Vivemos grudados em telas. A câmera, que há duas décadas era um artefato de cineastas e paparazzi, agora mora no bolso de qualquer um de nós, registrando desde o café matinal até situações de violência urbana. Em São Paulo, cidade onde este remake se passa e onde, a sensação de vigilância é onipresente. Não apenas a dos celulares, mas a das câmeras de segurança em cada esquina, a dos porteiros eletrônicos, a dos alarmes que berram na madrugada. É nesse caldo cultural que a diretora Gabriela Amaral Almeida mergulha para refilmar Quarto do Pânico, clássico do suspense de David Fincher. A pergunta que não quer calar, e que o filme responde com hesitação, é: o que mudou, além da tecnologia, nesses mais de vinte anos?

A premissa permanece a mesma: uma mãe (Isis Valverde) e sua filha (Marianna Santos) se trancam em um cômodo à prova de balas durante a invasão de sua casa por três criminosos (Caco Ciocler, André Ramiro e Marcos Pigossi). A violência que vitimou o marido, mostrada em uma tentativa de assalto – uma cena que qualquer paulistano reconhece com um frio na espinha – é o motor para a busca por segurança máxima. A diretora e o roteirista Fabio Mendes fazem ajustes pontuais para nacionalizar a história. A trilha sonora, por exemplo, abre com o swing irônico de Wilson Simonal (“Nem Vem que Não Tem”), um contraponto audacioso à tensão que se estabelece a seguir. Os invasores ganham nuances sociais em seus diálogos, pequenas motivações que tentam ir além da pura ganância, distribuídas como migalhas de contexto pelo roteiro.
No entanto, é justamente na relação com a tecnologia visual – o grande divisor de águas entre 2002 e hoje – que o filme mais peca por omissão. A narrativa segue tão aferrada ao roteiro original de David Koepp que ignora a revolução do olhar contemporâneo. Em 2002, as telas de monitoramento dentro do quarto do pânico eram um elemento de estranhamento e claustrofobia. Hoje, somos habitués de telas. O filme não explora, por exemplo, a possibilidade de a menina, uma nativa digital, tentar usar redes sociais ou mensageiros para pedir socorro de forma criativa, ou mesmo o pânico dos invasores ao se verem filmados pelos próprios celulares. A câmera de segurança permanece um dispositivo passivo, um ponto de vista, quando ela poderia ser um personagem ativo, um campo de batalha. É uma oportunidade perdida de aguçar o suspense com as ferramentas do nosso tempo.
A direção de Gabriela é competente, mas parece refém de uma aura “Netflix” – aquela estética limpa, iluminada de forma genérica, com um ritmo de montagem que prioriza a clareza narrativa em detrimento de uma assinatura autoral mais ousada. A fotografia é funcional, ilumina bem os atores e os cenários, mas falta textura, falta a respiração opressiva que o grande cinema de suspense sabe criar.

Compare-se, por exemplo, com o trabalho claustrofóbico da diretora em “O Animal Cordial”, onde o espaço era também um campo de tensão social e psicológica, e percebe-se que aqui ela trabalha com as rédeas curtas. A montagem constrói a tensão de maneira eficaz, especialmente no terço final, que se aproxima mais de um suspense psicológico e onde, curiosamente, sentimos mais a mão da cineasta. É quando a violência deixa de ser uma ameaça externa e se torna uma resposta possível, mergulhando em dilemas morais, que o filme encontra sua voz mais interessante.
O elenco é irregular. Isis Valverde entrega uma mãe em pânico crível, mas o roteiro pouco faz para desenvolver sua personagem além do arquétipo da “mãe protetora”. Caco Ciocler e Marcos Pigossi parecem se divertir em seus papéis de vilões, mas escorregam para a caricatura em alguns momentos, mais por conta de diálogos que os simplificam do que por falta de empenho. Destacam-se, positivamente, a jovem Marianna Santos, que consegue transmitir a dolorosa perda da inocência e uma astúcia precoce e comovente, e André Ramiro, que dá ao seu invasor uma carga de cansaço e humanidade falha que ressoa.

O filme acerta quando conecta o pânico privado daquelas paredes com o pânico público das nossas ruas. A sensação de que nenhuma cerca elétrica é alta o suficiente, nenhum alarme é barulhento demais, e que a negociação pela própria vida é um jogo perverso que a sociedade já entrou, é traduzida com precisão. A violência, o filme parece dizer, é um líquido que sempre encontra uma fenda.
O Quarto do Pânico de Gabriela Amaral Almeida é um objeto cinematográfico peculiar: um remake bem executado, atualizado na superfície, mas conservador na sua essência narrativa e técnica. Ele entende o medo brasileiro, mas hesita em filmar esse medo com os olhos de hoje. Funciona como um thriller competente para uma noite de streaming – onde será diretamente lançado. No entanto, para uma cineasta de seu talento e originalidade, soa como um exercício de estilo seguro demais.
É como se, ao entrar no cômodo à prova de tudo, o filme tivesse trancado para fora suas próprias possibilidades mais ousadas e necessárias. Ficamos, assim, com a sensação de um potencial parcialmente realizado, observando, através da tela estática do monitor, uma história que já conhecíamos, quando poderíamos estar vivendo, de forma muito mais visceral, a que só essa nova época – e essa nova diretora – poderiam contar.
Quarto do Pânico será lançado na sexta-feira (13), com exclusividade no Telecine.
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