros, nas estrelas e no mar”. É essa dualidade que define o disco: a violência e a ternura como faces da mesma moeda.
Há algo de lindo na trajetória dessa banda. Enquanto o mainstream se alimenta de filhos da indústria e artistas que nasceram com contatos, Lupe de Lupe roda o Brasil, longe dos holofotes fáceis. Eles são a prova viva de que o underground ainda pulsa, não como nostalgia, mas como resistência. Amor não é um disco fácil. É longo, denso, às vezes exaustivo – mas é impossível ouvi-lo sem sentir que há ali uma verdade rara.
Talvez a grande sacada do álbum seja justamente sua humanidade. Não há heróis nem vilões nas letras, só pessoas tentando entender o que sobrou depois que o amor acabou. Quando Benini canta “eu gosto do teu jeito, eu gosto de você / viciei no teu cheiro, teu beijo faz tremer”, não é romantismo barato – é a dor de quem sabe que o fim não apaga o que foi vivido.
Amor não quer ser consenso. É sobre quem já amou e perdeu. E, nisso, Lupe de Lupe acerta em cheio. Afinal, qual banda hoje tem a coragem de lançar um disco de 42 minutos com apenas quatro músicas, sem singles, sem concessões? Eles não estão aqui para agradar. Estão aqui para existir. E, em 2025, isso já é um ato revolucionário.
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