Crítica | Valor Sentimental: Quando as paredes têm memória e o cinema tem voz
Mubi/Divulgação

Crítica | Valor Sentimental: Quando as paredes têm memória e o cinema tem voz

Em Valor Sentimental, o diretor norueguês Joachim Trier (“A Pior Pessoa do Mundo”) faz uma guinada introspectiva e meticulosa. Seu novo filme não é sobre grandes acontecimentos, mas sobre o eco desses acontecimentos nas paredes de uma casa e no silêncio entre as palavras de uma família. Aqui, a premissa pode até sugerir um drama familiar convencional: um renomado diretor de cinema, Gustav Borg (Stellan Skarsgård), retorna à imponente casa de sua ex-mulher após a morte dela, reencontrando as duas filhas adultas de quem se distanciou. No entanto, Trier e sua co-roteirista Eskil Vogt têm ambições maiores e mais poéticas. Eles não querem somente contar uma história de reconciliação; querem construir uma experiência sensorial onde arquitetura, memória e arte colidem para falar daquilo que a fala não consegue expressar.

Logo de início, Trier nos apresenta a verdadeira estrela da narrativa: a casa. Através de um prólogo narrado com um tom quase literário, a câmera percorre os cômodos vazios, investigando texturas, capturando a luz que muda com as horas e as estações. O plano inicial, filmado em contra-plongée (ângulo de baixo para cima), imediatamente confere ao imóvel uma aura monumental e observadora. Não é um cenário passivo; é uma entidade que testemunhou décadas de vida, amor e desgaste.

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A grande sacada da direção de arte e da fotografia está em destacar uma fissura física, uma rachadura que vai do chão ao teto. Esta não é um mero detalhe de produção, mas a metáfora visual central do filme. Ela representa a falha de fundação, o trauma não resolvido, aquele rompimento que nunca foi totalmente reparado e que segue ali, dividindo simbolicamente a estrutura e, por extensão, a família. É sintomático que o título do filme apareça justamente sobreposta a essa imagem, separando as palavras “Valor” e “Sentimental” – uma divisão que o longa se dedicará a, senão curar, ao menos compreender.

A forma como Trier conduz a câmera por este espaço é um tratado de narrativa visual. Ele utiliza jump cuts (cortes abruptos no tempo) durante o prólogo para sugerir a passagem dos anos sem precisar de diálogo explicativo. Planos-detalhe focam em madeira envelhecida, em tecidos, em objetos esquecidos em prateleiras, criando um inventário afetivo do lugar.

A casa é filmada quase como um rosto, com seus cantos e frestas revelando emoções. Essa personificação do espaço é uma escolha arriscada que poderia soar pretensiosa, mas Trier a sustenta com uma convicção técnica que a torna orgânica. A fotografia, fria e límpida nos exteriores nevados, adquire uma textura mais quente e granular nos interiores, como se estivesse absorvendo a história contida naquelas paredes. A montagem, por sua vez, frequentemente justapõe planos da arquitetura com closes dos atores, sugerindo uma simbiose total entre ambiente e estado psicológico.

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É nesse palco carregado de significado que a história humana se desenrola. Nora (Renate Reinsve), a filha mais velha que seguiu os passos do pai como atriz, carrega um misto de admiração e ressentimento. Ela é a guardiã da casa e das memórias dolorosas, a “filha mais velha” cuja infância foi roubada pela necessidade de ser adulta precocemente. Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), a irmã mais nova, lida com a ausência de forma diferente, mais contida. A dinâmica entre elas é tensa e amorosa, cheia de coisas não ditas.

Trier evita o melodrama ao dar a esses conflitos um ritmo de conversa real, de olhares que desviam, de silêncios que falam. A introdução de uma personagem externa, uma atriz americana interpretada com charme discreto por Elle Fanning, funciona como o catalisador perfeito. Ela é a força estranha que, ao ser contratada por Gustav para estrelar seu novo filme, mexe com as dinâmicas estagnadas e obriga todos a se reposicionarem.

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É aqui que Valor Sentimental revela sua camada mais fascinante: a metalinguagem. O filme de Gustav dentro do filme de Trier não é um mero recurso de autocelebração do cinema. Pelo contrário, torna-se a linguagem comum, o território neutro onde pai e filha, ambos artistas, podem finalmente se encontrar. As cenas de ensaio, os debates sobre interpretação, a própria textura do processo criativo, tudo vira uma metáfora para o difícil exercício da empatia e do entendimento. Trier joga inteligentemente com essa ambiguidade. Em determinados momentos, especialmente num clímax emocionante num quarto, ficamos em dúvida se estamos assistindo à filmagem de Gustav ou à narrativa principal de Trier. Esse jogo não é gratuito; ele borra as fronteiras entre arte e vida, sugerindo que, às vezes, é através da ficção que conseguimos acessar nossas verdades mais íntimas.

A direção de atores é outro ponto alto. Stellan Skarsgård encontra em Gustav Borg um de seus papéis mais complexos recentemente – olha que ele já fez um trabalho incrível na surpreendentemente densa “Andor”. Ele não é um vilão egoísta, mas um homem profundamente falho, cuja imersão na arte serviu tanto de refúgio quanto de desculpa para o abandono. Sua dor é visível, mas contida, transbordando somente em breves instantes de fraqueza. Renate Reinsve, por sua vez, comprova que seu destaque em A Pior Pessoa do Mundo não foi acidente. Ela consegue transmitir, numa só expressão, o amor filial ferido, a inveja profissional, a exaustão de carregar o peso da família e um anseio profundo por conexão. A química entre eles é eletrizante justamente porque é construída sobre camadas de mágoa e reconhecimento mútuo.

Trier bebe de influências claras – há ecos da intensidade psicológica de Ingmar Bergman, do naturalismo conversacional de um Olivier Assayas e até da neurose urbana do Woody Allen dos anos 80 – mas filtra tudo através de uma lente própria, marcada por uma gentileza contemplativa. Ele não tem pressa. Permite que as cenas respirem, que os personagens simplesmente existam dentro daquele quadro. Um exemplo técnico notável é o uso do som. A casa possui uma acústica peculiar, onde conversas da sala são ouvidas no andar de cima através de uma espécie de duto. Este não é um detalhe de realismo, mas um poderoso símbolo fílmico: os segredos sempre vazam, as palavras não ditas ecoam na estrutura, não há como se esconder completamente do outro. O design de som amplifica essa ideia, misturando sussurros, passos e o silêncio opressivo do inverno escandinavo.

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Alguns podem argumentar que o filme, em sua busca pela nuance, pode cair em um certo hermetismo ou em um ritmo excessivamente meditativo para uns. É uma obra que exige do espectador uma entrega contemplativa, uma disposição para ler nas entrelinhas da imagem e do silêncio. Valor Sentimental entende que certas feridas não se fecham totalmente, mas podem ser transformadas em algo novo, em uma cicatriz que faz parte da identidade. A rachadura na parede não some, mas a luz do dia ainda a atravessa, iluminando o pó que dança no ar.

O filme, portanto, transcende seu tema de “drama familiar com artistas”. Ele se torna uma reflexão sobre como nos comunicamos – ou deixamos de comunicar –, sobre como o passado está literalmente embutido nos lugares que habitamos, e sobre como a arte, em sua forma mais generosa, pode ser um instrumento de tradução para os sentimentos intraduzíveis. Com uma direção segura que nunca perde o fio da meada apesar da fragmentação temática, uma fotografia que é personagem e uma montagem que pensa, Valor Sentimental confirma Joachim Trier como um dos cineastas mais sensíveis e intelectualmente rigorosos da atualidade. É um filme que não nos diz o que sentir, mas nos convida a sentir a textura do tempo, o peso do perdão e o valor afetivo de tudo aquilo que, mesmo rachado, ainda nos abriga.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.