Banda Megadeth

Crítica | Megadeth e o último capítulo de uma das maiores lendas do metal

Falar de Megadeth é o mesmo que falar de uma das bandas mais importantes da história do thrash metal. Desde os anos 80, o grupo criado por Dave Mustaine ajudou a definir um som mais rápido, agressivo e técnico dentro do heavy metal, influenciando gerações de músicos e fãs ao redor do mundo. Entretanto, em janeiro de 2026 a banda lançou o álbum autointitulado,Megadeth, que marca oficialmente, a despedida do grupo dos estúdios e encerra uma trajetória de mais de quatro décadas.

Portanto, este não é um disco comum. Existe um peso emocional evidente em cada faixa. Mustaine, hoje com 64 anos, convive com a contratura de Dupuytren, uma condição que limita os movimentos da mão e afeta diretamente sua capacidade de tocar guitarra. Isso muda completamente o significado do álbum. Mais do que apenas um novo trabalho, Megadeth surge como um último esforço criativo, quase uma carta de despedida de um músico que decidiu ir o mais longe possível antes que o próprio corpo impusesse limites definitivos.

Um som clássico com clima de despedida

Musicalmente, o álbum aposta em resgatar a essência que tornou a banda famosa como, riffs rápidos, solos afiados, letras críticas e a identidade vocal inconfundível de Dave. São dez faixas inéditas e um cover surpreendente, todos apresentados com uma produção que tenta equilibrar o peso clássico da banda com um acabamento mais moderno.

A presença do guitarrista Teemu Mäntysaari é decisiva nesse novo momento. O som ganhou mais precisão e um polimento técnico evidente. Para alguns, isso deixa tudo mais limpo do que o Megadeth antigo, conhecido por ser mais cru. Para outros, essa clareza apenas comprova que a banda ainda consegue soar forte e relevante, com Teemu ajudando a manter o DNA técnico do grupo intacto até o último segundo.

O disco já começa deixando claro que ainda existe fogo aí. “Tipping Point”, a faixa de abertura, chega acelerada, com clima de urgência e um solo que praticamente explode logo nos primeiros minutos. É como se a banda estivesse afirmando, sem rodeios, que ainda sabe fazer thrash metal de alta energia. A música foi recebida como uma prova de vida, mostrando que o Megadeth não escolheu um caminho morno para se despedir.

Logo em seguida vem “I Don’t Care”, lançada no final de 2025 e início de 2026, que funciona quase como um manifesto pessoal de Dave Mustaine. Com forte influência punk e uma energia agressiva, a faixa expressa desprezo por opiniões alheias, traições e pelo peso do passado. A mensagem é direta: viver pelas próprias regras e não dever explicações a ninguém. Dentro do contexto de despedida da banda, a música soa como um grito de desapego, curto e explosivo, como alguém que finalmente decidiu largar certas amarras.

Entre conflitos internos e celebração do próprio estilo

O tom muda bastante em “Hey, God?!”, uma das músicas mais pesadas emocionalmente do disco. O andamento é mais moroso e sombrio, e a interpretação vocal de Mustaine aparece mais crua e vulnerável. A letra passa uma sensação constante de questionamento, quase como um diálogo com algo maior, e combina com o momento pessoal do músico e com a ideia de fim de jornada que atravessa todo o álbum.

Em contraste com esse clima mais introspectivo, “Let There Be Shred” funciona como uma celebração do próprio estilo da banda. É uma faixa veloz, com guitarras em destaque e um espírito mais solto, que remete à irreverência do início da carreira do Megadeth. Aqui, o grupo parece olhar para o próprio passado e reafirmar aquilo que sempre foi: velocidade, técnica e agressividade sem pedir desculpas.

A Rotina, a máscara e a ‘Puppet Parade’

Logo depois, o álbum muda o foco com “Puppet Parade”, uma das músicas mais conceituais do disco. A faixa fala sobre a vida comum de alguém preso a uma rotina em que todos os dias parecem iguais ao anterior. Um trabalho sem saída, um relacionamento sem saída, uma vida sem saída. Desse modo, a ideia central é simples e incômoda ao mesmo tempo, pois, muita gente vive nesse piloto automático, repetindo os mesmos passos, enquanto esconde o que realmente sente.

A música também explora essa noção de máscara social, de mostrar ao mundo apenas o que é conveniente, e não o que está acontecendo por dentro. Num álbum de despedida, Puppet Parade ganha ainda mais peso, porque soa como uma observação amarga, mas honesta, sobre a monotonia moderna e sobre o quanto as pessoas aprendem a fingir que está tudo bem.

Técnica, peso e um lado mais humano

Na reta final do disco, o Megadeth volta a apostar na força dos riffs e na memória da própria carreira. “Obey The Call” chama atenção logo na introdução, que remete ao clima de “Trust”, criando uma sensação quase nostálgica antes de mergulhar em um thrash mais direto e pesado. Em seguida,“Made To Kill” aparece com uma das aberturas mais velozes de todo o álbum, apostando em impacto imediato, e traz um refrão que lembra bastante a abordagem mais moderna da banda em Dystopia de 2016. Esse trecho do disco mostra como o grupo consegue transitar entre diferentes fases da própria história sem se perder.

“Another Bad Day” revela um lado mais melódico e emocional. A faixa lembra em alguns momentos a fase mais acessível da banda nos anos 90 e soa quase como um desabafo. É difícil não enxergar essa música como um reflexo das dificuldades enfrentadas durante a produção do álbum e da própria condição de saúde de Mustaine. Dessa forma, esse lado mais humano acrescenta ainda mais peso ao disco como obra de despedida.

Um acerto de contas com o passado

O momento mais simbólico do álbum chega com o cover de “Ride The Lightning”, clássico do Metallica que o próprio Dave Mustaine ajudou a compor no começo da carreira. A escolha é carregada de significado e após décadas de rivalidade, conflitos e histórias mal resolvidas, regravar essa música soa como uma forma de fechar um ciclo e fazer as pazes com o próprio passado. No fim, é um gesto que transforma o final do disco em algo ainda mais simbólico e verdadeiro.

O Último ato do Megadeth

Com cerca de 49 minutos de duração, Megadeth pode até soar repetitivo em alguns trechos, mas nunca perde o senso de propósito. A faixa final, “The Last Note”, funciona como uma despedida direta. Tecnicamente, a música surpreende ao abandonar a distorção pesada em sua seção final, entregando uma passagem acústica melancólica e limpa. É um encerramento sóbrio, onde cada nota dedilhada parece carregar o peso do adeus. Com um misto de força e tristeza, o disco se encerra com a seguinte frase dita por Mustaine:“Aqui está meu último desejo. Meu testamento final, meu desdém. Eu estive aqui, eu reinei. Agora, eu desapareço.”

Considerando todos os problemas de saúde, as mudanças de formação e o peso de uma carreira tão longa, o resultado é extremamente digno. Por fim, a banda se despede dos estúdios de forma honesta, pesada e fiel à própria identidade. Desse modo, o álbum é uma celebração do legado de Dave Mustaine e de tudo o que a banda representa para o metal. O Megadeth sai de cena não com um sussurro, mas com o eco de um riff que deve ressoar pelas próximas décadas.

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Acredito que séries, filmes e rock são mais do que entretenimento, eles dizem muito sobre quem somos. Redatora, crítica e teorizadora, escrevo para provocar reflexão, compartilhar paixões e explorar o impacto da cultura pop na vida real.