Cairn review

Review | Cairn testa os limites da sua frustração

Frustração, todos nós já tivemos esse sentimento pelo menos uma vez. Seja pela situação financeira não ser como desejava, trabalho que gostaria de ter ou vida diferente daquilo que sonhava. Mas o que isso tem a ver com videogames?

Desenvolvido pelo pequeno estúdio The Game Bakers e lançado em janeiro deste ano de 2026, Cairn leva os jogadores a um simulador de escaladas. E aqui começa a frustração te acompanhar, em uma jornada ao topo de uma montanha, onde erros serão bem punitivos.

Narrativa que desafia sua moralidade

Em Cairn assumimos Aava, uma alpinista profissional que decide se desafiar e tentar chegar ao cume do monte Kami. A montanha é classificada por todos os alpinistas como desafio extremo, ninguém nunca chegou lá, e muitos que tentaram não voltaram com vida.

Aava não é apenas profissional como uma das mais famosas de sua geração, inspirando gerações ao amor pela escalada. Porém, à medida que avançamos, Cairn tende a nos explicar o que esse amor custou a Aava e até ela é capaz de ir para cumprir seu objetivo.

A narrativa se desenvolve por meio de ligações que recebemos ao longo da nossa jornada. Nada é bem explícito, ficando apenas interpretativamente. Também vamos encontrar muitos arquivos de texto no caminho, de outros alpinistas que passaram ou ficaram por ali.

Aava terá pelo caminho alguns personagens, que buscam ou buscaram o mesmo objetivo. Cada personagem traz consigo uma lição moral de que não se trata apenas de escalar o monte Kami. O jogo ainda força os jogadores a tomarem decisões críticas, que podem mudar o  desfecho da história. Sim, Cairn possui mais de um final.

Cairn permite também os jogadores escolherem como irão progredir, dando a liberdade aos jogadores e permitindo um fator replay promissor. Por exemplo, você pode encontrar segredos pela montanha que outro jogador não encontrou, e vice-versa. São diversas pequenas cavernas e entradas, que vão te levar a curiosidades sobre o Kami.

O belíssimo por do Sol (por Genner Douglas)

Mecânicas buscam simulação

A jogabilidade de Cairn, desde o tutorial em uma área de treinamento, mostra o que vem pela frente. O jogo abraça um lado de simulação, apesar da movimentação dos braços e pernas durante a escalada te tirar risadas em como Aava se retorce toda.

Basicamente a cada movimento controlamos um membro por vez, seja perna ou braço. O jogo seleciona automaticamente qual você vai mexer, mas há opção de escolha manual. No começo é um pouco confuso, mas após algumas quebras você pega o jeito.

Não é só movimentação para escalar e tá tudo certo, pelo contrário. Posicionamento é a chave do negócio aqui, principalmente das pernas, que garante equilíbrio à Aava. Caso você se posicione desequilibradamente ou tente segurar em parte sem apoio, Aava se cansa mais rápido, o limite da estamina resulta na sua queda.

Outro ponto importante para se prestar atenção é no ambiente ao redor. Ventanias causa desequilíbrio ao subir, enquanto chuva deixa as paredes com aderência baixa, causando mais esforço e consequentemente esgotamento mais rápido. Momentos assim, o ideal é parar e descansar, esperar melhorar e aí, sim, continuar seu progresso.

Encontrar mapas também é de suma importância para a escalada. Com o mapa ele permite você ver os caminhos de escalada definidos por cores, indo de fácil ao difícil, permitindo aos jogadores estudarem por onde começar. Às vezes descer e recomeçar faz parte do desafio.

Então tudo se resume em cair? Não. Aava carrega seis pitons de escalada, você deve usar com sabedoria, porque nem sempre serão o suficiente. Ao encaixar o piton, garante ali um ponto de rapel, o que seria um “checkpoint” para caso você cair. Mas aí entra a pegadinha do malandro, para encaixar o piton tem um timing perfeito, caso seja fora dele ficará torcido, quebrando-o ao recolher.

A função de recolher os pitons fica com nosso robô ajudante, e parceiro de Aava. Além disso, o robô tem função de compostar lixo ou itens descartáveis para produzir magnésio. Este que serve para dar aderência por tempo limitado ao ser usado.

Escalada também se trata de sobreviver

Se você chegou até aqui e pensou “não parece ser tão complexo”, você pensou errado. Cairn conta com um sistema de sobrevivência, já visto em inúmeros outros jogos, deixando a gameplay mais complexa e, claro, realista.

Aava possui três coisas que devem ser administradas durante o jogo: fome, sede e frio. Cada um deles possui três barras, sendo a última representando um estado de atenção. À medida que vão esvaziando isso afetará diretamente em como Aava vai resistir a escalada assim como em sua barra de vida.

Portanto, recolher alimentos perdidos, encher garrafas de água e cozinhar, são elementos importantes do jogo. Sim, em pontos de save, onde montamos barraca, é possível cozinhar misturando dois ingredientes, para maximizar a qualidade dos atributos que eles preenchem.

A barraca também serve como ponto de descanso, dormir recupera nossa barra de vida. Também é importante checar o esparadrapo nos dedos, garantindo boa aderência e além de ser um ótimo momento para organizar a mochila.

Aava carrega uma mochila que possui espaço limitado, o peso não afeta diretamente a escalada, mas estar cheia vai te fazer deixar recursos importantes para trás. Frequentemente temos que organizar a mochila, retirando sacos plásticos vazios ou combinando ingredientes cozinhando, para liberar espaço. O jogo ainda conta com uma mecânica de sacudir a mochila, já que não é possível mexer no item individualmente.

Lembra da barra de vida que falei? Pois é, praticamente tudo consome ela pouco a pouco. Aava não é o Hulk, então com a mochila enorme nas costas, correr ou pular entre um vão e outro faz sua vida reduzir lentamente. O ideal é andar apenas, e como anda devagar viu minha filha.

Acessível na medida certa!

Cairn conta com alguns elementos de acessibilidade, o que sim, deixa o jogo atrativo para um leque bem maior de jogadores. A pelas assistências no menu de configurações, dentre elas estão save automático – que por padrão não está ativa na dificuldade normal – remover elementos de sobrevivência como fome, sede e frio, além de ativar retroceder nas quedas e recursos de escalada infinitos, como pitons e magnésio.

O jogo oferece três níveis de dificuldade, sendo eles: 

  • Explorador: Com save automático, algumas assistências ativadas. 
  • Alpinista: modo equilibrado, sem assistências e pontos de salvamentos somente onde monta a barraca.
  • Escalada solo: sem pitons, sem segurança e com morte definitiva

Vale destacar que, ao morrer, você retorna do último ponto de save. Portanto, sem save automático, pode ter momentos que uma morte faça você repetir um longo trecho.

Gráficos charmosos como uma HQ

Cairn conta com gráficos extremamente charmosos, que parecem ter saído de uma HQ. Mas há um motivo para tal, Mathieu Bablet, um famoso quadrinista francês, participou do projeto na direção de arte.

Além do design dos personagens e do mundo em si de Cairn, o jogo conta com diferentes ambientes. Tais como neve, as variadas cavernas que te fazem sentir como parte do Kami e uma vista do topo com uma riqueza de detalhes.

A trilha sonora mescla sons instrumentais, que tocam em momentos específicos. Na maior parte do jogo é de absoluto silêncio, a intenção é proposital, até porque constantemente a própria Aava diz amar o silêncio e a paz que as escaladas lhe traz.

Minha gameplay foi inteiramente no PC, e Cairn carece de algumas atualizações pontuais. O jogo apresenta algumas quedas de quadro e engasgos, principalmente em transições entre cinemáticas e gameplay. Há alguns bugs, como Aava atravessar pedras, ou membros do corpo ficarem na parede, mas nada que atrapalhe a progressão. 

Um jogo obrigatório!

Cairn não é só sobre escalada, sobrevivência ou conquistar o cume, mas sim um jogo reflexivo sobre nós mesmos. Aava representa tudo aquilo que provavelmente já pensamos, deixar de tudo e ir atrás dos nossos sonhos e continuar não importa quão difícil esteja. O jogo flerta constantemente com a moralidade do até onde estamos dispostos a ir pelo sucesso e como o sentimento de fracasso pode te assombrar.

Outras reviews:

Amante de Games desde criança e viciado em caçar platinas. Profissional de TI nas horas vagas. Você me encontra no X: @gennerdouglas