Crítica | No remake de 'O Sobrevivente' Wright acelera, freia e nunca mais encontra o ritmo
Paramount Pictures/Divulgação

Crítica | No remake de ‘O Sobrevivente’ Wright acelera, freia e nunca mais encontra o ritmo

Sempre admirei o cinema de Edgar Wright. Cresci acompanhando sua capacidade de transformar o ordinário em espetáculo – aquelas transições elétricas, a coreografia da montagem, o humor que escorre pelas frestas da mise-en-scène. Por isso, é curioso perceber que neste remake de O Sobrevivente, encontro justamente o que menos costumo ver nele: falta de identidade. É como se o diretor tivesse deixado sua caixa de ferramentas estilísticas na porta do estúdio. E como já comentei noutra crítica, aquela de Assassino por Acaso, Glen Powell tem tudo para se tornar uma estrela do cinema comercial; aqui, de fato, tentam catapultá-lo a esse posto – mas “tentam” é a palavra mais apropriada, porque quase nada ao redor sustenta esse voo.

A introdução do longa promete algo que nunca se concretiza. Somos lançados a um futuro em decomposição onde um reality show de caça ao homem domina a atenção coletiva, refletindo, de forma quase incômoda de tão óbvia, a saturação da nossa era de redes sociais, lives e programas de televisão que transformam humilhação em entretenimento. Desta vez, ao contrário da primeira adaptação dos anos 1980, não somos convidados a imaginar uma distopia possível; estamos, de certa maneira, olhando para um espelho já rachado. Só que, se a superfície é contemporânea, o interior parece congelado há 50 anos. O contexto está lá, mas não se transforma em nada além de um filme de ação genérico, daqueles que daqui a alguns anos passarão na TV aberta antes de um jogo do Brasileirão, para assistirmos enquanto esperamos o apito inicial.

O que mais chama atenção logo nos primeiros minutos é a energia inicial do filme. Wright monta a sequência de abertura com uma promessa de vigor; a câmera se infiltra pelos corredores estreitos, os cortes se encaixam no ritmo das ações, os neon avermelhados piscam como se anunciassem um espetáculo maior. É quase possível acreditar que o diretor retomou o fôlego perdido após “Noite Passada em Soho”, que sofreu da mesma irregularidade tonal que agora reaparece, mas em escala ainda mais evidente. O problema é que essa energia dura pouco. Conforme o filme avança, a montagem – que sempre foi o motor do cinema de Wright – perde a precisão, torna-se indistinta, incapaz de sustentar o frenesi que a história pede. A edição, que deveria ser o compasso da corrida, vira apenas um amontoado funcional de imagens.

Esse esvaziamento técnico se reflete na fotografia. Em vez da inventividade habitual – luzes conversando com o movimento, cores compondo camadas de humor ou tensão – encontramos um visual dessaturado, quase preguiçoso. Há uma tentativa de aproximar o longa do “realismo distópico”, mas tudo se transforma num monocromatismo sem vida. A decisão poderia funcionar se viesse acompanhada de uma direção que explorasse texturas ou contrastes, mas o que vemos é um filme que parece sempre filmado de modo apressado, como se sua personalidade visual estivesse perdida entre decisões de estúdio e compromissos com o material original.

Crítica | No remake de 'O Sobrevivente' Wright acelera, freia e nunca mais encontra o ritmo
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E é curioso, porque o elenco não só entrega o que precisa como dá a impressão de que está carregando o projeto nas costas. Glen Powell, especialmente, transita entre a fisicalidade e a ironia com um carisma que parece querer explodir para além das limitações do roteiro. Ele tem aquela aura de astro clássico, de protagonista que sabe exatamente como ocupar o quadro. Em alguns momentos, quando precisa correr desesperadamente por becos e túneis, você consegue ver o herói de ação que ele poderia ser – e o próprio filme parece saber disso, mesmo que não lhe dê ferramentas para ir além da superfície. Seu Ben Richards é um protagonista funcional, mas não marcante. Falta densidade emocional, falta conflito interno. Tudo é explicado em voz alta, como se o roteiro não confiasse no olhar do espectador.

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Esse é, aliás, um dos maiores problemas do filme: a verborragia. Cada personagem parece ter a obrigação contratual de explicar suas motivações, seu plano, seu pensamento político, sua frustração e o próximo passo do enredo. As cenas dramáticas são escritas como se estivessem traduzindo conceitos sociopolíticos para alunos da quinta série. Não há subtexto – há apenas texto. E texto demais. O espectador é carregado pela mão por diálogos que deveriam despertar reflexão, mas só geram cansaço. Quando se trata do comentário social, o filme grita ideias que já chegam mortas ao espectador, porque fazem parte de nosso cotidiano de forma muito mais complexa e assustadora do que o roteiro consegue abarcar.

Mesmo assim, a porção central do longa apresenta lampejos de criatividade – e talvez sejam esses fragmentos que façam os admiradores de Wright suspirar, lembrando do diretor que ele já foi. As sequências de perseguição, estruturadas como um jogo de gato e rato, exibem um frescor que faz o filme finalmente respirar. Wright coreografa esses momentos com uma linguagem mais lúdica, com ângulos inesperados e um uso eficiente do espaço urbano. É aí que a produção encontra sua melhor forma: quando abandona a pretensão de discursar e se dedica ao simples, honesto e prazeroso ato de entreter. Infelizmente, esses instantes são como pequenas ilhas num oceano de incerteza narrativa.

Do ponto de vista estrutural, o filme sofre com falhas de lógica interna. As regras do reality show mudam conforme a necessidade do roteiro, e não para criar suspense. Isso gera uma sensação de constante improviso, como se cada virada fosse pensada apenas para empurrar a história adiante. Essa instabilidade mina a credibilidade do mundo apresentado e esvazia o impacto dramático das escolhas dos personagens. A narrativa, que deveria nos conduzir com clareza por esse labirinto fatal, acaba nos deixando mais confusos do que engajados.

Crítica | No remake de 'O Sobrevivente' Wright acelera, freia e nunca mais encontra o ritmo
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A reta final, que deveria concluir toda essa jornada em alta voltagem, tropeça de forma quase cômica. A mudança abrupta de tom transforma um filme que flertava com o absurdo e com a sátira em um drama pesado, porém raso. Quando a mensagem finalmente surge – aquela que deveria amarrar o comentário social ao destino dos personagens – ela chega com a sutileza de um caminhão desgovernado. Nada surpreende, nada emociona, nada se sustenta. É, no fundo, uma tentativa frustrada de recuperar a seriedade que o próprio filme abandonou muito antes.

O Sobrevivente me deixa com a impressão de que Edgar Wright correu essa maratona com os tênis errados. Como admirador do diretor, sinto falta das digitais que o tornaram inconfundível. Como alguém que há tempos diz que Glen Powell pode se tornar o próximo grande rosto do cinema comercial, vejo aqui apenas um ensaio tímido – um brilho que surge, mas não ilumina. O filme tenta ser moderno, tenta dialogar com o mundo atual, tenta repetir um clássico… tenta demais e faz pouco.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.