"O Morro dos Ventos Uivantes" até tenta, mas ele não é brat
Warner Bros./Divulgação

“O Morro dos Ventos Uivantes” até tenta, mas ele não é brat

Sina de um cinema que quer o radical sem perder o prestígio

Sina de um cinema que quer o radical sem perder o prestígio

“O Morro dos Ventos Uivantes” até tenta, mas ele não é brat. E talvez nunca tenha realmente querido ser – apesar de todos os sinais apontarem para isso. A nova adaptação do romance de Emily Brontë, que estreia nesta quinta (12), chega embalada pela trilha de Charli XCX, artista-símbolo de uma estética pop que celebra o excesso, o ruído e a provocação. A promessa parecia irresistível: pegar um dos livros mais amados – e protegidos – da literatura inglesa e atravessá-lo com sintetizadores, erotismo e anacronismo.

A ideia é boa. A execução, nem tanto.

Desde o anúncio da cantora no projeto, criou-se a expectativa de uma colisão real entre séculos. Imaginava-se um filme disposto a tensionar o romantismo sombrio das charnecas com a pulsação eletrônica contemporânea. Algo que não tivesse medo de soar deslocado. Mas o que se vê em cena é uma produção que ensaia a ruptura e logo recua para o conforto do drama de época tradicional, sim com um pouco mais de tensão sexual, mas nada realmente tão chocante assim.

A trilha de Charli aparece, mas não estrutura. Surge como um ruído deslocado, não como linguagem. O restante é dominado por cordas previsíveis, sobretudo nos momentos mais melodramáticos, onde os agudos dos violinos te fazem querer emocionar. O longa quer parecer moderno, mas mantém os pés firmes na solenidade que costuma acompanhar adaptações literárias “respeitáveis”.

E talvez esteja aí a contradição central: o filme quer dialogar com o presente sem abrir mão do selo de prestígio.

Se a trilha hesita, a direção de arte parece entender melhor a proposta. Os figurinos abraçam o anacronismo sem medo com vestidos que não pertencem exatamente à época alguma, volumes exagerados, texturas que misturam delicadeza e agressividade. Há uma parede revestida de peles que beira o fetichismo visual e brincadeiras imagéticas com o teor sexual da relação central que funcionam com mais contundência do que o discurso geral do filme. É na composição dos quadros, nos excessos têxteis e na maneira como o desejo invade o espaço físico que a obra se aproxima de algo realmente provocador.

"O Morro dos Ventos Uivantes" até tenta, mas ele não é brat
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Muito disso passa pelo olhar do diretor de fotografia Linus Sandgren e pelo design de produção comandado por Suzie Davies. Juntos, eles constroem dois mundos que se chocam visualmente: uma casa imunda, úmida e soturna, quase orgânica de tão degradada, e outra que surge como um delírio cromático, limpa, luminosa, quase um “palácio da Barbie” – o que ganha contornos ainda mais irônicos considerando que a atriz principal viveu a boneca recentemente no cinema. Sandgren ilumina esses ambientes como se fossem estados emocionais, enquanto Davies os desenha como extensões psicológicas dos personagens. Nesse contraste, o filme encontra imagens mais ousadas do que sua própria narrativa consegue sustentar.

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A diretora Emerald Fennell – conhecida por sua falta de sutileza – não suaviza emoções. Pelo contrário. Amplifica olhares, estende silêncios, transforma brigas em espetáculos dignos de uma birra de adolescentes mimados. Há uma energia quase operística na forma como Catherine (Margot Robbie) e Heathcliff (Jacob Elordi) são filmados: menos ícones trágicos, mais jovens tomados por obsessão e ressentimento. Nesse sentido, existe uma leitura contemporânea. O amor aqui não é idealizado; é imaturo, destrutivo, às vezes mesquinho.

"O Morro dos Ventos Uivantes" até tenta, mas ele não é brat
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Para fãs do livro, isso já basta para acender o alerta vermelho. A adaptação reorganiza passagens, enfatiza aspectos que nem sempre ocupam o centro do romance original e deixa de lado comentários sociais e raciais. São escolhas. E escolhas, quando envolvem um clássico com gerações de devotos, nunca passam ilesas.

Mas há algo curioso no modo como o filme tem sido recebido antes mesmo de estrear. Parte da rejeição parece menos ligada ao que está na tela e mais ao que o projeto simboliza. A presença de uma artista pop como Charli XCX, atores protagonistas deslocados – uma mulher adulta interpretando uma adolescente e um homem branco interpretando um cigano de pele escura – num romance onde o tesão é vendido mais do que as reviravoltas vingativas e geracionais da obra original, é o bastante para tornar essa obra odiável por muita gente que sequer assistirá.

Existe uma linha invisível que separa o que é tratado como “alta arte” do que é visto como ousadia pop. Curiosamente, outras produções que também reinventam o passado com boa dose de imaginação – às vezes preenchendo lacunas históricas com pura especulação emocional –, como “Hamnet”, são celebradas como cinema sofisticado quando embaladas em fotografia austera e trilhas discretas. Muda a embalagem, muda o tratamento crítico.

Aqui, a embalagem promete ruído. Mas o conteúdo prefere o equilíbrio.

E então chegamos ao detalhe mais sintomático do projeto: as aspas no título. “O Morro dos Ventos Uivantes”. É difícil não achar patético. Parece trabalho escolar, citação mal resolvida ou ironia adolescente. Ao mesmo tempo, as aspas funcionam como gesto. Como quem diz: isto é uma versão. Não o livro.

"O Morro dos Ventos Uivantes" até tenta, mas ele não é brat
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Colocar aspas num título desses é mexer num vespeiro. É admitir que se está tocando num texto amado, estudado, protegido. E há coragem nisso. Mesmo que a coragem seja mais evidente no marketing do que na linguagem cinematográfica.

“O Morro dos Ventos Uivantes” até tenta, mas ele não é brat porque ser brat exigiria abraçar o desconforto sem pedir desculpas. Exigiria deixar a trilha pop contaminar tudo, assumir o anacronismo, aceitar que parte do público sairia irritada –não apenas dividida. O filme prefere negociar. Quer provocar, mas também quer ser levado a sério. Quer modernizar, mas sem romper completamente com a tradição que legitima sua existência.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.