Remasterizações são algo já antigo na indústria dos games. Se por um lado temos aqueles remasters que melhoram significativamente a experiência dos jogos antigos, por outro temos remasterizações que não dão uma justificativa tão profunda para seus desenvolvimentos, e (infelizmente) Tales of Berseria Remastered se encaixa no segundo exemplo.
Desenvolvido e distribuído pela Bandai Namco, Tales of Berseria foi originalmente lançado em 18 de agosto de 2016 para PlayStation 3 (apenas no Japão), PlayStation 4, e PCs na Steam. O jogo está próximo de comemorar seus 10 anos de lançamento, mas mesmo com esse longo período de tempo, Berseria ainda se mantém vivo na memória de muitos fãs da franquia Tales.
Ele traz consigo uma espécie de fechamento geracional, já que Tales tomaria outros rumos de design após Berseria.
Uma atmosfera única na franquia

Aqui acompanhamos a jornada de vingança de Velvet Crowe contra o exorcista Artorios Collbrande. Artorios, em uma noite de lua escarlate – um acontecimento no mundo que transforma as pessoas em Daemons, os inimigos principais do jogo – realizou um ritual chamado de “O Advento”, usando o seu irmão mais novo, Laphicet, como sacrifício. Velvet sobrevive a esse incidente, mas seu braço se infecta com a praga e a transforma em um Daemon da espécie “Therion”, que sobrevive devorando outros Daemons.
Velvet é então capturada e presa em uma prisão de Daemons chamada de Titania por três anos, onde é finalmente liberta pela serva de Artorios, Seres. A partir desta fuga começamos a nossa jornada de verdade.
Tales of Berseria tem uma vibe bem diferente de vários outros Tales; ele é um pouco mais levado para o gênero Dark Fantasy que os outros. O jogo faz uma quebra de expectativa ótima logo no começo, onde controlamos uma Velvet mais jovem caçando nas florestas de sua vila natal para achar remédios com o propósito de curar o seu irmão doente.

O jogo nos dá um pano de fundo típico e bem clichê da própria franquia. Vemos Velvet no início do jogo como uma pessoa radiante e esperançosa, com uma relação muito afetuosa com seu irmão mais novo e todos da vila. Sua arte nas portraits dos diálogos nos apresenta uma moça cheia de cor e vida, e, após toda a tragédia, ela muda drasticamente, se tornando mais fria, distante e mais rígida, com uma sede de sangue gigantesca pela tragédia que a atingiu. Dá para dizer que ela finalmente alcançou a sua fase de “gótica trevosa”.
Tales of Berseria tem uma das minhas protagonistas favoritas da franquia e, junto a Velvet, também temos um elenco muito bom e fora do padrão do que se diz Tales.

No grupo temos Rokurou Hangetsu – também um Daemon que ainda mantém uma parte humana sua intacta -, que utiliza duas adagas como arma principal (apesar de ter a katana Stormhowl nas suas costas) e é perito em artes marciais. Ele é durão, mas é um dos personagens mais tranquilos de toda a party. Temos também a bruxa Magilou, uma personagem bem misteriosa e cômica que, como é de se esperar, é focada em magia.
Número Dois é primeiramente tido como refém de Velvet para poder escapar das mãos dos exorcistas; essa criança é utilizada como ferramenta e não tem personalidade própria, pois sabe apenas seguir ordens, sendo assim outro personagem cheio de mistérios que vão se revelando ao longo do jogo.

Para fechar temos Eizen – um pirata conhecido como ceifador que tem esse titulo pois por onde ele passa. Ele causa um mau agouro a todos ao seu redor, sendo um dos personagens mais legais do jogo e com o melhor design de longe, utilizando suas mãos mesmo nas lutas; E Eleanor, que entra quase que a força no bando, mas um pouco diferente do Número Dois nesse quesito, ela também é uma exorcista e usa uma lança como arma principal.

O bando de Tales of Berseria compõe uma party com diversos conflitos e que não se dá tão bem na maioria das vezes. Eles parecem se unir mais para aumentar as chances de sobrevivência do que por vontade própria, e isso acaba trazendo uma dinâmica bastante curiosa em suas interações. Este é um dos melhores exemplos de uma party de desajustados em um JRPGs – claro que tem exemplos melhores por aí, mas isso é um ponto positivo para o jogo.

O mundo do jogo tem regras bem claras que dão margem para um conflito pessoal, mas também em escala global, justamente por suas regras e facções e sua parcela de monstros que são tratados de uma forma bastante cinza; apesar dos pesares, Daemons não são apenas monstros desmiolados, eles também tem uma vivência e procuram um lugar nesse mundo, mas são tratados com bastante desigualdade pelos humanos.
Desolation (nome carinhoso do mundo do jogo), também compartilha uma linha do tempo com outro jogo da série – Tales of Zestiria, mas tem uma diferença de uns 1000 anos de um para o outro, o que faz os acontecimentos de um não serem tão relevantes para o jogo futuro.
Jogabilidade mais frenética e visceral, mas desafio quase nulo

Tales of Berseria possui jogabilidade próxima de alguns outros Tales que vieram desde o Abyss, onde temos controle total do personagem em uma arena, e não em uma tela com perspectiva em 2D como os antecessores. Esses Tales se aproximam mais de um “Arena Fighter” que os antigos, que por sua vez puxavam bastante de jogos de luta em 2D. Porém, enquanto alguns desses introduziam mecânicas para deixar as lutas mais estratégicas, Berseria em grande parte do seu combate não quer que o jogador seja tão estratégico assim, colocando uma simplicidade que acaba facilitando muito a margem de combos e deixando o jogo até um tanto automático, apesar do player sempre estar apertando botões.
Todo personagem aqui tem uma habilidade ou forma diferente de se jogar que refletem em quem eles são nesse mundo. Velvet, por exemplo, por ser uma Deaemon do tipo therion, pode sugar a energia vital dos inimigos em combate e utilizar um ataque especial que reflete o tipo de inimigo que foi “devorado”.
Para realizar ações, você tem uma barra de “alma” e são esses pontos que definem o quanto o seu personagem pode atacar ou realizar especiais. Aumentamos a barra de alma atordoando um inimigo com as Artes do jogo ou matando eles; você perde uma alma quando o inimigo é atordoado.
Temos um total de 5 almas para realizar nossas ações, e começamos uma luta com 3, que já nos dá uma margem enorme de combos e ações. Existem também status que podemos colocar nos inimigos quando acumulamos um total de 5 almas e, quando estamos com poucas almas, os ataques podem ficar mais lentos e nossos personagens totalmente vulneráveis.
O jogo tem mais complexidade nesses sistemas. Existem outras formas de conseguir mais ações de almas, como fazer uma esquiva perfeita de um ataque inimigo, mas o combate do jogo funciona de forma tão frenética que muitas dessas nuances e complexidades acabam sumindo, fazendo-o se tornar mais um “esmaga botões”. O combate também incentiva a troca constante de personagens, que é uma mudança muito bem vinda de outros jogos da série.

No mais, Berseria tem um combate com uma gama de possibilidades e complexidades, e sem dúvidas tem bastante conteúdo para o jogador se aprofundar, mas o jogo apresenta esses sistemas e tutoriais de uma forma tão sem inspiração, que acaba fazendo a gente recorrer ao clássico “faça você mesmo”, onde vamos aprendendo a jogar sem a ajuda do próprio game.
Berseria tem uma exploração um tanto simplória demais, assim como outros jogos dessa era de Tales, a exploração dele funciona com um mapa simples de campos abertos repletos de itens e inimigos, temos cidades e dungeons para entrar e também podemos explorar outras partes do mundo com o navio, como um tipo de fast-travel.
Por ter esse tipo de exploração, a escala do mundo acaba fazendo ele parecer menor do que ele é de fato, temos áreas que tem uma certa grandeza, mas esse tipo de estrutura não consegue transmitir bem a escala da jornada de Velvet, mas não é um fator que quebra a imersão, ainda é bem divertido passear e falar com diversos NPCs e conhecer mais a história dessas terras, mas ter diversos pontos onde somos obrigados a fazer um “backtraking” no decorrer do jogo é sem dúvidas algo que faz o jogo ficar arrastado demais.
Sem grandes mudanças visuais, mas melhor na qualidade de vida

Tales of Berseria é um jogo que envelheceu bem no geral, e a remasterização não faz quase nenhuma mudança em relação ao visual dele. Podemos dizer que o draw distance melhorou significativamente, mas apenas isso. O jogo já rodava a 60fps no PS4 e aqui não é diferente.
Temos resoluções melhores também, mas era de se esperar no mínimo isso. O jogo ainda roda muito bem e isso nunca foi um problema, nem mesmo no PS3.

De novidades e melhorias na qualidade de vida do jogo é que, como de costume dos remasters de Tales, temos o Grade Shop disponível desde o inicio do jogo, e bem, ele é algo que facilita bastante os jogos, podendo colocar apelações que mudam drasticamente o gameplay. Então, eu geralmente jogo sem ativar essas opções, mas é algo que pode ser bem-vindo para quem quer apenas apreciar a história ou para um veterano que está cansado de jogar em sua forma inicial.

Também temos uma opção de desativar as lutas contra os monstros aleatórios do mapa, o que é uma adição ok, mas é tão fácil fugir deles que não é necessário assim, mas é uma pedida para quem quer apenas pegar os itens e baús nos mapas sem se preocupar com lutas.
E por último, temos melhorias nos ícones de destino, facilitando os jogadores a localizarem os objetivos no mini-mapa, e melhorias nos fast-travels, deixando-os mais acessíveis para evitar os backtracks desnecessários e tediosos do jogo, que em minha opinião, não foi melhorado o suficiente, e ainda fazemos uma boa parcela deles.
Trilha sonora frenética e dublagem que eleva personagens
O remaster não realizou mudanças na parte sonora, pelo menos ouvindo as trilhas sonoras lado a lado, não reconheci nenhuma diferença, e também não tivemos mudanças na dublagem do jogo, tanto em japonês quanto na língua inglesa, mas eu ainda tenho um ótimo gancho para falar delas aqui.
Na parte da trilha sonora temos o clássico compositor da franquia Motoi Sakuraba na composição prnincipal, e ao lado dele está Takeshi Asakawa como compositor adicional, e uma ótima música de abertura a “BURN” composta pela banda FLOW, que são responsáveis por diversas aberturas icônicas de animes.
Motoi Sakuraba entrega (como sempre) uma trilha sonora muito boa que casa bem com a atmosfera mais visceral de Berseria, onde ele abusa de guitarras mais fortes e pesadas, mas ainda entrega aquele som característico dele, com uma bateria acelerada, um teclado eletrônico cheio de alma e instrumentos mais orquestrais para realizar uma combinação grandiosa. O tema de batalha é excelente, e eu recomendo ouvirem.
Já a parte de dublagem não tenho muito o que adicionar, as vozes em japonês são ótimas, e a dubladora da Velvet em todos os casos é muito boa, ambas conseguem transmitir o trauma trágico da personagem de uma forma formidável, onde no começo do jogo temos aquela menina cheia de vida e algumas horas depois temos uma mulher que está totalmente focada em trazer a desgraça para Artorius e todos que estão em seu caminho, apesar de tudo, a dublagem em inglês fica um pouco atrás, e é bastante puxada para as dublagens típicas de anime em inglês.
Considerações finais

Tales of Berseria é um grande jogo e por não ter envelhecido mal a justificativa da existência desse remaster é quase inexistente. Sua versão de PS4 é perfeitamente jogável e os preços são até mesmo mais acessíveis. A remasterização tem algumas melhorias na qualidade de vida e traz até mesmo algumas DLCs disponíveis logo de início, mas sinceramente? Não fazem uma grande diferença na hora de realizar a compra, não justificando a diferença de preço entre as versões.
Eu recomendo fortemente Tales of Berseria, pois é um jogo excelente, com um ótimo casting de personagens, uma história de vingança bastante interessante e com a primeira mulher protagonista da série (desculpe Millia) e muito divertida de se acompanhar, uma história de vingança e uma “vibe edgy” bem diferente de diversos Tales que já tivemos. Tudo isso faz Berseria ter um lugar muito especial no meu e no coração de muitos fãs, e por melhor que seja ver ela de volta depois de 10 anos, ainda acho difícil recomendar a compra dessa remasterização. Apenas fico feliz de ver que Berseria está disponível para outras plataformas como Xbox Series e Switch, que não tiveram a chance de receber o jogo original.
Se tivermos sorte, a Bandai Namco remasteriza jogos como Abyss ou outros títulos mais antigos da série na próxima vez.
Um agradecimento a Bandai Namco por terem disponibilizado Tales of Berseria Remastered para análise! O título está disponível para PlayStation 5, Xbox Series, Nintendo Switch e PC (via Steam).
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