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Foto: reprodução/prime video

Especial | 9 filmes cancelados antes da estreia

Lista diz muito sobre censura e conservadorismo no cinema

Nem sempre um filme é cancelado porque ficou ruim. Às vezes, ele nem chega ao público porque incomoda demais. Seja por temas considerados polêmicos, seja por pressões externas, censura disfarçada ou conservadorismo nos bastidores, existem muitos projetos que foram engavetados mesmo depois de finalizados. Sim, com tudo pronto. Alguns com estrelas no elenco, outros com diretores de renome. Todos com histórias que mereciam ter sido contadas.

O Conecta Geek reuniu filmes que foram cancelados antes de estrearem, e que escancaram como o cinema, por mais livre que pareça, ainda é cheio de amarras invisíveis.

The Day the Clown Cried”(1972)

Jerry Lewis era um nome consagrado da comédia americana, mas quando resolveu fazer um drama sobre um palhaço preso em um campo de concentração nazista, a coisa desandou. O filme foi gravado, montado e depois completamente arquivado. A história era pesada: o personagem principal, um palhaço fracassado, é forçado pelos nazistas a entreter crianças judias momentos antes de elas entrarem nas câmaras de gás. A proposta, sombria e provocadora, assustou os estúdios.

Apesar de dizerem que a questão foi legal (direitos autorais, contratos etc), ninguém realmente quis assumir esse filme. Nem mesmo Lewis, que depois chegou a dizer que se envergonhava da obra. Na real, o problema não era o roteiro, mas o incômodo causado. Misturar humor e Holocausto ainda é visto como algo proibido. A ideia de retratar o horror através de um personagem que representa a infância e a alegria era ousada demais e por isso, engavetada. Censura sem carimbo oficial, mas bem presente.

Foto: reprodução/plano critico

Batgirl (2022)

Esse virou escândalo em tempo real. A Warner já tinha finalizado boa parte do filme, com Leslie Grace no papel principal, Brendan Fraser como vilão e até o Batman de Michael Keaton de volta. Mas mesmo com tudo isso, Batgirl foi cancelado do nada. Oficialmente, a empresa dizia que queria “mudar a estratégia da DC”. Na prática, o que se viu foi uma limpa geral em tudo que não se encaixava na nova visão dos executivos. 

O que pegou mal mesmo foi o fato de o filme ter sido cancelado enquanto projetos considerados piores (e até mais caros) continuavam de pé. A protagonista latina, o foco feminino, o tom mais urbano e simples da história, tudo isso pareceu incomodar mais do que ajudava. O discurso de “não estava à altura da marca” virou um jeito elegante de dizer “a gente preferiu não se comprometer”. E o pior: tudo isso só foi possível porque a fusão da Warner com a Discovery liberou manobras contábeis que permitiram engavetar o filme e ainda economizar nos impostos.

Foto: reprodução/warner

Possessed (cancelado nos anos 2000)

Dirigido por Paul Schrader, o mesmo roteirista de “Taxi Driver” (1976), esse era um filme sobre fé, desejo e culpa. O protagonista era um padre que começava a se envolver com práticas sexuais extremas, uma história sobre repressão religiosa e os limites do corpo. O roteiro já estava pronto, alguns nomes do elenco confirmados, e mesmo assim o projeto foi abandonado por completo.

A razão? Ninguém queria bancar um filme que unisse religião, sexualidade e crítica institucional. Grupos conservadores começaram a pressionar, investidores sumiram, e o estúdio desistiu. O longa nunca saiu do papel, e Paul Schrader teve que deixá-lo de lado. Era provocativo demais, incômodo demais. Em outras palavras: foi cancelado antes que o público pudesse decidir se valia ou não a pena assistir.

Foto: reprodução/plano critico

Gore (2017)

Estava tudo pronto. O filme biográfico sobre o escritor e ícone queer Gore Vidal seria estrelado por Kevin Spacey, produzido pela Netflix, e já tinha passado pelas etapas finais da pós-produção. Mas no meio do caminho, estouraram as denúncias de assédio contra Spacey, e o streaming decidiu arquivar o projeto de vez.

A decisão fazia sentido em meio ao escândalo, mas também levantou um debate complexo. Gore Vidal era uma figura controversa, e o filme lidava com questões de sexualidade, política e poder. Cancelar a obra por causa do ator era, de certa forma, sufocar uma discussão importante. Até hoje, Gore permanece invisível. A pergunta que fica é: será que havia outro caminho? Um aviso? Um debate em torno da obra e não só da figura do ator?

Foto: reprodução/imdb

I Love You, Daddy (2017) 

Louis C.K. estava prestes a lançar seu primeiro grande filme como diretor e roteirista quando as acusações de assédio contra ele explodiram. I Love You, Daddy tinha passado por festivais, arrancado elogios e já tinha data de estreia. Mas o timing foi cruel. O filme foi engavetado imediatamente, e hoje só existe em cópias piratas pela internet.

O mais louco é que o longa era metalinguístico, uma espécie de crítica ao próprio mundo do cinema e às relações de poder entre homens mais velhos e mulheres jovens. Mas com o comportamento do diretor vindo à tona, tudo ganhou um tom quase irônico. Ainda assim, a pergunta continua: a obra deveria ter sido banida junto com o autor? Ou o público deveria ter o direito de assistir e tirar suas próprias conclusões?

Foto: reprodução/plano crítico

Empreguetes – O Filme (cancelado por volta de 2013)

Depois do sucesso estrondoso das Empreguetes na novela “Cheias de Charme” (2012), a Globo Filmes chegou a anunciar um longa-metragem com as personagens. Elenco confirmado, roteiro em desenvolvimento e público ansioso. Mas, do nada, o projeto foi silenciado. Nada de comunicado oficial, só o sumiço gradual das notícias.

Nos bastidores, o que se comenta é que rolou um medo real de mexer com os estereótipos de classe e raça envolvidos nas personagens. As Empreguetes eram populares, mas também caricatas. E num momento em que o debate sobre representatividade crescia, parece que a Globo preferiu não arriscar. Um exemplo claro de como a pressão por discursos mais conscientes pode coexistir com o medo das consequências. E o resultado? Silêncio.

Foto: reprodução/o globo

All American Massacre (filmado entre 1999 e 2000)

Esse aqui é quase uma lenda urbana do terror. Dirigido por William Hooper (filho de Tobe Hooper), o filme seria um spin-off/prelúdio de “O Massacre da Serra Elétrica” (1974), do seu próprio pai. Foi gravado, teve cenas editadas, trilha composta e… nunca foi lançado. Oficialmente, o problema era grana. Mas nos bastidores, sabe-se que havia mais coisa.

O tom extremamente violento, quase caótico, e a ideia de humanizar personagens da família assassina desagradaram tanto os detentores dos direitos quanto possíveis distribuidores. Em uma época de debates acalorados sobre o impacto da violência no entretenimento – com tiroteios em escolas dominando os noticiários – ninguém queria se associar ao filme. Resultado: ficou no limbo. E até hoje, é peça rara em feiras de VHS underground.

Foto: reprodução/imdb

The Brave (1997)

Dirigido e estrelado por Johnny Depp, The Brave teve sua estreia no Festival de Cannes e depois nunca mais foi visto. No filme, Depp interpreta um indígena que aceita participar de um snuff movie (filmes que mostram cenas reais de mortes sem o auxílio ou o uso de quaisquer efeitos especiais) em troca de dinheiro para ajudar a família. É denso, triste, brutal. E justamente por isso, desapareceu do mapa.

Apesar de não ter sido oficialmente censurado, o próprio Depp decidiu não lançar o filme nos Estados Unidos. A recepção em Cannes foi morna, e a crítica pesada ao sistema de opressão contra populações marginalizadas gerou desconforto. O filme era considerado “deprimente demais”, “lento demais”, “incômodo demais”. Ou seja, tudo que uma obra de denúncia precisa ser mas que, em certos contextos, ninguém quer ver.

Foto: reprodução/imdb

Hippie Hippie Shake (filmado em 2007, cancelado em 2011)

Com Cillian Murphy e Sienna Miller no elenco, Hippie Hippie Shake contava a história da revista underground “Oz”, que nos anos 60 foi processada por obscenidade no Reino Unido. Era sobre liberdade de expressão, contracultura, sexo, drogas e juventude rebelde. Tudo parecia caminhar bem: o filme foi finalizado, passou por exibições teste e… cancelado.

A Universal Pictures simplesmente decidiu não lançá-lo. Alegaram que “não funcionava”. Mas quem teve acesso diz que o problema era outro: o longa era explícito, afrontava instituições e não fazia concessões. Em tempos de imagem corporativa milimetricamente planejada, a ideia de um filme abertamente libertário parecia arriscada demais. De novo, uma história sobre censura… censurada.

Foto: reprodução/imdb

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Jornalista e formada em Cinema, apaixonada por cultura asiática e por contar histórias. Provavelmente já assisti tanto aos filmes do Adam Sandler que poderia atuar em qaulquer um sem precisar de roteiro.