Chegamos ao fim de uma era. No último dia 31, a Netflix enfim disponibilizou o episódio final de Stranger Things, a produção de maior sucesso dos streamings até então. Em meio a escolhas que dividiram opiniões, algo é inegável: a série entrou pra história da cultura pop e seu ciclo final, dividido em três partes, fez barulho na internet.
Com cerca de duas horas de duração, o oitavo episódio da quinta temporada, intitulado como “O Lado Certo“, entregou um final bastante previsível; o que pode ter decepcionado parte do público, mas está bem longe de ser o desastre apontado por alguns.
Atenção: Sempre evito entrar em detalhes que revelam muito sobre a trama, mas é importante destacar que elementos importantes serão abordados e inevitavelmente essa crítica terá spoilers. Caso ainda não tenha assistidos o episódio final, prossiga por sua conta e risco.
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Uma produção digna de um blockbuster
Antes de dissertar sobre a trama em si, é importante destacar o quão visível foi o investimento da Netflix no final de sua obra de maior sucesso. Não se tratam de efeitos especiais inovadores, mas dignos de filmes hollywoodianos modernos, necessários para nos manter imersos durante um episódio com duração de longa-metragem.
Nos últimos volumes, não chegou a ser um incômodo, mas em algumas cenas os efeitos pareciam menos críveis que nas temporadas anteriores, talvez pela maior necessidade de se aprofundar no mundo invertido e, mas à frente, no “outro lado”, onde Vecna e o Devorador de Mentes se encontram. No fim, o orçamento foi bem guardado para o fim, com a até então misteriosa criatura sendo, inclusive, um dos pontos altos em questão estética do episódio – apesar de poucos minutos em tela e não ser tão amedrontadora quanto sua “sombra” já foi um dia em temporadas anteriores.

Ok, Netflix, você forçou a barra…
Entramos então na parte narrativa, e aqui precisamos conversar com calma. Stranger Things nunca prometeu ser realista e muito menos matar seus personagens principais a lá Game of Thrones. No entanto, para um final épico, sacrifícios precisam ser feitos e um fim trágico para algumas peças importantes pode ser uma saída fácil para validar a sensação de urgência – e, devido à tensão prometida pela divulgação da temporada final nos últimos meses, o medo de perder nossos heróis era necessário, mas não foi real, nem mesmo quando Steve caiu de uma torre prensada por outro universo ou Nancy virou isca e teve de correr como a atleta que nunca foi de um monstro gigantesco bem em seu território.
No fim, já esperávamos que os personagens principais se salvariam e não fomos surpreendidos quando todos eles, com a desculpa esfarrapada de “não sentir mais medo”, enfrentaram de frente, ao mesmo tempo, o maior vilão e a maior ameaça da trama como se estivessem de igual para igual – e isso não convenceu e prejudicou bastante a queda da descrença. É o típico caso em que o terror é deixado de lado em prol da ação. Isso agrada alguns, decepciona outros – eu fico no meio termo.

… mas nos deu bons desfechos individuais
No entanto, não podemos reclamar de não saber como os personagens ficaram após salvar o mundo. No fim do dia, eles são adolescentes, jovens ou adultos comuns, que precisarão superar o passado e tocar suas vidas e o episódio final gastou um tempo necessário nisso, mesmo sob o risco de cair no clima de “fim de novela” – a realidade é que quem aprendeu a amar esses personagens, gostou de ver seus desfechos narrativos.

Vecna merecia um final melhor
O caso de Vecna, porém, é um pouco mais delicado. Não só o personagem, como Jamie Campbell Bower merecia um desfecho melhor. Não digo que não vibrei em ver Joyce decepar o monstro que causou todo sofrimento à sua família ou que preferia a redenção de Henry com que a trama chegou a flertar por alguns minutos, mas sinto que, no fim, os Irmãos Duffer não souberam como derrotar a ameaça que criaram – e isso serve tanto para Vecna quanto para o Devorador de Mentes.
A tão aguardada batalha final entre Eleven e Vecna, por exemplo, esteve longe de entregar uma coreografia bem elaborada e nos provocar medo real de derrota para a protagonista, assim como o ataque (des)coordenado do restante do grupo ao titã do lado de fora. No fim, tudo foi resolvido com tanta facilidade por jovens repletos de planos furados que Vecna não pareceu tão genial e assustador quanto achamos anteriormente – e isso é uma pena.

Altos e baixos do elenco em Stranger Things
Abro aqui um parêntese para falar sobre a atuação de parte do elenco não apenas nesse episódio, mas em toda a quinta temporada. Começando por Millie Bob Brown, talvez me falte tecnicalidade para conseguir apontar o que exatamente me incomodou, mas sei que vai muito além do excesso de botox apontado de forma maldosa por alguns – mesmo que faça sentido, principalmente pra época em que a trama se passa.
Em uma temporada em que sua personagem precisou ainda dividir ainda mais o protagonismo com o restante do grupo e ter menos tempo de tela, a atriz não conseguiu convencer de suas emoções e entregar o que realmente sua personagem precisava. Era como se estivéssemos vendo mais do mesmo, a mesma Eleven das primeiras temporadas, sem o verdadeiro peso da vivência e dos laços que a mesma criou desde então, ainda presa no seu passado traumático.
Tudo isso, claro, vai muito além da falta de dramatização de Millie e passa também pelo roteiro, que empobreceu a personagem e, no fim, deu o final menos surpreendente para a mesma – o que piorou com a tentaiva falha de Millie e Finn Wolfhard de entregar a química e o drama necessários para a cena de despedida.

No entanto, temos uma clara evolução de algumas peças que cresceram bastante não só nesta temporada, mas durante toda série: Caleb McLaughlin (Lucas), Noah Schnapp (Will) e a fora de série Sadie Sink (Max) são bons exemplos, além da promissora Nell Fischer, que trouxe um frescor necessário ao elenco quando não parecia haver mais espaço para novos rostos – e certamente ouviremos falar mais dela em Hollywood dentro dos próximos anos.
Final aberto? Não necessariamente
Falando no final de Eleven, temos uma saída um tanto quanto medrosa, mas interessante dos Irmãos Duffer. Sem que algo precise ser regravado, a personagem ganha uma espécie de “final alternativo”, em um movimento da trama para saciar quem não gostou do sacrifício da protagonista. Não queria ninguém morto no fim? Simples, assim como Mike e seus amigos, “acredite” que Eleven está bem e que, em algum momento, voltará para reencontrar seus amigos. Eu, porém, prefiro o final “original”, por mais triste e previsível que ele seja.
De qualquer forma, o terreno para teorias e suposições segue aberto – talvez por medo de represálias? Sim, mas a Netflix deu algo para que os fãs passem mais tempo falando sobre e revendo a série para ligar pontos com as cenas narradas por Mike após a morte da namorada e acredito que essa tenha sido a intenção.

O ‘desespero’ para agradar o público incomoda – mas a obra sai ilesa
Em suma, os irmãos Duffer e a Netflix flertaram com um final ruim e decepcionante, mas sua obra sai ilesa, principalmente em comparação a outros exemplos negativos recentes. Não é difícil perceber o esforço exagerado para colocar em tela momentos que ficarão na memória dos fãs, mesmo que sem poli-los o necessário. Acredito que veremos muitas críticas negativas nos próximos dias, mas em alguns anos Stranger Things não ficará taxada como “uma boa série com um péssimo final” e isso é, talvez, o mais importante para quem fez parte do projeto.
Já nós, o público, apesar de não termos o que esperávamos, recebemos fanservices e momentos épicos que amarraram de forma satisfatória uma das tramas mais impactantes da cultura pop recente – ao menos para mim, o saldo é positivo.

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