Durante anos, a franquia Legacy of Kain permaneceu adormecida, vivendo apenas na memória dos fãs e em relançamentos ocasionais. Esse cenário começou a mudar recentemente, com o retorno de títulos clássicos como Legacy of Kain: Soul Reaver e Legacy of Kain: Defiance em versões remasterizadas, reacendendo o interesse pelo universo sombrio de Nosgoth.
Foi nesse contexto que surgiu Legacy of Kain: Ascendance, um capítulo inédito que prometia expandir a mitologia da série. A ideia, no papel, parecia promissora: uma história original, novos personagens e uma abordagem diferente de gameplay. Mas, na prática, o resultado está longe de corresponder ao peso que essa franquia carrega.

Uma história que tenta expandir, mas não sustenta
Ascendance se baseia diretamente na graphic novel Legacy of Kain: Soul Reaver – The Dead Shall Rise, que serve como prequela da história de Raziel antes dos eventos de Soul Reaver. Aqui, acompanhamos um período crucial da trajetória de Raziel, ainda como inquisidor da Ordem Sarafan, antes de sua transformação definitiva. Ao mesmo tempo, o jogo introduz uma nova personagem central: Elaleth, uma vampira movida por vingança e ligada diretamente ao passado do protagonista.
A proposta narrativa busca conectar eventos entre as sagas de Kain e Raziel, tentando preencher lacunas importantes do universo da série. No entanto, o roteiro não consegue atingir o nível de profundidade que sempre foi marca registrada da franquia.
Temas como destino, livre-arbítrio e dualidade, pilares narrativos da série, aparecem de forma superficial, e a nova personagem não tem força suficiente para sustentar o enredo. Em vários momentos, a história soa apressada e pouco impactante, como se estivesse apenas cumprindo a função de conectar pontos já conhecidos.
Gameplay simples demais para sustentar a experiência
Se a narrativa não empolga, a jogabilidade também não consegue salvar o conjunto. Ascendance aposta em uma estrutura 2D dividida em capítulos curtos, alternando entre combate, plataformas e pequenas sequências narrativas. No papel, é uma fórmula funcional, mas a execução deixa a desejar.
Os comandos são extremamente básicos: pular, atacar, esquivar e utilizar uma habilidade especial. Embora isso torne o jogo acessível, também limita drasticamente as possibilidades durante o combate.
Os três personagens jogáveis, incluindo versões de Kain e Raziel, até apresentam pequenas variações, mas nada que realmente transforme a forma de jogar. A mecânica de absorver sangue para manter os vampiros vivos é um detalhe interessante, remetendo a jogos clássicos da série, mas não é suficiente para dar profundidade ao sistema. O resultado é um loop de gameplay repetitivo: avançar, enfrentar grupos de inimigos, repetir. E isso se torna evidente muito rapidamente.

Combate desequilibrado e pouca variedade
Um dos principais problemas está no ritmo das batalhas. Ascendance frequentemente coloca muitos inimigos na tela ao mesmo tempo, mas oferece poucas ferramentas para lidar com eles. Existe um sistema de parry que poderia adicionar estratégia ao combate, mas sua execução inconsistente transforma cada tentativa em um risco desnecessário.
Em vez de recompensar habilidade, o jogo muitas vezes parece depender de tentativa e erro, o que acaba gerando frustração. Já os trechos de plataforma seguem uma linha igualmente problemática. Saltos imprecisos, obstáculos pouco inspirados e segmentos que dependem mais de tentativa do que de habilidade tornam essas seções mais cansativas do que desafiadoras.

Colecionáveis e trilha sonora
Nem tudo é negativo. O jogo traz alguns elementos interessantes, especialmente para fãs mais dedicados da franquia.
Os colecionáveis espalhados pelos cenários ajudam a expandir o lore de Nosgoth, trazendo informações sobre os Pilares, eventos históricos e personagens importantes. Para quem gosta do universo, esse conteúdo adicional tem valor.
A trilha sonora também apresenta bons momentos, capturando em certas faixas a atmosfera sombria característica da série. Além disso, o retorno de dubladores clássicos como Michael Bell, Simon Templeman e Richard Doyle é um aceno direto aos fãs de longa data. Ainda assim, esses acertos são pontuais e não conseguem sustentar o jogo como um todo.
Uma experiência curta
Outro ponto que pesa contra Ascendance é sua duração. O jogo pode ser finalizado em poucas horas, e, uma vez concluído, não há praticamente nenhum incentivo para revisitar a experiência. Não existem modos extras, recompensas relevantes ou variações que justifiquem uma nova jogada.
Isso reforça a sensação de que o jogo é mais um conteúdo complementar do que uma experiência completa.

Conclusão
Legacy of Kain: Ascendance é um daqueles casos em que o nome carrega muito mais peso do que o produto entrega. A tentativa de expandir o universo da franquia é válida, e há momentos em que o jogo acerta ao resgatar elementos clássicos, como a ambientação sombria, o retorno de vozes icônicas e alguns detalhes do lore que agradam fãs mais atentos. No entanto, esses acertos são ofuscados por uma série de problemas estruturais.
A narrativa não tem força suficiente para sustentar o interesse. A jogabilidade é simples demais e rapidamente se torna repetitiva, enquanto o combate sofre com desequilíbrios e mecânicas imprecisas. Os trechos de plataforma pouco inspirados e a curta duração reforçam ainda mais a sensação de uma experiência limitada.
No fim, Ascendance parece menos um novo capítulo digno da franquia e mais uma oportunidade desperdiçada. Para os fãs mais curiosos, pode servir como um complemento ao universo de Nosgoth. Mas para quem esperava um verdadeiro retorno da série, o gosto que fica é amargo.



















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