O roteirista britânico Alan Moore voltou a mirar sua artilharia contra a indústria dos quadrinhos. Em entrevista concedida ao portal Retrofuturista, o criador por trás de obras como “V de Vingança” e “Watchmen“ argumentou que as HQs perderam sua conexão original com as camadas mais pobres da população, tornando-se um produto culturalmente inacessível para crianças e trabalhadores de baixa renda.
Para Moore, o apelo inicial da nona arte residia justamente no desprezo que sofria da cultura estabelecida.
O que me atraiu para os quadrinhos, inicialmente, foi exatamente o fato de serem ignorados pela cultura e considerados um meio de segunda categoria, adequado apenas para crianças ou para a classe trabalhadora.
Essa marginalidade, segundo o escritor, representava uma brecha para a circulação de conceitos transformadores sem os filtros impostos pela elite cultural.
O autor britânico acredita que a linguagem das HQs, em sua essência, carregava um potencial subversivo voltado especificamente para quem mais precisava de novas perspectivas. Contudo, a profissionalização do mercado e a elitização do público leitor teriam desfigurado essa vocação inicial. “Parece ser, mesmo em seus exemplos mais dignos, um campo que gera conteúdo principalmente por, para e sobre pessoas de classe média”, criticou Moore na conversa com o portal.
Apesar de deixar claro que não nutre antipatia pela classe média, o roteirista lamenta que a produção contemporânea ignore o berço operário que moldou os grandes criadores e leitores do passado. A análise de Moore aponta para um distanciamento irreversível. “Esse é o quadrinho que eu gostaria de ver, cheio de ideias novas e acessível a todos, mas, sendo realista, não acho que isso vá acontecer”, resignou-se.
Uma ruptura definitiva com o passado
Na mesma entrevista, Moore reiterou os motivos que o fizeram romper publicamente com seu legado nas grandes editoras, especialmente os trabalhos publicados pela DC Comics. O escritor confirmou que renega quase a totalidade das obras cujos direitos não lhe pertencem. “Não tenho exemplares desses livros em casa, não quero discuti-los, autografá-los, vê-los ou, se possível, sequer pensar neles”, disparou.
Ao ser questionado sobre quais convicções do passado hoje lhe parecem risíveis, Moore recorreu à ironia para descrever seu antigo idealismo profissional. Para ele, a crença juvenil de que seria capaz de reformar o ambiente hostil da indústria não chega a ser trágica, apenas “comicamente ingênua”.
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