O Morro dos Ventos Uivantes
Foto: reprodução/warner

Crítica | O Morro dos Ventos Uivantes transforma clássico em um dark romance erótico, estiloso e divisivo

Margot Robbie e Jacob Elordi protagonizam uma releitura intensa, sensual e assumidamente moderna do romance de Emily Brontë

Margot Robbie e Jacob Elordi protagonizam uma releitura intensa, sensual e assumidamente moderna do romance de Emily Brontë

Atenção, esse texto contém spoiler.

Existe algo quase provocativo nessa nova adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes. Desde o primeiro trailer, que já deixava claro um tom erótico e sexual muito mais explícito do que o de costume, ficou evidente que o filme não estava nem um pouco preocupado em agradar os mais puristas. E o resultado é bem esse: uma versão intensa, estilizada e até meio fanfiqueira do clássico de Emily Brontë, feita para conquistar quem ama dark romance e incomodar quem esperava algo mais tradicional.

A história gira em torno de Catherine Earnshaw (Margot Robbie) e Heathcliff (Jacob Elordi), acompanhando o nascimento de um romance que parece existir só para destruir os dois. Heathcliff, o filho adotivo do inquilino, e Catherine entram num ciclo nada saudável de obsessão, rejeição e vingança, enquanto tentam lidar — ou fugir — da própria paixão doentia. O roteiro não tenta amenizar essa toxicidade. Pelo contrário: transforma o relacionamento caótico no centro de tudo.

A direção aposta forte em um gótico contemporâneo, cheio de enquadramentos sensuais, sombras carregadas e uma atmosfera que mistura romantismo decadente com estética moderna. É um filme que claramente quer ser sentido mais do que entendido. E isso pode ser ótimo ou frustrante, dependendo do tipo de experiência que quem assiste está buscando.

Margot Robbie entrega uma Catherine intensa, imprevisível e emocionalmente instável, transitando com facilidade entre fragilidade e crueldade. Jacob Elordi constrói um Heathcliff mais explosivo e físico do que em outras versões, sempre à beira do colapso. A química entre os dois funciona e segura até os momentos mais melodramáticos, que são vários. O elenco de apoio acaba ficando um pouco apagado, mas isso parece uma escolha consciente de manter o foco total na obsessão do casal.

A direção de arte e os figurinos também ajudam bastante a construir o clima do filme. A estética é atemporal, sem compromisso rígido com o período histórico, claramente pensada para conversar com o público atual. Vestidos escuros, texturas pesadas e paisagens sempre ventosas criam uma sensação constante de desconforto. A casa dos Earnshaw e os espaços externos quase viram personagens, refletindo o estado emocional dos protagonistas. Em alguns momentos, dá até a sensação de estar assistindo a algo que poderia muito bem ter sido dirigido por Tim Burton em obras como “A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça”.

O Morro dos Ventos Uivantes
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O erotismo é, sem dúvida, um dos pontos que mais dividem opiniões. Já causava discussão desde o material de divulgação do longa, e continua sendo o aspecto mais comentado do filme. Sem entrar em detalhes gráficos, a sexualidade aparece como linguagem narrativa, usada para mostrar o quanto Catherine e Heathcliff são emocionalmente dependentes e profundamente doentes de amor um pelo outro. Para alguns, isso soa exagerado ou apelativo. Para outros, faz sentido como uma tradução contemporânea da intensidade extrema que sempre esteve na obra original.

A montagem reforça essa sensação quase febril. O filme alterna cenas de paixão intensa com silêncios longos e trocas de olhares carregadas, criando uma narrativa que muitas vezes parece guiada mais pela emoção do que pelos acontecimentos em si. Em vários momentos, a história parece mais uma lembrança distorcida do que uma sequência cronológica tradicional, escolha que pode encantar quem gosta de experiências mais sensoriais, mas afastar quem prefere algo mais linear.

Fica claro também que o projeto foi pensado para ser moderno e gerar conversa. A estética, o ritmo acelerado e a forma como o romance é apresentado apontam para uma tentativa deliberada de reposicionar o clássico dentro do universo do dark romance atual. Isso traz frescor, mas acaba deixando algumas camadas sociais e psicológicas do livro mais simplificadas.

A decisão mais polêmica está na estrutura da narrativa. O filme conta apenas metade da história e encerra tudo com a morte de Catherine. Isso significa que não vemos o Heathcliff consumido pelo luto nem os desdobramentos mais perturbadores que marcaram outras adaptações. O final funciona como um clímax emocional forte, mas deixa uma sensação clara de que falta algo, como se estivéssemos vendo só a primeira parte de uma história maior.

Essa escolha abre espaço para especulações sobre uma continuação ou versão expandida no futuro, já que o material restante do livro permitiria uma abordagem ainda mais sombria. Ao mesmo tempo, o corte abrupto também pode ser visto como uma decisão consciente de focar apenas na fase mais intensa e passional do relacionamento, transformando a trama em uma tragédia romântica concentrada, curta e emocionalmente pesada.

No fim das contas, a nova versão de O Morro dos Ventos Uivantes está longe de ser uma adaptação clássica. É uma releitura moderna, exagerada sem pedir desculpas, com cara de fanfic de grande orçamento e energia total de dark romance. Para quem ama o livro, pode parecer superficial e sensual demais. Para quem gosta de histórias intensas, personagens tóxicos e romances que beiram o autodestrutivo, é exatamente o tipo de caos que vai dividir opiniões e render muita discussão.

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Jornalista e formada em Cinema, apaixonada por cultura asiática e por contar histórias. Provavelmente já assisti tanto aos filmes do Adam Sandler que poderia atuar em qaulquer um sem precisar de roteiro.