Crítica | O Primata prova que o pior inimigo é quem não precisa de motivo
Paramount Pictures/Divulgação

Crítica | O Primata prova que o pior inimigo é quem não precisa de motivo

Se você é do tipo que gosta de suspense, O Primata não está interessado em te deixar com dúvidas: o filme avisa logo de cara que um chimpanzé vai perder a cabeça, virar assassino e transformar uma festa à beira da piscina num pesadelo sangrento. É como se o longa dissesse, sem enrolação: “relaxa, não precisa pensar, só segura a pipoca”. E, acredite, o que falta em sutileza sobra em eficiência. É desastre anunciado, mas compromissado com a diversão.

O filme de Johannes Roberts, conhecido por dirigir dois filmes de animais assassinos, no caso tubarões em, “Medo Profundo” e em sua continuação, agora volta a comandar outra obra dentro de seu habitat natural. O diretor se apoia em uma premissa simples e não tenta disfarçar isso. A ideia é direta ao ponto – um chimpanzé infectado pela raiva começa a atacar uma família e um grupo de amigos, e a partir daí o que vemos é uma sucessão de confrontos em um espaço claustrofóbico, com poucos recursos e quase nenhuma esperança de resgate. A narrativa não se preocupa em explorar subtramas ou desenvolver camadas psicológicas; ela escolhe o caminho mais curto e intenso, sem deixar margem para distrações.

Essa clareza excessiva, que poderia ser vista como uma limitação, funciona como uma espécie de compromisso com o público. Os letreiros iniciais já explicam o que a raiva faz, o filme ainda insiste em mostrar que o ambiente é isolado, que não há vizinhos e a piscina fica literalmente à beira de um precipício. Tudo isso elimina a dúvida e deixa o espectador em um estado curioso de impotência: você sabe exatamente o que está acontecendo, mas ainda assim se pega esperando para ver qual será a próxima insanidade. O Primata não quer que você adivinhe o que vai acontecer; ele quer que você observe, como se estivesse vendo um acidente de carro em câmera lenta.

Crítica | O Primata prova que o pior inimigo é quem não precisa de motivo
Paramount Pictures/Divulgação

E é justamente nesse ponto que o filme encontra seu maior mérito: a tensão não vem do mistério, mas do confronto. A casa e a área ao redor se transformam em um cenário de sobrevivência, onde cada tentativa de fuga se torna uma armadilha e cada decisão errada pode ser fatal. O chimpanzé Ben, embora seja um animal, ganha uma aura de vilão de slasher – ele não age como um bicho selvagem, mas como um antagonista com estratégia e inteligência. Ele desaparece e reaparece, manipula objetos e parece sempre um passo à frente. Essa transformação do primata em uma espécie de “psicopata” é justamente o ponto em que o filme ultrapassa a barreira da simples agressividade animal e entra no território do absurdo consciente.

A escolha por efeitos práticos, em vez de CGI, é outro ponto que chama atenção. Ben é claramente interpretado por um ator em traje, mas isso não soa negativo; ao contrário, dá ao filme uma textura mais “viva”, quase artesanal. A fotografia ajuda, porque evita expor o artifício com luz excessiva ou planos longos que poderiam revelar a montagem do traje. A câmera prefere cortes rápidos, sombras e enquadramentos que valorizam o realismo da violência. O resultado é um horror físico, com sangue e impacto palpáveis.

Crítica | O Primata prova que o pior inimigo é quem não precisa de motivo
Paramount Pictures/Divulgação

A montagem também cumpre um papel fundamental: ela mantém o ritmo acelerado e impede que a narrativa se torne lenta ou repetitiva. Não há espaço para contemplação, e isso ajuda a sustentar a tensão. Mas, ao mesmo tempo, essa mesma velocidade revela um problema: os personagens não têm tempo para existir além do estereótipo. Os rapazes são a caricatura do frat boy – barulhentos, competitivos, mais interessados em impressionar do que em sobreviver. As garotas, por sua vez, aparecem como figuras que tropeçam, hesitam e tomam decisões burras, o que pode ser interpretado como uma escolha de direção ou como uma falha de construção. De qualquer forma, o filme deixa claro que não se importa em criar empatia com eles; eles são peças do jogo, não pessoas.

Essa falta de profundidade humana fica ainda mais evidente quando o roteiro quase descarta a possibilidade de exploração emocional. Quando um personagem é eliminado, o impacto dramático é quase inexistente, porque não havia um vínculo afetivo sólido para ser quebrado. O Primata só tem compromisso com o entretenimento imediato: o que importa é a ação, o choque e o riso diante de cenas absurdas.

Crítica | O Primata prova que o pior inimigo é quem não precisa de motivo
Paramount Pictures/Divulgação

E, mesmo assim, o filme não é completamente desprovido de tentativas interessantes. A presença de um pai surdo e o uso de linguagem de sinais introduzem um elemento de comunicação que poderia render algo mais profundo. A ideia de que o chimpanzé também entende libras, por exemplo, abre portas para um jogo narrativo mais rico, mas o roteiro prefere manter tudo no nível mais óbvio, usando esses recursos de forma pontual e sem explorar o potencial dramático.

No final das contas, O Primata é um filme que vai no seguro. Ele tem o compromisso de ser um entretenimento rápido e eficiente. E isso, embora não seja exatamente um elogio, não é um defeito fatal. O longa entrega o que promete: gore, tensão e um humor involuntário que surge quando a lógica humana entra em colapso diante de um chimpanzé estrategista. O problema é que, passada a adrenalina, sobra pouco para lembrar. O Primata diverte, mas corre o risco de ser esquecido tão rapidamente quanto os personagens desaparecem diante do animal assassino.

Leia outras críticas:

Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.