Crítica | O Ônibus Perdido: quando o heroísmo cotidiano enfrenta o espetáculo da catástrofe
Apple TV/Divulgação

Crítica | O Ônibus Perdido: quando o heroísmo cotidiano enfrenta o espetáculo da catástrofe

Existe um certo consenso entre os amantes de cinema de que a experiência cinematográfica não se resume apenas à história contada, mas também ao invólucro que a embala. O tamanho da tela, a imersão sonora, a escuridão da sala que isola o espectador do mundo lá fora. Por isso, causa uma ponta de frustração saber que um artesão do calibre de Paul Greengrass, um diretor que construiu carreira dominando a gramática do thriller de ação com câmera trêmula e montagem elétrica, tenha visto seus últimos trabalhos desembarcarem diretamente nos corredores virtuais do streamingO Ônibus Perdido, que chegou discretamente ao catálogo da Apple TV, é o mais novo exemplo dessa sina.

Baseado nos trágicos incêndios florestais que assolaram a Califórnia em 2018, o filme tem todos os ingredientes para ser uma experiência avassaladora numa sala escura, mas acaba reduzido à dimensão de uma tela de computador, o que, de certa forma, dialoga com a própria natureza contraditória da obra: um espetáculo visual grandioso que insiste em olhar para o homem comum, miúdo, sufocado pelas labaredas e pelas contas do mês.

A trama é enxuta e, num primeiro momento, até clássica em sua construção. Greengrass, que já havia navegado por águas semelhantes no tenso “Voo United 93”, repete a fórmula de colocar pessoas comuns diante de um evento extraordinário. Desta vez, o centro do furacão é Kevin, um motorista de ônibus escolar interpretado por Matthew McConaughey.

Quando um incêndio de proporções bíblicas engole a cidade de Paradise, Kevin precisa usar o veículo que dirige para resgatar um grupo de crianças e a professora Mary, papel de America Ferrera, levando-os para longe do inferno de fogo. A premissa é direta e o diretor não perde tempo: em poucos minutos, estamos no olho do furacão, acompanhando a fuga desesperada.

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Tecnicamente, Greengrass entrega o que se espera de um profissional de seu calibre. A fotografia, assinada por Pål Ulvik Rokseth, alterna planos aéreos estarrecedores do mar de chamas com closes sufocantes dentro do ônibus, é um espetáculo à parte. O diretor de fotografia consegue captar a textura da fumaça, a coloração alaranjada e sinistra do céu, e como a luz do fogo deforma os rostos dos passageiros, tornando a tragédia palpável. É um trabalho de cinema puro, que apela para os sentidos de forma quase tátil.

A edição de som, outro departamento que Greengrass sempre trata com extremo zelo, é um personagem à parte: o crepitar das labaredas, o vento uivante, o ranger do ônibus tentando vencer o asfalto derretido. A montagem, por sua vez, é aquela velha conhecida do diretor: nervosa e fragmentada. Ela não nos permite respirar, jogando o espectador para dentro do veículo, fazendo com que sintamos cada curva, cada fagulha que passa rente ao vidro. Há uma sequência, uma tomada aérea do ônibus cercado pelo fogo por todos os lados, que sintetiza a potência visual do cinema de desastre: é a imagem do apocalipse, mas vista de cima, como se os deuses assistissem, impotentes, à luta dos mortais.

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No entanto, se a encenação do perigo é irretocável, o mesmo não se pode dizer do tratamento dado ao humano. Greengrass sempre flertou com o realismo documental, e em Voo United 93 isso funcionou porque os atores eram rostos pouco conhecidos, permitindo que a projeção do espectador fosse imediata. Aqui, temos McConaughey, um astro, e Ferrera, uma atriz muito conhecida.

O problema não é a escalação em si, mas o que o roteiro co-escrito pelo diretor ao lado de Brad Ingelsby, faz com eles. Para construir o “herói comum”, o filme sobrecarrega Kevin com uma série de problemas pessoais que parecem retirados de um manual de dramaturgia preguiçoso. Além de enfrentar o fogo, ele precisa lidar com a mãe acamada, a ex-esposa, as contas atrasadas e, o mais gritante, um filho adolescente que o despreza por ser “apenas” um motorista de ônibus. A intenção, claro, é humanizá-lo, mostrar que o heroísmo nasce da adversidade cotidiana. O efeito, porém, é o oposto. Em vez de um homem real, Kevin se torna um amontoado de tragédias pessoais, uma espécie de mártir proletário cuja função na narrativa é sofrer para que no final possamos nos emocionar com seu sacrifício.

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Essa estratégia acaba minando a própria mensagem que o filme tenta passar. Ao nos lembrar a cada dez minutos de que Kevin é um homem falido, endividado e desrespeitado pelo próprio sangue, o roteiro cria uma camada de sentimentalismo que conflita com a crueza do desastre. O capitalismo exaustivo, a falta de reconhecimento, a luta de classes, todos esses temas são levantados, mas nunca aprofundados, servindo apenas como adereços para tornar a jornada do protagonista mais “dramática”. Quando o filme finalmente encontra seu clímax emocional, com Kevin reencontrando o filho após a tragédia, a cena soa como um clichê fabricado, um “tapa na cara” que tenta emular a catarse, mas soa vazio justamente por ser construído com ferramentas tão grosseiras.

E é uma pena, porque nos momentos em que Greengrass confia na força bruta das imagens e na competência de seus atores, o filme atinge voos altíssimos. America Ferrera, em especial, consegue equilibrar a fragilidade e a força de uma professora que precisa manter a calma para não desesperar as crianças. Há uma cena, dentro do ônibus, em que ela canta para acalmar os pequenos enquanto o fogo lambe as janelas, que é de uma beleza singela e devastadora. É nesses momentos de silêncio – ou de silêncio interrompido pelo caos – que O Ônibus Perdido encontra sua alma. O problema é que, assim como o ônibus de Kevin, o filme vive tentando desviar das árvores em chamas para não esbarrar em mais um obstáculo narrativo desnecessário.

Há quem diga que o cinema de desastre, popularizado nos anos 1970, perdeu-se nos excessos da computação gráfica e na espetacularização vazia. Greengrass tenta, com seu estilo quase documental, resgatar a essência do gênero, a luta pela sobrevivência de gente comum. Nesse aspecto, ele é bem-sucedido. O problema é que, ao tentar expandir o drama pessoal de seu protagonista para além do incêndio, ele acaba criando um ruído que compromete a sintonia fina entre o espetáculo e a emoção. O resultado é um filme que impressiona pela técnica, assusta pelo realismo do fogo, mas que, ao depositar o peso da narrativa nos ombros de um herói fabricado pelo roteiro, perde a oportunidade de ser tão humano quanto gostaria. Fica a imagem de um grande filme de desastre queimando lentamente, sufocado pelas próprias cinzas de um sentimentalismo que não lhe pertencia.

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