Review | Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties: maturidade, memória e conflitos que não cicatrizam
Arte: Conecta Geek

Review | Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties: maturidade, memória e conflitos que não cicatrizam

Expansão adiciona tensão política e novos dilemas para o protagonista

Expansão adiciona tensão política e novos dilemas para o protagonista

A franquia Yakuza sempre soube equilibrar exagero e humanidade. Entre disputas territoriais, traições brutais e confrontos cinematográficos, a série construiu sua força ao explorar o lado mais íntimo de seus personagens. Yakuza Kiwami 3,produzido pelo Ryu Ga Gotoku studio e publicado pela SEGA, revisita justamente um dos capítulos mais sensíveis da trajetória de Kazuma Kiryu, e, ao lado da expansão Dark Ties, entrega uma experiência mais robusta, emocional e tecnicamente refinada.

Assim como os demais títulos que carregam o selo “Kiwami”, Yakuza Kiwami 3 tem como principal objetivo modernizar a narrativa do jogo original para plataformas atuais. A história acompanha novamente Kazuma Kiryu, o Dragão de Dojima, em mais uma tentativa de se afastar definitivamente do Clã Tojo e da vida criminosa que marcou seu passado. Ao lado de sua filha adotiva, Haruka Sawamura, ele deixa Kamurocho para trás e se estabelece em Okinawa, onde assume a administração do orfanato Glória da Manhã.

Captura por Daniel Bueno

Naturalmente, a tão desejada tranquilidade não dura muito. Pouco tempo após se instalar na nova cidade, Kiryu passa a ser pressionado pela Família Ryudo, organização criminosa local interessada no terreno onde o orfanato foi construído.

O local se encontra exatamente entre dois gigantescos projetos de desenvolvimento: a possível instalação de uma base militar norte-americana ou a construção de um resort de luxo, empreendimentos que refletem a realidade da própria Okinawa. A partir daí, Kiryu se vê novamente envolvido em uma teia de interesses que inclui políticos corruptos, chefões do crime e até agentes da CIA, tudo para proteger o lar das crianças sob seus cuidados.

O game não se trata apenas de um remake, mas sim de uma releitura que tenta entender o peso histórico do terceiro jogo e o posiciona melhor na cronologia da franquia. Porém, decepciona os fãs de longa data ao mudar e acrescentar diversas coisas que não agregam em nada a história.

Mapas vivos em formato de bairro aberto

Se existe algo que sempre diferenciou Yakuza de outros jogos de mundo aberto é seu conceito de mapa compacto e extremamente denso. Aqui não temos cidades gigantescas com quilômetros vazios, temos bairros vivos, cheios de personalidade e atividade.

Captura por Daniel Bueno

Em Kiwami 3, Okinawa ganha nova vida na Dragon Engine. As ruas são iluminadas por néons vibrantes, o movimento de NPCs é mais natural e há uma sensação constante de que aquele espaço continua existindo mesmo quando Kiryu não está interagindo diretamente com ele. Pequenos diálogos, trabalhadores circulando, clientes entrando e saindo de estabelecimentos, tudo contribui para essa ambientação.

Kamurocho, quando retorna à narrativa, mantém seu charme caótico. Cada esquina carrega histórias paralelas, conflitos inesperados ou distrações curiosas. O formato de “bairro aberto” funciona porque cada metro quadrado tem propósito. É um mundo contido, mas incrivelmente rico.

Captura por Daniel Bueno

Lojas, restaurantes e a imersão cotidiana

Outro ponto forte é a variedade de lojas e estabelecimentos que reforçam essa sensação de vida urbana. Restaurantes oferecem refeições com efeitos específicos para recuperação de vida e aumento temporário de atributos, incentivando o jogador a explorar cardápios diferentes.

Conveniências, farmácias e lojas especializadas vendem itens de cura, equipamentos e acessórios que impactam diretamente no desempenho em combate. Não são apenas elementos decorativos: fazem parte do ciclo de sobrevivência e progressão.

Além disso, as animações de consumo, Kiryu se sentando para comer ou analisando produtos, ajudam a consolidar essa imersão cotidiana. São detalhes simples, mas fundamentais para a identidade da série.

Captura por Daniel Bueno

Relembrando o passado

Uma das adições mais inteligentes do remake é a opção de relembrar os eventos de Yakuza 1 e 2. O jogo oferece um sistema de recapitulação que contextualiza acontecimentos importantes da trajetória de Kiryu.

Para veteranos, funciona como um refresco de memória antes de mergulhar nos novos conflitos. Para quem nunca jogou os capítulos anteriores, é praticamente um guia essencial para compreender as relações, rivalidades e cicatrizes emocionais que moldam o protagonista.

Essa escolha mostra cuidado com novos jogadores sem desrespeitar a base fiel da franquia.

Captura por Daniel Bueno

Kiryu entre a paz e a violência

Narrativamente, Yakuza Kiwami 3 continua sendo um dos capítulos mais humanos da série. A tentativa de Kiryu de administrar o orfanato em Okinawa cria um contraste poderoso com o inevitável retorno ao submundo.

Os momentos com as crianças não são meros intervalos, são parte estrutural da história. Eles dão peso às decisões do protagonista e reforçam o tema central da obra: é possível fugir do passado? Além disso, o ritmo mais cadenciado pode não agradar a todos, mas fortalece o impacto emocional quando os conflitos finalmente explodem.

Combate renovado

O sistema de combate recebeu ajustes importantes. O que antes era rígido agora se apresenta mais fluido e responsivo. Os golpes conectam melhor, as Heat Actions são mais cinematográficas e os inimigos oferecem resistência sem se tornarem frustrantes.

A árvore de habilidades foi reorganizada, incentivando estilos variados de jogo. Ainda não alcança a complexidade de capítulos mais recentes da franquia, mas está longe da sensação truncada do original.

O sistema de inventário passou por uma ampliação considerável, possibilitando ao jogador carregar muito mais itens do que era permitido no jogo anterior. O celular de Kiryu também ganhou novas funcionalidades, organizadas em diferentes abas por meio de aplicativos, o que acrescenta identidade à experiência e cumpre papéis específicos na jogabilidade. Ele é essencial tanto nas missões dos “Amigos Lalala” quanto na busca por alvos especiais.

Além disso, a customização do aparelho assume o lugar do antigo sistema de equipamentos, permitindo modificar os atributos do personagem. Acessórios como chaveiros, por exemplo, podem aumentar a resistência contra determinados tipos de dano ou facilitar a descoberta de itens ocultos pelo cenário.

Captura por Daniel Bueno

Dark Ties: tensão política e novas cicatrizes

Se Kiwami 3 é introspectivo, Dark Ties adiciona camadas de tensão mais diretas. A expansão introduz novos personagens e conflitos que ampliam o escopo político da narrativa.

Enquanto Kiryu tenta se adaptar à sua nova rotina em Okinawa, Dark Ties desloca a ação para Kamurocho, revelando a outra face dos acontecimentos. A vivência com Mine contrasta fortemente com a de Kiryu, começando pelo seu estilo de combate mais ágil e técnico, inspirado no boxe, que inclusive possibilita a execução de chutes no ar. Por assumir o papel de antagonista, a condução da narrativa e até mesmo a abordagem das histórias paralelas seguem um caminho oposto ao do protagonista.

O tom é mais sombrio, com alianças frágeis e traições que reforçam a ideia de que o passado de Kiryu nunca deixa de persegui-lo. As missões adicionais são bem integradas à campanha principal, e os confrontos elevam o nível de desafio. Há também novas atividades secundárias e batalhas opcionais que aproveitam melhor as melhorias no sistema de combate.

Captura por Daniel Bueno

Atividades paralelas continuam sendo o charme da série

Como todo bom Yakuza, a narrativa principal é apenas parte da experiência. Minigames, histórias paralelas absurdas, interações inesperadas e atividades opcionais retornam com força total. Entre essas atividades estão os confrontos entre gangues de motociclistas, nos quais o jogador acompanha a trajetória do chamado Dragão Marginal, uma história paralela em que Kiryu lidera um grupo de motoqueiros na disputa por território contra facções rivais.

Outro ponto alto é a progressão no chamado Ranque de Papai, que funciona como um simulador rural à la Stardew Valley. Nele, é possível realizar diversas tarefas, como preparar pratos, administrar uma plantação, gerenciar uma mercearia e até participar de um minigame de costura.

Entre dramas intensos e brigas brutais, ainda há espaço para momentos genuinamente engraçados, marca registrada da franquia.Esse contraste entre tragédia e humor continua sendo um dos maiores diferenciais da série.

Captura por Daniel Bueno

Nem tudo é perfeito

Apesar das melhorias, ainda há resquícios da estrutura antiga. Algumas missões apresentam ritmo irregular, e certos trechos narrativos poderiam ser mais enxutos. Já em Dark Ties, embora o conteúdo seja sólido, parte dele soa como preparação para futuros capítulos da franquia, o que pode deixar a sensação de história incompleta para alguns jogadores.

O principal problema do remake, é que com as melhorias gráficas, o game se distancia muito do estilo visual do original, causando um estranhamento grande à primeira vista. Essas mudanças vão desde as roupas dos personagens, até a iluminação de cenários inteiros.

Conclusão

Yakuza Kiwami 3 recontextualiza um capítulo essencial da saga de Kiryu com melhorias técnicas significativas e uma abordagem mais acessível para novos jogadores. O mapa vivo, a densidade urbana, as lojas funcionais e o gameplay no geral demonstram cuidado estrutural além do simples remake gráfico.

Dark Ties complementa essa experiência com conflitos mais intensos e uma expansão narrativa que aprofunda as feridas do protagonista.

Não é o capítulo mais explosivo da franquia, mas talvez seja um dos mais maduros. E, dentro da proposta de revisitar o passado enquanto amplia o presente, entrega uma experiência consistente, emocional e relevante mesmo com várias mudanças na narrativa e no estilo que podem desagradar os fãs mais rigorosos.

Versão jogada: PlayStation 5

Disponível também para Xbox Series e PC.

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