Tem uma cabana no meio da floresta. Dentro dela, uma mulher tenta entender se o perigo mora lá fora ou se já está instalado no sofá ao lado, tomando café e insistindo que ela coma um pedaço de bolo de chocolate – mesmo ela tendo dito, claramente, que odeia chocolate. “Achei que todas as mulheres gostavam”, diz o namorado, num comentário que deveria ser apenas uma bobagem romântica, mas que, visto de perto, revela uma camada incômoda de desconsideração. É assim que Para Sempre Medo, novo filme de Osgood Perkins, constrói seu terror, com pequenas violências cotidianas, dessas que a gente aprende a relevar em nome do amor.
O problema é que, entre uma ideia promissora e sua execução, o filme parece ter se perdido no caminho – ou, quem sabe, nunca soube direito para onde estava indo.

Liz, interpretada por Tatiana Maslany, que faz milagres com o pouco que lhe é dado, está há um ano com Malcolm (Rossif Sutherland). Para celebrar a data, o casal segue para uma cabana isolada, propriedade da família dele. Antes mesmo de chegar, uma amiga de Liz já plantou a pulga atrás da orelha: será que Malcolm não é casado? Será que Liz não está repetindo, mais uma vez, o papel de amante que sempre representou em outros relacionamentos? A suspeita não se confirma, mas fica no ar como aqueles cheiros estranhos que aparecem em casas antigas.
Na cabana, as coisas começam a descarrilar devagar. Aparecem o primo irritante de Malcolm, Darren (Kett Turton), e sua namorada silenciosa, Minka (Eden Weiss), que não fala inglês e parece ter saído de um pesadelo. Depois, Malcolm precisa voltar para a cidade – uma emergência no hospital, diz ele – e Liz se vê sozinha, sem carro, sem saída, e com a sensação incômoda de que não está sozinha. É o cenário ideal para um filme de terror clássico. Mas Para Sempre Medo não parece interessado em ser clássico. Quer ser outra coisa. O problema é que não sabe bem o quê.
Perkins tem um estilo reconhecível. Desde “A Enviada do Mal”, em 2015, ele vem construindo uma filmografia que mistura o estranho e o familiar. Suas casas são quentes, mas seus corredores parecem não ter fim. Suas luzes são amareladas, mas as sombras que projetam são mais escuras do que deveriam. Em Para Sempre Medo, essa estética funciona. A cabana é um personagem à parte, com suas janelas que parecem olhos e seus respiradores que sussurram segredos.
A fotografia de Jeremy Cox é um deleite – cada enquadramento parece pensado para nos deixar desconfortáveis sem que saibamos explicar por quê. Os cortes secos, as dissoluções que transformam cabelos em árvores, a sensação de que a câmera está sempre um passo atrás da protagonista; tudo isso é cinema de primeira linha.

Mas cinema não é só imagem. É também história. E é aí que a cabana desaba.
O roteiro, assinado por Nick Lepard, parece ter sido escrito em modo automático. Liz ouve barulhos, vai investigar, não encontra nada. Depois ouve de novo, vai investigar de novo, não encontra nada de novo. Depois tem um pesadelo. Depois acorda. Depois ouve mais barulhos.
A repetição não é usada como ferramenta de construção de tensão – é usada porque, aparentemente, não havia outra ideia para preencher o tempo até o final. Quando o sobrenatural finalmente resolve aparecer, já estamos tão anestesiados que o susto chega mais como alívio do que como medo.
Há, sim, temas importantes sendo trabalhados ali. O filme fala sobre como relacionamentos podem ser prisões disfarçadas de escolhas. Sobre como mulheres são treinadas para relevar comportamentos estranhos em nome da harmonia. Sobre como o monstro, muitas vezes, não usa máscara nem garras – usa um cardigã bege e insiste que você experimente um pedaço de bolo.
Liz ganha um presente do namorado, uma peça de roupa numa cor que ela jamais usaria, e a amiga comenta: “achei que você nem conhecia essa cor”. São detalhes, sim, mas são nesses detalhes que o filme acerta. São nesses momentos que ele parece entender que o verdadeiro horror não é o espírito que bate portas, mas o homem que desconsidera seus gostos, suas vontades, sua existência.
O problema é que o filme não confia nessa sutileza. No final, como já havia feito em “Longlegs”, Perkins entrega a explicação de tudo num longo monólogo expositivo. Um personagem senta e conta, com todas as letras, o que está acontecendo. O mistério é atropelado pela necessidade de amarrar todas as pontas. E aí o filme perde a graça. Porque o medo, a gente sabe, mora justamente no que não é dito. No que a gente imagina. No que a cabana esconde, não no que ela revela.
Há uma curiosidade sobre a produção que ajuda a entender, talvez, esse resultado morno. Para Sempre Medo foi filmado durante as greves de Hollywood em 2023, com elenco e equipe canadenses, num esforço para manter o projeto vivo enquanto a indústria parava. O que não podia ser feito, no entanto, eram revisões de roteiro. O que estava escrito, ficou. E o que ficou, infelizmente, parece um primeiro rascunho – cheio de ideias, mas sem o acabamento que transforma potencial em realização.
Para Sempre Medo é um filme sobre mulheres presas em armadilhas que não construíram, tentando sobreviver em territórios que não escolheram. É sobre como o amor pode ser usado como justificativa para o controle. Sobre como a solidão, às vezes, é menos assustadora do que a companhia errada.
Tatiana Maslany segura o filme nas costas com uma atuação que transita entre a fragilidade e a fúria num piscar de olhos. Mas nem ela, com todo seu talento, consegue esconder as rachaduras na parede.
A cabana ainda está lá. As árvores ainda balançam. O bolo de chocolate continua em cima da mesa. Mas a gente sai do cinema com a sensação de que o medo, dessa vez, ficou devendo.
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