Crítica | Marty Supreme e o preço da grandeza em uma América que não quer pagar a conta
A24/Divulgação

Crítica | Marty Supreme e o preço da grandeza em uma América que não quer pagar a conta

Há uma cena em Marty Supreme que sintetiza seu muito bem sua proposta: o protagonista enfrenta uma foca treinada no pingue-pongue, durante o intervalo de uma partida de basquete. O público ri, o animal é indiferente, e Marty (Timothée Chalamet), se contorce, num gesto que vai do constrangimento para a convicção de que participar dessa palhaçada é, sim, um degrau para o Olimpo.

O filme de Josh Safdie é exatamente isso: um estudo de caracterização sobre um sujeito pequeno que acredita, com cada fibra de seu ser magro e ambicioso, que merece ser grande. A experiência do espectador é igualmente contorcida: somos puxados para dentro da mente desse personagem que é, ao mesmo tempo, encantador e detestável. Alguém que mente, pisoteia e se exibe, mas cuja energia desesperada nos torna cúmplices involuntários de sua busca insana por reconhecimento.

Chalamet, aqui, finalmente faz por merecer os comentários de que ele é um dos melhores atores de sua geração. Suas duas últimas indicações ao Oscar de Melhor Ator parecem de um prelúdio para essa atuação. Ele habita o mesatenista com uma física inquieta. O corpo magricelo, os óculos redondinhos, as espinhas no rosto, a postura que oscila entre a arrogância de um showman de calçada e a insegurança de um adolescente.

A grande sacada do ator está em fazer da confiança uma moeda falsa que ele mesmo passa a acreditar. Cada fala é atirada antes do pensamento, cada porta que se fecha por sua boca grande é apenas um obstáculo a ser contornado com mais lábia. Há um eco deliberado dos anti-heróis alucinados dos anos 1970, um Al Pacino da vida mundana, mas Chalamet injeta uma patética humanidade que faz com que, mesmo em seus atos mais reprováveis, entendamos o motor de sua existência: o pavor medíocre da irrelevância.

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Josh Safdie, em seu primeiro trabalho solo longe da parceria com o irmão Benny, não abandona a assinatura de cinema de adrenalina. A escolha de ambientar a história nos anos 1950, mas filmá-la com a gramática visual dos anos 1970 – grãos, cores saturadas, enquadramentos apertados e uma câmera quase ofegante – e sonorizá-la com needle drops (aquela inserção pontual de uma música conhecida) dos anos 1980, não é mero capricho estético. É uma estratégia de deslocamento temporal. O diretor de fotografia Darius Khondji, cria uma textura suada e nervosa.

A câmera persegue Marty como se também estivesse sem fôlego tentando acompanhar seus esquemas. A montagem, assinada pelo próprio Safdie e por Ronald Bronstein no roteiro, é rápida, mas não caótica; ela emula o ritmo de pensamento do protagonista: impulsivo, associativo, sempre saltando para a próxima ideia grandiosa antes que a anterior desabe.

Essa colisão de décadas na imagem e no som serve a uma tese contundente. Safdie e Bronstein não estão contando a história de um jogador de pingue-pongue. Eles estão traçando uma espécie de “história de origem” do verdadeiro caminho para o “sonho americano”, antes da bravata tóxica que se tornou marca registrada – principalmente pelo cinema.

Marty, com sua lábia agressiva e sua convicção de que o mundo lhe deve algo, é um ancestral de “O Lobo de Wall Street”, nascido uma geração cedo demais. Se fosse hoje, ele estaria vendendo bitcoin ou cursos de coaching. Nos anos 1950, ele tem apenas uma raquete, uma boca grande e o sonho pós-guerra de ascender a qualquer custo. O esporte, portanto, é mero pano de fundo. A verdadeira partida se joga nos lobbies de hotéis, nos acordos de negócios escusos e na habilidade de vender ilusões – inclusive para si mesmo.

O elenco de apoio é outro grande acerto do longa. Cada figura que circula em torno de Marty parece saída de um retrato de época, mas com uma pitada de anacronismo que reforça a sensação de deslocamento. Odessa A’zion, como Rachel, a “namorada” grávida e casada, evita o clichê da mulher sofredora. Ela irradia uma confiança silenciosa e prática; conhece Marty tão bem que enxerga suas falcatruas, mas também vê o núcleo de ambição que pode, quem sabe, ser lapidado. É um contraponto humano e fundamental à espiral autodestrutiva do herói.

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Gwyneth Paltrow, como a estrela de cinema em declínio Kay Stone, também foge do óbvio. Não há caricatura da diva envelhecida, mas a melancolia sutil de quem ainda precisa do amor do público – ou do amor-bomba de um vigarista charmoso. Sua cena ao ouvir os aplausos em um teatro é um momento de pura e triste verdade, capturado num close que a atriz conduz com economia soberba.

Figuras como Kevin O’Leary (o canadense investidor de “Shark Tank”) e cameos de personalidades nova-iorquinas como Abel Ferrara e Fran Drescher ampliam o universo do filme para além da ficção, borrando as linhas entre realidade e representação.

A presença de O’Leary, em particular, é um comentário meta-cinematográfico brilhante: ele interpreta um empresário ávido por negócios, essencialmente fazendo uma versão de si, o que coloca Marty em um contexto de capitalismo real, implacável e muitas vezes cômico.

A trilha sonora, dividida entre a partitura eletrônico-pulsante de Daniel Lopatin e as canções cuidadosamente escolhidas, é outro personagem. Ela não apenas ambienta, mas comenta a ação. Quando um tema de Peter Gabriel ou Tears for Fears explode em uma cena dos anos 1950, a dissonância é total. Soa como a memória afetiva do futuro, como se a arrogância de Marty estivesse sintonizada em uma frequência que o seu próprio tempo ainda não capta.

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Marty Supreme poderia ser resumido, de forma reducionista, como o “Joias Brutas com pingue-pongue”. E, de fato, compartilham o DNA da narrativa de alta pressão e do anti-herói em colapso acelerado. No entanto, o filme solo de Josh Safdie ganha um sabor único de sátira geracional e melancolia histórica. Ele quer fazer a gente suar com as apostas do protagonista, mas também que reflitamos sobre o preço do sonho americano quando ele é perseguido por alguém sem escrúpulos, mas com uma vulnerabilidade que dói.

Após toda a corrida alucinada pelo mundo, após tantas mentiras e portas fechadas, Marty é forçado a encarar as consequências mínimas e humanas de seus atos. O espetáculo da ambição torta dá lugar a uma quietude desconcertante. A grandeza que ele tanto almejava talvez nunca venha do jeito que ele imaginava – em troféus e holofotes. Pode ser que ela resida, ironicamente, na capacidade de finalmente encarar a realidade que ele passou a vida fugindo.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.