Que o cinema brasileiro é rico e de altíssima qualidade não é novidade. O assunto tornou-se ainda mais comentado após o filme brasileiro “Ainda Estou Aqui” marcar lindamente sua presença no Oscar desse ano, e com ele, clássicos da nossa produção audiovisual, como “Cidade“ de Deus” e “Central do Brasil”, voltaram aos holofotes.
No entanto, o sucesso de Ainda Estou Aqui nas bilheterias brasileiras foi a exceção que confirma a regra. A verdade é que o povo brasileiro não se atrai por filmes de dramas que criticam contextos sociais do Brasil. O cinema nacional sempre teve na comédia sua maior força de conexão com o público. Ao retratar sotaques, costumes e o famoso “jeitinho brasileiro” com humor e leveza, ela segue sendo o gênero que mais enche salas – e esse também é um cinema que merece espaço e valorização.
Contudo, a comédia brasileira também exige forma e estrutura. Sua construção narrativa é tão desafiadora (senão mais) que a dos dramas tão celebrados pelas premiações cinematográficas. Combinar um roteiro fraco, um elenco conhecido e algumas piadas que arrancam risadas tímidas do público não são suficientes para uma boa comédia.
Foram com esses questionamentos que saí da sessão de O Rei da Feira, novo filme estrelado por Leandro Hassum. No longa, Hassum interpreta Monarca, um policial e segurança de feira livre que, desde criança, possui dons mediúnicos. Sem conseguir lidar direito com sua habilidade de conversar com os mortos, Monarca se vê em apuros quando Bode (Pedro Wagner), um feirante que acaba de ganhar uma grande quantia no jogo do bicho, é assassinado. Agora, acompanhado pelo espírito de Bode, um fantasma que sofre de amnésia alcoólica e não consegue lembrar quem o matou, Monarca precisa investigar o caso e descobrir quem está por trás do crime.

A premissa de O Rei da Feira não é inédita. A combinação de comédia e sobrenatural centrada na relação entre um morto e um médium que não lida bem com seus dons já foi vista outras vezes no cinema. Quem já assistiu “Ghost – Do Outro Lado da Vida” ou até a série turca “Aposta de Outro Mundo” reconhece de longe a fórmula. A grande diferença dessa vez é o cenário brasileiro da feira livre, que ganha vida própria e funciona quase como um personagem à parte, dando à história uma identidade tipicamente nacional.
No geral, as atuações são consistentes. Hassum retoma seu estilo cômico característico e sustenta o ritmo do filme com facilidade, dando vida a Monarca com naturalidade e fluidez. Pedro Wagner não fica atrás, entregando uma atuação envolvente que equilibra e complementa a dinâmica da dupla. Os demais atores cumprem bem seus papéis, sem grandes destaques, com exceção de Talita Younan. Interpretando uma médica legista influenciadora, Younan consegue, mesmo em poucas cenas, arrancar tantas risadas genuínas do público quanto a dupla principal.

Porém, o grande acerto de O Rei da Feira está na fotografia e na cenografia, que conseguem transportar o público diretamente para a agitação de uma feira livre. A composição recria o ambiente com autenticidade, explorando elementos facilmente reconhecíveis do imaginário coletivo brasileiro. As barracas de frutas, o pastel típico, as cores vibrantes, a agitação característica, tudo contribuí para uma construção natural da energia e diversidade do local. A ambientação é tão bem construída que o público compra rapidamente a ideia de que aqueles feirantes formam uma família, o que torna muito mais fácil aceitar e se envolver com as relações entre os personagens.
Contudo, apesar desses pontos, o roteiro enfraquece o filme. Embora divertido, o filme carece de desdobramentos bem trabalhados e de uma conclusão satisfatória. A narrativa recorre a atalhos preguiçosos, o encerramento é apressado e insatisfatório e o longa deixa de explorar a oportunidade de ressignificar a relação conturbada entre o personagem de Hassum e seus dons mediúnicos. O final, com sua tentativa de “felizes para sempre”, soa superficial, apoiando-se em clichês que dão a impressão de que tudo acabou bem, sem realmente encerrar a história. O roteiro parece temer aprofundar os momentos emocionais da trama, como se isso comprometesse a comédia construída até o momento. Uma pena, porque é possível – e desejável – equilibrar humor e reflexão, algo que o próprio Hassum já provou em “Tudo Bem no Natal que Vem“. Porém, em O Rei da Feira essa camada mais profunda fica apenas no esboço.
O Rei da Feira é uma comédia agradável e despretensiosa, que diverte enquanto dura, mas não se fixa na memória do espectador. E esse é justamente um dos desafios do cinema brasileiro. Não há problema algum no forte do país ser a comédia e em ela atrair o público, mas essa força poderia ser aproveitada para dialogar com a plateia sobre temas relevantes, como já vimos em outros filmes que equilibraram humor e reflexão. O problema surge quando a comédia subestima a inteligência do público, recorre a atalhos narrativos e se apoia no pastelão para “dar certo”. O Rei da Feira cumpre seu papel: diverte, agrada e tem seu espaço, mas não vai além. Recusa-se a desenvolver camadas que poderiam enriquecer a história, deixando o filme limitado a uma experiência agradável, porém esquecível, no melhor estilo “Sessão da Tarde”.
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