Não é raro encontrarmos filmes que parecem nascer prontos para serem admirados antes mesmo de serem plenamente compreendidos. Sonhos de Trem se apresenta exatamente assim: um objeto cuidadosamente lapidado, composto por imagens amplas e silenciosas, que convidam o espectador a contemplar a vastidão da paisagem e a sentir o peso do tempo. Tudo ali parece querer comunicar algo profundo sobre a existência, a solidão e o luto. O problema é que o filme de Clint Bentley, ao tentar verbalizar em excesso essas intenções, acaba se afastando daquilo que prometia inicialmente: uma experiência sensível e aberta, daquelas que o cinema, em seu melhor estado, é capaz de oferecer sem precisa falar.
Ambientado no oeste americano do início do século XX, Sonhos de Trem acompanha a trajetória de Robert Grainier (Joel Edgerton), um trabalhador ferroviário que atravessa vastas paisagens enquanto tenta sobreviver às transformações impostas pelo progresso e às marcas profundas de uma tragédia pessoal.
Homem comum, de gestos contidos e poucas palavras, Robert vê sua vida ser atravessada pelo luto, pela solidão e pelo avanço implacável da modernidade, que aos poucos redesenha tanto o território quanto sua própria percepção de mundo.
A construção estética da obra dialoga de maneira evidente com um imaginário já consolidado no cinema norte-americano contemporâneo. A influência de Terrence Malick é incontornável, não apenas no uso da narração em voice-over (de Will Patton), mas na forma como a natureza é filmada como entidade moral, quase espiritual. Campos abertos, árvores recortadas pela luz natural, personagens pequenos diante da paisagem; tudo sugere uma busca por transcendência. No entanto, essa escolha soa excessivamente familiar, como se o filme adotasse uma gramática estética já validada pelo circuito de prestígio.

Essa sensação de fórmula se intensifica na relação entre imagem e palavra. O roteiro de Bentley e Greg Kwedar insiste em explicar estados emocionais e reflexões internas que o próprio protagonista parece incapaz de formular. Em vez de confiar no silêncio, nos gestos contidos ou na duração dos planos, o filme recorre a trechos literários ditos em voz alta, como se temesse que a imagem, sozinha, não fosse suficiente. Trata-se de uma escolha problemática, sobretudo em uma adaptação literária, porque desloca o cinema de sua força específica – o mostrar – para um excesso de dizer. O resultado é uma experiência mais ilustrativa do que interpretativa.
O personagem central, vivido por Edgerton, é construído como um homem marcado pela perda e pela solidão, alguém que atravessa a vida com uma espécie de estoicismo resignado. Edgerton, como de costume, entrega uma atuação sólida e contida, sem apelar para explosões emocionais. Seu corpo em cena carrega cansaço e contenção, e há momentos em que seu olhar comunica mais do que qualquer fala. Ainda assim, o filme parece não confiar plenamente nessa performance, recorrendo à narração para reforçar sentimentos já sugeridos na encenação. Essa redundância enfraquece o impacto dramático e reduz a complexidade do seu protagonista.
Do ponto de vista técnico, a direção de fotografia, do brasileiro Adolpho Veloso, é, sem dúvida, o elemento mais consistente e admirável de Sonhos de Trem, tanto é que o longa figura entre os favoritos no aspecto durante a temporada de premiação. Veloso uso da luz natural cria composições de grande beleza, especialmente nas cenas externas, em que o espaço rural é filmado com atenção ao ritmo do dia e às variações climáticas.



Há um cuidado evidente com enquadramentos que valorizam a relação entre figura humana e ambiente, sugerindo a insignificância do indivíduo diante de forças maiores. Em cenas de interação entre personagens, a câmera frequentemente mantém certa distância, reforçando a ideia de isolamento emocional. São imagens que funcionam quase como quadros, capazes de impressionar mesmo fora do contexto narrativo.
No entanto, essa sofisticação visual não encontra equivalente na montagem ou na estrutura narrativa. O ritmo do filme oscila entre a contemplação prolongada e uma linearidade excessivamente organizada, que suaviza qualquer risco formal. A montagem raramente desafia o espectador a preencher lacunas ou a lidar com ambiguidades temporais. Ao contrário, tudo é apresentado de maneira clara e progressiva, como se o filme quisesse conduzir o público por um caminho seguro. Essa opção retira da obra a possibilidade de surpresa e a torna, em certo sentido, inerte: bela, mas previsível.
A trilha sonora contribui para essa sensação de insistência emocional. Em vários momentos, a música sublinha de forma enfática aquilo que a imagem já sugere, ampliando o tom melodramático. Em vez de criar contraste ou tensão, a trilha reforça a leitura mais óbvia das cenas, empurrando o espectador para uma resposta emocional específica. Essa abordagem aproxima o filme de um sentimentalismo calculado, que busca comover mais pelo acúmulo de sinais do que pela construção orgânica de afetos.
Tematicamente, Sonhos de Trem se insere em uma tradição recente de narrativas sobre homens em crise, deslocando conflitos externos para um colapso interno. O sofrimento do protagonista é tratado como algo quase universal, ligado à condição humana e à passagem do tempo. Ainda que essa abordagem possa gerar reflexões interessantes, aqui ela parece operar no automático, sem problematizar suas próprias escolhas. O luto e a solidão são apresentados como estados contemplativos, quase poéticos, mas raramente ganham densidade social ou histórica que os tornaria mais específicos e, paradoxalmente, mais potentes.

A tentativa de alcançar verdades universais – sobre a conexão entre tudo que existe, sobre ciclos naturais e insignificância humana – acaba diluindo o impacto dessas ideias. Quando o filme se esforça para responder perguntas existenciais complexas com frases de efeito ou imagens excessivamente calculadas, ele perde a chance de deixar essas questões em aberto. O cinema, nesse caso, poderia se beneficiar mais da dúvida do que da certeza.
No fim, Sonhos de Trem é um filme que impressiona pelo acabamento, mas que encontra dificuldade em transformar beleza em pensamento. Sua fotografia exemplar não é acompanhada por decisões narrativas igualmente ousadas, e a insistência em explicar sentimentos limita a participação ativa do espectador. Há ali um desejo genuíno de poesia, mas ela surge domesticada, organizada demais para realmente provocar.
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