O Mago do Kremlin é o tipo de filme que parece maior do que realmente é. Não necessariamente pela ambição – que aqui existe –, mas pela forma como tentam ocupar um espaço simbólico que nunca chegam a preencher. A adaptação de um romance francês premiado de Giuliano da Empoli, é um desses casos curiosos que começa como um retrato íntimo de um tempo histórico específico, mas gradualmente se transforma em algo mais rígido, quase protocolar, como se estivesse mais preocupado em registrar acontecimentos do que em compreendê-los.
Dirigido por Olivier Assayas, o longa acompanha Vadim Baranov – ou Vádia – interpretado por Paul Dano, uma espécie de versão ficcionalizada de um assessor próximo ao poder russo. A proposta inicial é sedutora ao mergulhar na Rússia dos anos 1990, período de transição caótica após o colapso da União Soviética, e observar como figuras aparentemente periféricas orbitam e moldam os centros de poder.
Nesse primeiro momento, o filme encontra sua melhor forma. Há uma energia viva nas sequências que exploram a cena cultural e política nascente, especialmente quando acompanhamos a relação entre Vádia e Ksena, vivida por Alicia Vikander. A câmera parece mais livre, interessada nos corpos, nas roupas, nos gestos – e, nesse aspecto, o figurino merece destaque, pois ajuda a construir identidade e contexto sem depender de longas explicações. Para o espectador, mesmo aquele menos familiarizado com a história russa recente, essa abordagem funciona como uma porta de entrada acessível.

Mas há um ponto de inflexão claro: a introdução de Vladimir Putin na narrativa. Interpretado por Jude Law, o personagem surge cercado de expectativa – tanto dramática quanto histórica. No entanto, o que poderia ser um aprofundamento psicológico se revela, pouco a pouco, uma superfície. Law entrega uma composição competente no nível mais imediato: gestos contidos, olhar rígido, uma presença calculadamente fria. Ainda assim, falta densidade. O filme parece contentado em reproduzir sinais externos de poder, sem investigar o que os sustenta.
Esse esvaziamento não se limita à atuação. Ele se infiltra na própria estrutura narrativa. Ao tentar dar conta de eventos históricos complexos, o roteiro adota uma lógica quase burocrática: fatos são apresentados com rapidez, como se estivessem sendo listados. Para o público, isso pode gerar a sensação de estar assistindo a um resumo ilustrado, em vez de uma dramatização que permita sentir o peso dessas transformações. Quando se fala em “burocrático” no cinema, não se trata apenas de ritmo lento, mas de uma organização que prioriza a informação sobre a experiência.

É nesse ponto que o filme revela sua dificuldade de equilibrar o íntimo e o histórico. Assayas parece menos à vontade ao lidar com uma narrativa de escala política mais ampla. Diferentemente de cineastas que transitam com naturalidade entre o pessoal e o épico, aqui há uma espécie de desalinhamento. O filme quer ser, ao mesmo tempo, um estudo de personagem e uma crônica histórica abrangente, mas acaba não se aprofundando plenamente em nenhum dos dois.
Curiosamente, essa tentativa de grandeza faz com que o longa, em certos momentos, se aproxime do próprio protagonista – uma figura que opera nos bastidores, moldando discursos e narrativas, mas que talvez não possua uma identidade sólida fora dessas construções. O filme, assim como Vádia, parece querer parecer algo maior, mais articulado e mais influente do que realmente é. Há um desejo constante de se afirmar como uma obra definitiva sobre aquele período, mas o resultado soa mais como um eco – interessante, por vezes envolvente, mas ainda assim um eco.
Isso não significa que não haja méritos. A direção de arte e o cuidado com a ambientação ajudam a situar o espectador em um período histórico específico sem exigir conhecimento prévio. Além disso, o início do filme demonstra uma sensibilidade que poderia ter sido explorada com mais consistência. A relação entre Vádia e Ksena, por exemplo, sugere um caminho mais humano e menos institucional, que poderia ter servido como eixo central da narrativa.
Outro ponto que merece menção é o impacto emocional do desfecho. Ainda que o percurso até lá seja irregular, o filme consegue, em seus momentos finais, estabelecer uma conexão mais direta com o espectador. Há uma mudança de tom que surpreende e, em certa medida, compensa a frieza que domina boa parte da obra. Essa oscilação, no entanto, também evidencia o quanto o filme poderia ter sido mais coeso se tivesse confiado mais em suas dimensões emocionais desde o início.

O Mago do Kremlin deixa uma impressão ambígua. Há momentos em que captura algo autêntico – seja na estética, nas relações ou na atmosfera de um período conturbado. Mas também há uma sensação persistente de vazio, como se a obra tivesse descartado parte de seu potencial ao tentar abarcar demais. É um trabalho que se observa mais do que se sente, que se entende mais do que se vivencia.
É um filme que convida à leitura de suas intenções, mas que, por vezes, falha em transformá-las em experiência cinematográfica plena. Ainda assim, para quem se interessa por narrativas políticas ou por adaptações literárias ambiciosas, permanece como uma obra que vale a visita – mesmo que apenas para refletir sobre aquilo que poderia ter sido.
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