É triste quando um filme de assalto desperdiça o próprio prazer do gênero. O chamado heist movie sempre funcionou como um mecanismo de precisão; planejamento meticuloso, execução tensa, reviravoltas engenhosas e personagens cujas habilidades funcionam como engrenagens. Em Velhos Bandidos, porém, esse mecanismo parece desmontado sobre a mesa – e ninguém demonstra grande interesse em remontá-lo. O longa é um desfile de situações frouxas, como se ele estivesse mais interessado em imitar a aparência de um assalto do que em construí-lo de fato.
A trama acompanha o casal de idosos Marta (Fernanda Montenegro) e Rodolfo (Ary Fontoura). Eles são, aparentemente abastados, mas, diante de dificuldades financeiras inesperadas, decide arquitetar um grande roubo com a ajuda de Nancy (Bruna Marquezine) e Sid (Vladimir Brichta), criminosos mais jovens. Nesse contexto que a narrativa se desenrola, conectando gerações distintas em torno de um golpe que deveria ser engenhoso, mas que rapidamente se revela frágil em sua construção.

A sensação é de que o longa dirigido por Cláudio Torres trava uma disputa silenciosa com o próprio roteiro – e não no bom sentido. Direção e texto parecem competir para ver quem compromete mais o resultado final. Se o roteiro falha em estruturar conflitos minimamente envolventes, a encenação faz pouco para compensar: enquadramentos excessivamente limpos, uma artificialidade assumida nos cenários e uma condução de atores que oscila entre o automático e o caricatural.
Talvez essa artificialidade seja intencional, mas a questão é que ela não se converte em estilo – apenas em distanciamento. Os ambientes lembram vitrines pouco habitadas, e os personagens parecem deslocados dentro deles, como se não pertencessem àquele espaço. A fotografia, com suas cores saturadas e contrastes exagerados, reforça essa impressão de irrealidade, mas sem o refinamento necessário para transformá-la em comentário estético. Em vez disso, tudo soa como um artifício vazio.
A narrativa acompanha esse mesmo princípio de simplificação extrema. Cada informação é reiterada à exaustão, como se houvesse um receio constante de que o público não esteja acompanhando. Personagens verbalizam o óbvio, antecipam explicações e reforçam acontecimentos recém-exibidos. Não há espaço para inferência, muito menos para ambiguidade. É um filme que subestima a inteligência do espectador – e, paradoxalmente, também sua paciência.
Dentro desse cenário, o elenco se torna um campo de contrastes curiosos. De um lado, temos veteranos como Fernanda Montenegro e Ary Fontoura, que parecem, ao menos, encontrar algum grau de diversão em seus papéis. Montenegro, especialmente, injeta certa leveza e timing cômico que sugerem um envolvimento mais lúdico com o material – como se estivesse consciente das limitações do projeto e decidisse brincar com elas.
Do outro lado, porém, surge um problema mais difícil de contornar: o casal jovem. Bruna Marquezine e Vladimir Brichta – ou melhor, seus personagens – formam uma dupla sem qualquer centelha. Falta química, falta ritmo, falta presença. Suas interações não convencem nem como romance, nem como parceria criminosa. Num filme que depende tanto da dinâmica entre cúmplices, essa ausência de conexão se torna um peso constante.

E aí reside um dos maiores problemas do longa: aparentemente ninguém parece acreditar muito no que está fazendo. Nem os personagens, nem o filme em si. O roteiro apresenta situações absurdas, mas não as abraça plenamente como farsa; ao mesmo tempo, também não tenta sustentá-las dentro de uma lógica minimamente coerente. Fica-se nesse meio-termo desconfortável, onde tudo parece improvisado e inconsequente.
A direção de Torres poderia, em tese, assumir esse caos como linguagem – transformá-lo em uma comédia assumidamente farsesca, quase cartunesca. Mas não é o que acontece. Em vez disso, há uma tentativa de equilíbrio que nunca se concretiza. O filme não se decide entre ser uma homenagem ao gênero ou uma paródia dele, e termina falhando em ambos.
Outro ponto que chama atenção – e não de maneira positiva – é a representação do policial “honesto” interpretado por Lázaro Ramos. Trata-se de um personagem que parece saído de um repertório ultrapassado, carregado de trejeitos previsíveis e piadas que já nasceram envelhecidas. Não há qualquer nuance ou atualização nesse retrato: ele existe apenas como um arquétipo raso, servindo de apoio para um suposto drama que não encontra o alvo. Em tempos em que o cinema brasileiro tem explorado figuras institucionais com maior complexidade, essa abordagem soa ainda mais datada.
Ao longo do filme, acumulam-se decisões narrativas questionáveis: personagens introduzidos sem função, conflitos que não se desenvolvem, soluções fáceis para problemas que nem deveriam existir. A própria lógica do assalto – que deveria ser o eixo central – é tratada como detalhe secundário. Planos surgem e desaparecem sem impacto, obstáculos são resolvidos sem esforço, e consequências simplesmente não existem.

O mais curioso é que há recursos visíveis na produção. O elenco é robusto, a estrutura técnica está presente, e há uma tentativa clara de dialogar com um imaginário popular de filmes de assalto. Mas tudo isso parece desperdiçado por uma falta de rigor na construção dramática. É como se o filme acreditasse que bastasse reunir esses elementos para que o resultado funcionasse automaticamente.
No fim, a impressão que fica é um projeto que escolheu o caminho mais fácil em praticamente todas as etapas. Simplificar não é, por si só, um problema – muitas comédias operam com estruturas aparentemente leves. A questão é que, aqui, a simplificação vem acompanhada de descuido. E quando nem o roteiro, nem a direção demonstram compromisso com o próprio universo que criam, torna-se difícil pedir que o espectador se importe.
Ainda assim, há pequenos lampejos – sobretudo vindos dos atores mais experientes – que sugerem o filme que poderia ter sido. Um filme mais consciente de sua proposta, mais rigoroso em sua execução, e mais interessado em explorar o potencial do gênero que tenta habitar.
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