Crítica | Palestina 36: só para burrinhos
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Crítica | Palestina 36: só para burrinhos

Existe um tipo muito específico de filme que não quer exatamente ser visto – quer ser entendido. Ou melhor, quer garantir que você entenda tudo, sem margem para erro, dúvida ou, Deus nos livre, interpretação. Palestina 36 é esse filme. Um projeto que olha para o público como quem olha para uma lousa vazia e pensa: “vamos começar do básico, beeem básico mesmo”. Não há sutileza, não há risco, não há silêncio que não venha acompanhado de sublinhado em negrito. É cinema com rodinhas, cuidadosamente embalado para exportação, onde cada elemento parece calibrado para evitar qualquer possibilidade de confusão no espectador ocidental médio – essa criatura mítica que, aparentemente, não consegue lidar com complexidade histórica sem um manual ilustrado.

Dirigido por Annemarie Jacir (“Wajib”), se propõe a revisitar um momento-chave da história palestina: o ano de 1936, sob o Mandato Britânico, quando eclode a revolta árabe contra o domínio colonial e o avanço do projeto sionista. O filme tenta se equilibrar entre duas ambições bastante distintas: de um lado, um épico histórico de formação nacional pan-árabe; de outro, um retrato mais cru e quase documental da luta popular, em clara referência ao modelo de “A Batalha de Argel”. No papel, é uma combinação promissora. Na prática, o resultado oscila – e tropeça – entre essas duas propostas.

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É preciso reconhecer o feito quase inacreditável da produção: começar a filmar uma semana após o 7 de outubro já insere o projeto em um contexto de urgência raramente visto. Há uma pulsação política real, uma necessidade de dizer algo agora, custe o que custar. E isso transborda em momentos específicos – especialmente nas performances.

Yasmine Al Massari entrega uma presença que tenta ancorar o filme em humanidade, ainda que o roteiro nem sempre colabore. Até Jeremy Irons, em um daqueles momentos que parecem deslocados da própria carreira, surge praticamente acusando genocídio em cena – algo que, convenhamos, poucos esperavam testemunhar em vida.

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Mas urgência não substitui construção. E Palestina 36 sofre justamente por não conseguir organizar o seu ímpeto. A narrativa se apresenta como um mosaico de personagens e arcos que jamais encontram um eixo dramático consistente. Em duas horas que parecem, paradoxalmente, curtas demais, o filme tenta abraçar uma quantidade excessiva de trajetórias, sem oferecer tempo suficiente para que qualquer uma delas respire. Obviamente isso acaba resultando numa montagem truncada, com uma sensação constante de que estamos assistindo a uma versão condensada de algo maior – talvez um corte mais longo, talvez uma série, talvez apenas um filme que precisasse decidir melhor o que quer ser.

A estrutura tripartite – britânicos, elites palestinas e “o povo” – até sugere uma complexidade inicial, mas rapidamente se revela um artifício superficial. Na prática, tudo é conduzido por uma espécie de olhar onisciente que distribui falas e funções de maneira didática, quase escolar. Não há espaço para contradição real, para conflito interno ou ambiguidade política. A história é limpa, organizada, didaticamente palatável.

O recorte histórico também levanta questões. Ao escolher 1936 como ponto de origem quase mítico, o filme opta por uma “restauração” que deliberadamente se desconecta do presente – o que, considerando o contexto de produção, soa no mínimo curioso. Elementos fundamentais daquele período, como a greve geral de 1936–39, as redes de organização rural e as tensões entre campo e cidade, são relegados a pano de fundo. O que se vendia como um mergulho na complexidade histórica vira uma espécie de vitrine: informativa o suficiente para iniciantes, mas simplificada demais para quem busca profundidade.

Essa é a intenção do filme, ainda que não declarada. Palestina 36 parece concebido como uma obra de exportação. Tudo em sua linguagem aponta para um público internacional presumidamente pouco familiarizado com o “xadrez político” do Oriente Médio. As explicações são mastigadas, os conflitos são delineados com contornos grossos, e as mensagens são entregues sem muita sutileza. Funciona como introdução? Sim. Mas também limita o potencial da obra a algo próximo de um manual ilustrado.

Isso se reflete diretamente na sua “intervenção política”. Ao final, o que fica é algo próximo de um slogan“nunca confie em um sionista” – que, embora ressoe com parte do público, empobrece o debate ao reduzi-lo a uma máxima simplista. Há um mundo possível em que o filme poderia explorar as contradições internas, as disputas ideológicas e os dilemas morais daquele momento histórico. Nesse mundo, talvez Palestina 36 fosse um filme mais incômodo, mais difícil.

O mais irônico é que, ao tentar construir um épico fundacional, o filme acaba se tornando excessivamente seguro. Falta risco. Falta desordem. Falta a sensação de que estamos diante de um processo vivo, e não de uma narrativa já resolvida. A luta que ele retrata foi tudo menos linear ou consensual – e o cinema aqui parece domesticá-la para caber melhor em festivais e circuitos internacionais.

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Ainda assim, não deixa de ser uma experiência marcada por contradições. É possível sair da sessão emocionado, tocado pelo contexto – e, ao mesmo tempo, frustrado com o filme em si. Talvez porque, ao olhar para a Palestina, seja impossível dissociar estética de ética. Mas isso não deveria servir como blindagem crítica.

Se há algo que Palestina 36 evidencia é que a causa que defende merece um cinema à altura de sua complexidade. Um cinema que tolere o ruído, que abrace as fissuras, que permita que o cotidiano e o político se contaminem mutuamente. Um cinema que não tenha medo de ser contraditório – porque a história, afinal, raramente é limpa.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.