O que acontece depois do fim do mundo? A resposta mais comum no cinema tende a ser uma variação sobre a luta pela sobrevivência, um reducionismo físico onde o último bastião da humanidade enfrenta hordas de criaturas bestiais. Extermínio: O Templo Dos Ossos, no entanto, sugere que a verdadeira batalha é mais interna, complexa e, pasmem, potencialmente hilária.
Dirigido por Nia DaCosta a partir de outro roteiro onírico de Alex Garland, este novo capítulo de Extermínio faz uma escolha radical: em vez de replicar a gramática visual frenética e desesperada de Danny Boyle, o novo capítulo planta os pés nos escombros e pergunta: que tipo de sociedade brota do lixo do colapso? A resposta é um filme visceral e filosoficamente rico, que equilibra horror corporal com comédia absurda e, no meio disso, nos convida a sentir empatia por quem perdeu não só o mundo, mas a própria sanidade.
Ao continuar diretamente os eventos do longa anterior, DaCosta, com a intenção de deixar sua marca na franquia, faz questão de abandonar completamente a assinatura frenética de Boyle. Se antes a câmera nervosa e a montagem fragmentada eram parte essencial da experiência, agora o olhar é outro. A direção opta por uma encenação mais clássica, mais focada em observar comportamentos. Essa mudança não é apenas formal, mas ideológica. Ao desacelerar o olhar, o filme passa a investigar os resíduos emocionais e simbólicos do apocalipse, aquilo que sobra quando a adrenalina da sobrevivência já não é suficiente para sustentar uma narrativa.

Visualmente, isso se traduz em uma fotografia que valoriza contrastes menos agressivos, mas sem perder sua desconfortável profundidade. O mundo continua sujo, corporal, muitas vezes repulsivo, mas há uma estranha organização no enquadramento, como se aquelas ruínas já tivessem sido habitadas por tempo suficiente para se tornarem reconhecíveis.
Nesse sentido, a montagem desempenha papel crucial. Ela permite pausas e repetições que constroem sentido aos poucos. Certas cenas retornam a gestos cotidianos, quase banais. O horror deixa de ser apenas o ataque iminente e passa a ser a normalização do absurdo. Quando personagens convivem com figuras monstruosas como se fossem parte da rotina, o espectador é convidado a repensar o que define humanidade naquele contexto. A montagem respeita esse desconforto e não tenta resolvê-lo rapidamente.
A trilha sonora, por sua vez, assume uma função quase narrativa. As escolhas musicais servem para criar comentários irônicos ou até afetivos sobre as cenas. Em alguns momentos, a música surge de forma literal dentro da ação, criando set pieces que misturam violência, humor e estranhamento. Essa relação direta entre som e imagem reforça o tom de delírio que permeia o filme. Aqui, DaCosta faz uma tentativa consciente de traduzir uma mente coletiva que cresceu sem filtros e hierarquias culturais claras.
É nesse terreno que surgem personagens como Jimmy Crystal, vivido por Jack O’Connell, cuja presença domina a tela com uma energia inquietante. Isso porque Crystal é super inocente, crente, patético e assustador, tudo ao mesmo tempo. A performance de O’Connell é excessiva por escolha, quase teatral, e isso faz sentido dentro da lógica do filme.

Jimmy não é apenas um antagonista ou líder carismático de uma seita; ele é a materialização de uma infância interrompida que encontrou no caos uma forma de brincar de poder. Sua mitologia pessoal, construída a partir de referências infantis – como os Teletubbies – e crenças católicas fragmentadas, funciona como comentário direto sobre como o imaginário pode se tornar ferramenta de dominação quando não há educação emocional ou social.
Em contraste, o personagem Ian Kelson, interpretado por Ralph Fiennes, oferece outra resposta possível ao mesmo trauma coletivo. Kelson é a representação um ideal anárquico no sentido puro: não o caos, mas a auto-organização comunitária, a ajuda mútua sem hierarquias. O filme é inteligente ao não tratá-lo como um herói clássico ou um salvador, mas como alguém tão moldado pelo fim do mundo quanto seus antagonistas, apenas guiado por outro tipo de crença e a experiências de ter vivido no mundo pré-apocalipse.

A relação de Kelson com uma criatura infectada, carinhosamente chamada de Sansão (Chi Lewis-Parry), exemplifica essa ideia de forma tocante e, inesperadamente, cômica. As cenas entre os dois mostram uma convivência quase rotineira, um vínculo que desafia a lógica binária de “humano vs. monstro”. O filme sugere que a verdadeira infecção pode não ser biológica, mas social e psicológica. Por fim, ainda no tópico do Fiennes, eu nunca imaginei que fosse curtir tanto uma cena dele performando Iron Maiden até ter assistido isso no cinema.

Nia DaCosta, vinda do universo mais controlado da Marvel, demonstra uma liberdade criativa admirável. Ela não tenta emular Boyle; ela dialoga com ele, propondo uma nova gramática visual e emocional para o mesmo mundo. Ela usa o esqueleto de uma franquia de zumbis para questionar como nossas sociedades se formam, como nossas crenças são moldadas pelo trauma e como, no fim, a anarquia do cuidado pode ser mais salvadora do que a ordem da tirania.
O filme funciona como um templo construído com os ossos do mundo velho, mas que aponta, de forma torta e genial, para possibilidades radicalmente novas de se estar junto – mesmo quando tudo já parece perdido. O apocalipse, afinal, pode ser só o começo de uma conversa muito mais complicada sobre quem realmente somos.
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