Ruas da Glória, em seu título, carrega consigo uma ironia involuntária ao parecer que quer evocar um espaço de iluminação, de êxtase, de encontro – um lugar onde corpos e desejos se cruzam com algum tipo de sentido, ainda que provisório. Mas o que o filme de Felipe Sholl entrega é justamente o oposto, um percurso errático, quase desnorteado, em que nem as ruas conduzem a lugar algum, nem a tal “glória” se manifesta para além de uma ideia vaga, jamais concretizada. Assim como seu protagonista, o longa vagueia, perdido entre intenções, sem nunca encontrar um eixo que o sustente.
Há, claramente, um fascínio de Sholl por Gabriel – e, por extensão, por Caio Macedo – que acaba sendo mais prejudicial do que produtivo. A câmera insiste, retorna, alonga, como se buscasse extrair uma profundidade que o roteiro simplesmente não oferece. Resultando num protagonista esvaziado, não no sentido existencial que o filme talvez almeje, mas na incapacidade de se construir como alguém minimamente interessante. Falta dimensão, sobra insistência.
Essa fragilidade estrutural se espalha por todo o filme. O roteiro é rarefeito, com lacunas evidentes que pediriam um trabalho mais rigoroso de edição. No entanto, a montagem parece se recusar sistematicamente ao corte – como se cada cena precisasse provar algo que nunca chega a se justificar. Sequências se estendem para além do necessário, repetem informações já dadas e diluem qualquer impacto possível. O que poderia ser contemplativo torna-se apenas cansativo.
Existe, por outro lado, uma tentativa – válida em princípio – de explorar a sexualidade como linguagem imagética. Mas o filme rapidamente transforma esse recurso em muleta. As cenas de sexo, carregadas de tensão, desejo e conflito, aparecem como repetições coreografadas, desprovidas de pulsão. São longas, insistentes e, paradoxalmente, assépticas. Há nelas mais cálculo do que entrega, mais pose do que provocação.

Tematicamente, Ruas da Glória também parece ecoar um padrão já bastante desgastado dentro de certo cinema LGBTQIAPN+ contemporâneo brasileiro: o jovem gay solitário, à deriva, atravessado por relações tóxicas, uso de substâncias e um ambiente que mais oprime do que revela. A diferença é que, aqui, essa abordagem não encontra novas camadas nem complexidade. Tudo soa raso, reiterativo, quase automático – como se estivesse mais interessado em reproduzir um imaginário do que em investigá-lo.
Outro fator curioso está no trabalho da cinematografia do longa. Primeiro por conta de uma representação de um Rio de Janeiro com poucas cores e planos fechados. Essa decisão estética é evidentemente feita para mostrar que o protagonista, mesmo estando em uma grande capital, está preso em um mundinho particular – que é quebrado justamente pela cena final começar com um plano aberto. Outro ponto é a aproximação visual de dois filmes com temática queer parecidas – “Baby”, de Marcelo Caetano; e “Ato Noturno”, de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon – que, numa comparação injusta, torna Ruas da Glória o menos interessante entre os três.
Quando o filme tangencia elementos potencialmente mais interessantes – como a subcultura do cruising ou a relação entre corpo e cidade – há um vislumbre de algo mais vivo. Mas são momentos breves, superficiais, que não deixam marca. O foco retorna rapidamente ao vazio relacional entre Gabriel e Adriano (Alejandro Claveaux), um vínculo que nunca se desenvolve o suficiente para gerar envolvimento ou empatia.

É uma pena que outros personagens, sobretudo a figura maternal e empoderada de Mônica (Diva Menner), ficam subutilizados numa trama previsível de uma relacionamento intensado, mas, desde o início, fadado ao fracasso.
Há também um certo desconforto na maneira como o longa associa sexo, vício e punição, como se o prazer estivesse sempre condenado a um desfecho degradante. Não que tais conexões não possam existir, mas aqui elas surgem de forma simplista, quase moralista – o que é particularmente frustrante em um filme que aparenta querer dialogar com questões contemporâneas do cinema queer.
Ao lado de outras obras brasileiras recentes, Ruas da Glória navega por águas similares, porém com muito menos apuro dramático e humano que seus “filmes-irmãos”. O longa de Sholl parece uma versão mal acabada de si. É um filme que quer falar sobre glória, mas se contenta em se perder nas esquinas, sem nunca encontrar a sua própria razão de ser.
As ruas continuam ali, mas a tal glória nunca chega.
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