Crítica | Narciso: identidade, fantasia e a armadilha do ver sem olhar
Buda Filmes/Divulgação

Crítica | Narciso: identidade, fantasia e a armadilha do ver sem olhar

Uma lembrança incômoda voltou enquanto assistia Narciso: a de crescer consumindo histórias onde os heróis nunca se pareciam comigo. Era como brincar de se imaginar em um lugar onde você claramente não cabia. O filme de Jeferson De (“M8 – Quando a morte socorre a vida”) parece partir exatamente desse desconforto, mas o faz com uma leveza que, em vez de acolher, simplifica demais uma questão que pede mais cuidado – e talvez mais profundidade.

A proposta, no papel, é instigante. Ao se apropriar do mito de Narciso, tradicionalmente associado à vaidade e ao fascínio pela própria imagem, o longa opta por um caminho inverso: aqui, o protagonista não se admira, ele hesita diante de si. Interpretado por Arthur Ferreira, esse jovem carrega marcas de rejeição e insegurança que o afastam da própria identidade, criando um conflito interno que poderia render um estudo sensível e complexo sobre raça e pertencimento.

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E, de fato, há sinais disso logo na abertura. A câmera de Jeferson De aposta no close prolongado. Quando esse plano se estende no tempo, ele deixa de ser apenas estético e passa a ser narrativo – obriga o espectador a encarar aquele rosto, a procurar emoções, a se confrontar com o que está ali. É um início promissor. O problema é que o filme não sustenta essa promessa.

Ao introduzir o elemento fantástico – um gênio que oferece ao protagonista a chance de viver outra realidade –, a narrativa se encaminha para um terreno previsível. A ideia de experimentar uma vida alternativa como forma de aprendizado já foi explorada inúmeras vezes, e aqui surge sem grandes variações. Há um certo charme inicial nessa virada, mas ele rapidamente se dissipa quando percebemos que o roteiro opta pelo caminho mais fácil.

Essa nova realidade, onde o protagonista vive em uma família rica e branca, é construída com um simbolismo bastante explícito. A fotografia ao preto e branco nesse mundo fantasioso, e a direção de arte reforça essa oposição com elementos visuais que remetem a uma lógica quase didática – como se cada detalhe estivesse ali para garantir que o espectador entenda a diferença entre os mundos. Funciona? Funciona. Mas também limita.

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Quando o cinema explica demais, ele reduz a participação do público. E Narciso faz isso com frequência. A oposição entre afeto e riqueza, por exemplo, é tratada como se fossem forças incompatíveis, o que empobrece a discussão. Na prática, sabemos que essas dimensões coexistem – ou deveriam coexistir –, mas o filme insiste em separá-las de forma rígida, quase como uma fábula infantil.

Ao adotar uma estrutura de fábula, o longa parece se contentar com uma moral simples, quando o tema que aborda exige camadas.

O roteiro é o principal responsável por essa sensação. Embora cumpra sua função básica de conduzir a história, ele carece de densidade. Os diálogos, em especial, são um ponto crítico. Soam artificiais, pouco naturais, como se os personagens estivessem ali apenas para transmitir ideias já prontas. Para o espectador, isso se traduz em uma experiência menos envolvente, porque falta espontaneidade – aquela sensação de que estamos assistindo a pessoas reais, e não a vozes de um texto.

Isso afeta diretamente o trabalho do elenco. Mesmo com nomes experientes, como Seu Jorge, Bukassa Kabengele, e, principalmente, Ju Colombo, muitos momentos parecem engessados. Há uma diferença clara entre interpretar e apenas reproduzir falas, e aqui essa linha é frequentemente ultrapassada. A exceção aparece em instantes pontuais, quando algum ator consegue imprimir mais vida ao que está sendo dito, mas são lampejos em meio a uma encenação irregular.

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A montagem também sofre com essa indecisão tonal. O filme oscila entre o realismo – ancorado em questões sociais concretas – e a fantasia mais alegórica. Ele os coloca lado a lado, criando uma sensação de desalinhamento. Isso gera um estranhamento, como se a narrativa não soubesse exatamente que tipo de história quer contar.

E há ainda um fator difícil de ignorar: o tédio. Apesar da relevância do tema, Narciso não consegue manter o interesse ao longo de sua duração. Falta ritmo, falta tensão dramática, falta carisma. É curioso, porque a premissa tem potencial para emocionar e provocar, mas a execução a torna previsível e, em alguns momentos, até monótona.

A comparação inevitável que surge é com narrativas mais leves e imaginativas, como aquelas que exploram o universo da fantasia com maior frescor e inventividade. Em Narciso, a sensação é de assistir a algo que tenta ser lúdico, mas sem o encanto necessário para sustentar essa proposta. Resultando em uma obra que parece mais um exercício de boas intenções do que um filme plenamente realizado.

Ainda assim, seria injusto ignorar o valor da discussão que o longa propõe. A questão da identidade, especialmente no contexto racial brasileiro, merece ser explorada no cinema. O problema é que Narciso trata esse tema com uma abordagem simplificada, quase pedagógica, o que reduz seu impacto.

Fica a impressão de que o filme quer dizer muito, mas acaba dizendo pouco. Há talento envolvido, há um elenco competente e há uma ideia central que poderia render algo potente. No entanto, ao optar por caminhos fáceis e soluções previsíveis, a obra se torna menos envolvente do que deveria. Resultando, ironicamente, num filme sobre se enxergar que, no fundo, evita olhar mais profundamente para si.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.