“Garçom, tem pitú? Traz!”
Eles andam pelas noites para garantir o almoço seguinte, ganhando aplausos por sucessos de outros, sem, muitas vezes, conseguir lançar uma música autoral em décadas. Não é a mesma cultura, não é o mesmo cenário, mas as semelhanças entre os protagonistas de Song Sung Blue: Um Sonho a Dois com Laércia Dantas, são maiores do que Neil Diamond, artista no qual o casal faz tributo.
E talvez seja por isso que a história do filme bate mais forte do que a própria ideia de tributo. Porque não se trata de celebrar um ídolo, mas de observar um tipo de gente que o cinema raramente escolhe como protagonista: os artistas que não viraram lendas, que não têm legado, que não têm destino glorioso escrito no roteiro. O que eles têm é insistência, e isso, às vezes, é o único tipo de magia que sobra quando o mundo não oferece palco.
O cinema, nos últimos anos, parece obcecado por biografias musicais. A lógica é quase sempre a mesma: alguém nasce com talento, sofre, quase desiste, vira mito. Mesmo quando o roteiro tenta desconstruir essa trajetória, ela continua lá, organizada, limpa, com destino claro. É como se a vida só merecesse ser filmada quando termina em coro de vitória. E o que fica fora dessa lógica é justamente a maior parte da música, a parte que não vira história.
Em meio a produções como “Elvis”, “Um Completo Desconhecido” ou “Springsteen: Salve-me do Desconhecido”, Song Sung Blue se coloca numa prateleira estranha. Não há gênio incompreendido, não há legado em disputa. O que existe é um casal que canta covers porque é isso que mantém a vida andando. Eles não estão atrás de fama, mas de continuidade. E isso, por si, já é um ato de coragem.

O longa, dirigido por Craig Brewer, poderia ter sido apenas mais um relato de amor e superação, mas opta por mostrar o que acontece quando o sonho não vira realidade. O filme se inspira na história real de Lightning e Thunder, dois músicos de Milwaukee que transformaram sua admiração por Neil Diamond em um show tributo.
Mike, interpretado por Hugh Jackman, é um veterano da Guerra do Vietnã, alcoólatra em recuperação, cansado de se vestir como Buddy Holly e repetir apresentações automáticas em feiras e eventos regionais. Ele não quer mais interpretar alguém. Quer cantar como ele mesmo – ainda que isso não signifique nada além de trocar um figurino por outro.
Claire, vivida por Kate Hudson, entra em cena como quem ainda acredita. Mãe de dois filhos, intérprete de Patsy Cline, sorriso fácil, presença magnética. Eles se encontram no palco, se reconhecem rápido demais, como costuma acontecer quando a música vira atalho emocional. Logo são casal, dupla, marca. Lightning e Thunder. Casam. Passam a viver da estrada curta, dos palcos improvisados, dos contratos incertos.
Até aqui, Song Sung Blue parece promissor. Existe um frescor nessa ideia de observar artistas que não caminham rumo ao topo, mas apenas em círculos um pouco maiores. No entanto, Brewer não resiste à tentação do melodrama. Quando os shows começam a dar certo, Claire sofre um grave acidente de carro, e o filme entra em modo tragédia contínua. A narrativa acelera, o tempo se comprime, e a vida do casal passa a ser definida mais por choques do que por rotina.

Esse é um dos grandes problemas de Song Sung Blue. Ao tentar justificar a própria existência com sofrimento acumulado, ele perde a chance de observar o que há de mais interessante nessa história: a persistência banal. A arte como hábito, não como redenção. Os diálogos, muitas vezes, reforçam essa artificialidade. Frases soam ensaiadas demais, explicativas demais, como se o roteiro tivesse medo de deixar silêncio entre uma música e outra. É fácil prever certas falas, certos conflitos, certos movimentos emocionais.
Ainda assim – e talvez contra todas as expectativas – Song Sung Blue funciona onde menos se espera: nas cenas musicais. É ali que o filme relaxa. Quando Jackman e Hudson estão no palco, cantando Neil Diamond para plateias pequenas, algo muda. A encenação fica mais leve, o exagero vira brincadeira, o filme parece entender que não precisa se levar tão a sério. Há prazer ali. Há jogo. Há até humor.
Jackman, inclusive, parece mais confortável quando está cantando do que quando está sofrendo. Seu Mike começa como um sujeito arrogante, convencido de que o mundo lhe deve reconhecimento. Isso incomoda – como incomoda na vida real. Com o tempo, o personagem suaviza, mas nunca perde completamente esse traço. Hudson, por sua vez, sustenta Claire com uma energia contagiante. Mesmo quando o roteiro insiste em colocá-la em situações extremas, sua presença mantém o filme respirando.
E é impossível ignorar o impacto da experiência coletiva. Song Sung Blue é um filme que funciona melhor no cinema do que em casa. As cenas musicais pedem volume alto, pedem gente ao redor, pedem risos quando o exagero beira o cafona. É contagiante ouvir “Sweet Caroline” ecoando na sala, mesmo que você nunca tenha sido fã. Em casa, sozinho, talvez o melodrama pese mais. No cinema, ele se dilui no entretenimento.
Isso não significa que os problemas desapareçam. Song Sung Blue repete imagens demais, insiste em sublinhar emoções que já estavam claras, e transforma o acidente de Claire em um recurso quase apelativo. Brewer parece desconfiar da simplicidade da história que escolheu contar. Em vez de confiar que a vida desses artistas comuns já é suficiente, ele tenta moldá-la à lógica da cinebiografia clássica.
Mas talvez o maior mérito de Song Sung Blue seja não ridicularizar seus personagens. Mesmo quando exagera, o filme nunca olha para Lightning e Thunder com desprezo. Há respeito ali. Eles não são tratados como piada, nem como fracasso. São pessoas que encontraram na música um jeito de existir. Isso, por si só, já os distancia de tantas caricaturas comuns no cinema.
É genuinamente bonito em ver gente comum insistindo no que ama, mesmo sem promessa de recompensa. Dentistas, mecânicos, guias turísticos – como o próprio filme sugere – que encontram no palco um segundo nome. O roteiro poderia explorar isso com mais delicadeza, mas não anula essa sensação.
No fim, Song Sung Blue é um filme cheio de falhas, escolhas discutíveis e excessos dramáticos. Ainda assim, ele entrega algo uma diversão inesperada, um prazer simples de assistir, cantar junto, se envolver. Talvez não seja um grande retrato desses cantores que nunca deram certo. Talvez pudesse ser mais honesto, mais contido, mais atento aos detalhes. Mas, como muitos deles, Song Sung Blue segue em frente apesar disso. E, às vezes, isso já basta.
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