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Ted Lasso e filosofia | Otimismo inabalável, empatia e gentileza

Em um universo televisivo frequentemente dominado por cinismo, sarcasmo e anti-heróis moralmente ambíguos – não que isso seja necessariamente um problema -, Ted Lasso surgiu como um contraponto quase radical. A série não aposta na ironia como defesa emocional, nem na frieza como sinal de inteligência. Pelo contrário: ela coloca a gentileza no centro da narrativa.

Criada por Bill Lawrence, Jason Sudeikis (que também interpreta o carismático protagonista), Brendan Hunt e Joe Kelly, a produção da Apple TV+ poderia facilmente ser apenas uma comédia esportiva sobre um treinador americano tentando comandar um time de futebol inglês. Mas rapidamente fica claro que o futebol é apenas o cenário. O verdadeiro campo de batalha é emocional.

Ted não vence apenas jogos: ele transforma ambientes. E é aí que a filosofia entra em campo para explicar o sucesso da série que se encaminha para sua quarta temporada após pedidos incessantes de fãs ao redor de todo o mundo – de fato, ficamos orfãos da figura de Ted e seus ensinamentos.

Poster da série Ted Lasso
Ted Lasso ganhará uma quarta temporada. Divulgação/AppleTV.

O otimismo como postura ética e profissional

O otimismo de Ted Lasso não é ingenuidade. É escolha. Em vez de reagir ao sarcasmo com sarcasmo, ele responde com curiosidade. Em vez de se proteger com ironia, ele se expõe. Seu famoso “seja curioso, não crítico” sintetiza uma postura profundamente filosófica: a suspensão do julgamento como ferramenta de convivência e profissional.

Há ecos claros do estoicismo aqui. Não no sentido da frieza emocional, mas na capacidade de focar naquilo que se pode controlar: atitudes, reações, postura diante das adversidades. Ted não controla as derrotas, os conflitos internos do time ou as provocações da imprensa. Ele controla como reage a eles e ensina seus jogadores e companheiros de trabalho a também seguirem este raciocínio.

Seu otimismo é, portanto, uma prática ética. Não é negação da dor, mas uma decisão consciente de não permitir que o ressentimento dite suas ações.

Empatia: a chave para uma liderança de sucesso

Ted não lidera pelo medo, nem pela hierarquia rígida. Ele lidera pelo cuidado. Ao longo da série, vemos um padrão constante: ele escuta antes de falar. Ele tenta compreender antes de corrigir. Ele procura a raiz emocional dos conflitos em vez de apenas tratar sintomas.

Isso dialoga com teorias contemporâneas de liderança humanizada, mas também com conceitos clássicos da filosofia moral, como a ética do cuidado. A ideia de que relações importam tanto quanto resultados.

Personagens como Rebecca, Roy Kent, Jamie Tartt e até o inicialmente hostil Nathan Shelley não são “corrigidos” por imposição. Eles são transformados por reconhecimento. Ted oferece algo raro: validação sem condescendência. E isso desarma defesas.

Gentileza é força, não fraqueza

Um dos aspectos mais interessantes da série é como ela desafia a associação tradicional entre dureza e competência. No universo competitivo do futebol profissional, espera-se agressividade, cobrança e pressão constante. Ted escolhe gentileza. E, aos poucos, a narrativa mostra que essa escolha não é fraqueza, é coragem.

Ser gentil em ambientes hostis exige firmeza interna. Exige segurança emocional. Exige disposição para continuar oferecendo respeito mesmo quando não se recebe o mesmo em troca. A série questiona um pressuposto cultural forte: o de que para ser levado a sério é preciso endurecer. Ted prova o contrário: é possível ser firme sem ser cruel.

Vulnerabilidade masculina e saúde mental

Aqui entramos no ponto filosófico e psicológico talvez mais importante da série: a abordagem da vulnerabilidade masculina. Ted, o eterno sorridente, não é um personagem unidimensional. Ao longo da narrativa, descobrimos suas crises de ansiedade, seus traumas familiares, suas dificuldades no casamento. O otimismo não elimina sua dor; apenas não a deixa se transformar em amargura.

Ao mostrar um homem emocionalmente aberto, que faz terapia, que admite fragilidades, a série desmonta arquétipos tradicionais de masculinidade. Há aqui uma discussão ética sobre autenticidade: viver de acordo com quem se é, e não com expectativas sociais rígidas.

Aos poucos, a série demonstra a importância do acompanhamento psicológico em nossas vidas e o quanto cuidar de nossa mente pode deixar o duro caminho para o sucesso, tanto pessoal quanto profissional, mais suportável

Comunidade acima do ego pessoal

Se há um eixo central em Ted Lasso, é a ideia de que relações constroem resultados. O AFC Richmond começa fragmentado: jogadores individualistas, conflitos internos, desconfiança na gestão. A transformação não acontece apenas por estratégias táticas, mas por reconstrução de vínculos.

A filosofia implícita é simples e poderosa: ambientes saudáveis produzem desempenhos saudáveis. Ted entende que antes de formar um time vencedor, é preciso formar uma comunidade. E isso exige confiança, paciência e disposição para investir no outro.

Ted Lasso e o antídoto ao cinismo

Talvez o maior mérito de Ted Lasso seja funcionar como antídoto cultural. Vivemos uma era marcada por ironia constante, polarização e desconfiança generalizada. A série propõe algo quase subversivo: acreditar nas pessoas.

Não se trata de ingenuidade cega. Ao longo das temporadas, vemos erros, traições e conflitos reais. Mas a resposta da narrativa nunca é endurecer o coração. É ampliar o diálogo. Ted Lasso sugere que empatia não é romantização do mundo; é estratégia de sobrevivência emocional.

Quando a gentileza vira revolução

No fim das contas, Ted não muda apenas um clube de futebol. Ele muda a forma como as pessoas se veem. Sua filosofia pode parecer simples: “seja gentil, escute mais, julgue menos”; mas é exatamente essa simplicidade que a torna poderosa. Em um mundo que frequentemente recompensa o cinismo, escolher a empatia é quase revolucionário.

Ted Lasso nos lembra que liderança não precisa ser barulhenta. Que força pode ser suave. Que otimismo pode ser um ato de resistência. E que, às vezes, o verdadeiro troféu não está na prateleira, está nas relações que construímos ao longo do caminho e como aprendemos com cada uma delas.

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Colaborador do Conecta Geek desde 2024, nasci no estado do Rio de Janeiro e alinho minhas maiores paixões à minha vocação através da produção de conteúdo. Entre as minhas áreas de maior domínio e experiência profissional estão o o universo geek, o automobilismo e os esportes em geral, principalmente o futebol. Certificado como Jornalista Digital e Social Media pela Academia do Jornalista, contribui no passado como Editor-chefe nos portais R7 Lorena e iG In Magazine e fui Colaborador do portal esportivo Torcedores.