Crítica | 'Socorro!' brinca com as regras das comédias românticas numa divertida sessão sangrenta
20th Century Studios/Divulgação

Crítica | ‘Socorro!’ brinca com as regras das comédias românticas numa divertida sessão sangrenta

Socorro! parte de uma premissa que, à primeira vista, poderia facilmente escorregar para um terreno confortável e previsível. Há ecos claros de narrativas de sobrevivência em ambientes hostis, histórias de convivência forçada, daquela comédia romântica clássica em que duas pessoas incompatíveis precisam aprender a se tolerar longe da civilização. O que impede o filme de seguir esse caminho é a presença de Sam Raimi, um diretor que transforma qualquer situação limite em espetáculo físico, emocional e, sobretudo, cinematográfico. O diretor pega um possível romance e transforma num comentário sobre poder, trabalho, ego e humanidade – tudo embalado em sangue, humor e exagero.

No longa, Linda Liddle (Rachel McAdams), uma funcionária subestimada, e Bradley Preston (Dylan O’Brien), seu chefe arrogante, se veem presos em uma situação extrema de sobrevivência que dissolve, à força, qualquer noção de conforto, hierarquia ou civilidade. Isolados numa ilha deserta após sobreviverem um acidente de avião, eles são obrigados a conviver, enfrentar não apenas um ambiente hostil e imprevisível, mas também as tensões acumuladas de uma relação profissional marcada por abuso de poder, ego inflado e ressentimentos.

Raimi não retorna apenas ao horror; ele retorna ao prazer de encenar. Isso é perceptível desde os primeiros minutos, quando a direção opta por uma encenação expansiva, quase caricata, que deixa claro que o realismo não é o objetivo central. O cineasta aposta em movimentos de câmera abruptos, aproximações repentinas e enquadramentos que parecem invadir o espaço dos personagens. Para o espectador menos habituado à linguagem do diretor, isso pode soar excessivo. Mas o excesso, aqui, é parte do método. Raimi utiliza o exagero como ferramenta narrativa para materializar estados psicológicos: o medo, a paranoia, o ressentimento e, principalmente, a sensação de aprisionamento – não apenas físico, mas social e emocional.

Crítica | 'Socorro!' brinca com as regras das comédias românticas numa divertida sessão sangrenta
20th Century Studios/Divulgação

A montagem desempenha papel fundamental nessa construção. Os cortes são precisos e frequentemente inesperados, criando um ritmo que alterna entre o riso nervoso e o choque direto. Em muitos momentos, a edição brinca com a expectativa do público, sugerindo um desfecho para uma cena apenas para subvertê-lo segundos depois. Essa dinâmica mantém o filme em constante estado de alerta, algo essencial em uma narrativa que se apoia quase inteiramente na interação entre dois personagens. Não há espaço para dispersão: cada corte, cada elipse, cada repetição visual serve para aprofundar o conflito central.

Visualmente, Socorro! abraça uma estética deliberadamente artificial. Os efeitos visuais nem sempre buscam a perfeição técnica, e isso não parece um acidente. Pelo contrário, há uma intenção clara em preservar um aspecto quase artesanal, remetendo a um cinema mais físico, onde o impacto vem mais da encenação e da composição do que da ilusão digital impecável.

A fotografia valoriza contrastes fortes, com cores que saltam da tela e reforçam o tom quase cartunesco do horror, basta notar como as cenas noturnas exageramente bem iluminadas – quase como se o filme gritasse: isso é um estúdio!”. O sangue não é apenas um elemento de choque; ele se torna parte da mise-en-scène, um componente plástico que dialoga com a proposta cômica e grotesca do filme.

Essa abordagem estética conversa diretamente com o trabalho dos atores. McAdams constrói uma personagem que, embora apresentada inicialmente sob uma camada de submissão e fragilidade social, jamais soa passiva. Sua trajetória é marcada por pequenas rupturas, gestos contidos e mudanças sutis de postura que indicam uma transformação interna antes mesmo que o roteiro a explicite. Raimi filma essa evolução com atenção quase didática, aproximando a câmera nos momentos certos, permitindo que o espectador perceba nuances que, em mãos menos cuidadosas, passariam despercebidas.

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Já Dylan O’Brien assume o papel mais ingrato: o do sujeito privilegiado, infantilizado e, em muitos aspectos, ridículo. O mérito de sua atuação está em nunca buscar redenção. O personagem evolui, sim, mas carrega consigo as marcas de uma criação baseada no conforto e na ausência de consequências. Raimi explora isso visualmente, frequentemente enquadrando-o para diminuir sua presença ou expor sua inadequação diante do ambiente hostil. É um daqueles antagonista que provoca riso, irritação e, ocasionalmente, um desconforto reflexivo – afinal, suas atitudes não são tão distantes de certas dinâmicas corporativas bem conhecidas.

O roteiro entende que o verdadeiro horror não está apenas nas situações extremas, mas nas relações de poder que se revelam quando todas as convenções sociais são arrancadas. Ao colocar chefe e funcionária em um cenário de sobrevivência, o filme escancara o quão frágeis são as hierarquias quando o conforto desaparece. O segundo ato, mais alongado, pode testar a paciência de parte do público, mas cumpre uma função essencial: permitir que a relação entre os protagonistas se construa de forma orgânica. Sem esse tempo dedicado ao convívio forçado, as transformações posteriores soariam apressadas ou artificiais.

A trilha sonora contribui para o tom ambíguo da obra. Em vez de reforçar apenas o suspense, a música frequentemente assume um caráter quase lúdico, criando um contraste irônico com a violência em cena. Esse recurso reforça a ideia de que Raimi não está interessado em um horror puramente opressivo, mas em um jogo constante entre tensão e alívio, medo e gargalhada. É um equilíbrio delicado, mas que o diretor domina com segurança.

Crítica | 'Socorro!' brinca com as regras das comédias românticas numa divertida sessão sangrenta
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Há, claro, limitações. Alguns efeitos visuais quebram momentaneamente a imersão, e certas piadas podem não ressoar com todos os públicos. Ainda assim, esses deslizes parecem pequenos diante da coerência estética e temática do conjunto. Socorro! não busca agradar pela neutralidade; ele provoca, exagera e assume riscos. Então faz parte desse jogo

No fim, Socorro! é menos interessado em responder se seus personagens merecem redenção e mais em questionar estruturas que normalizamos no cotidiano. Ao transformar o horror em uma espécie de catarse. Socorro! é um lembrete de que o cinema de gênero, quando guiado por uma visão autoral clara, ainda pode ser um espaço de invenção, comentário social e, acima de tudo, diversão na sala do cinema.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.