Crítica | Sirāt é uma tentativa de um choque vazio, onde a forma eclipsa o conteúdo
Movistar Plus+/Divulgação

Crítica | Sirāt é uma tentativa de um choque vazio, onde a forma eclipsa o conteúdo

Com Sirāt, o diretor Oliver Laxe propõe uma experiência cinematográfica que, à primeira vista, parece ser um jogo de contrastes e referências. O filme se desenrola em um cenário árido e desolado, no deserto do Saara, onde um grupo de jovens europeus se perde em uma festa rave que acaba se transformando em um pesadelo. A princípio, o projeto desperta a curiosidade pela maneira como articula questões de colonialismo, indiferença ocidental e os limites da exploração de realidades outras. No entanto, o que se desenhava como uma análise desses temas acaba se perdendo em uma sucessão de imagens vazias e uma narrativa que parece mais preocupada em provocar pela forma do que com o fundo.

Laxe nos apresenta personagens desinteressantes, figuras de turistas europeus alheios ao contexto geopolítico que os envolve. Não há uma investigação verdadeira sobre o espaço político e social do Saara Ocidental ou qualquer esforço significativo para dar voz aos habitantes locais. A ausência de uma abordagem contextual mais robusta torna o filme superficial, apenas decorado com o exotismo do deserto. Essa tentativa de criar uma metáfora do desinteresse e do egoísmo ocidental se transforma, na tela, em uma exploração frágil, apática e, no final das contas, irresponsável.

Do ponto de vista técnico, Sirāt é um filme visualmente impecável, mas é um espetáculo estéril. A fotografia, de uma beleza quase glacial, está em constante busca por imagens impactantes: os homens, as paisagens, os carros, tudo é emoldurado com um exagero pictórico que parece mais preocupado com a criação de ícones do que com a construção de uma narrativa consistente. A câmera de Laxe tenta capturar o espírito do deserto, mas, em vez de imergir o espectador na vastidão e nos desafios da paisagem, ela parece distanciá-lo, oferecendo imagens que não dizem nada. As tomadas são longas, lentas e repletas de simbolismo barato, como se a grandiosidade da natureza fosse suficiente para sustentar o filme. No entanto, esse desejo de tornar cada cena uma pintura congelada só reforça o vazio que permeia a experiência.

Na montagem, Laxe falha em construir qualquer tipo de tensão ou de dinâmica narrativa interessante. A alternância entre a primeira parte do filme, marcada pela festa rave, e a segunda, que busca uma tentativa de thriller psicológico, é feita de forma abrupta e desleixada. Quando a violência e o perigo começam a se aproximar dos personagens, a sensação é a de que a história se arrasta sem rumo, sem jamais conseguir gerar o tipo de aflição ou suspense que, teoricamente, deveria ser seu objetivo. O ritmo do filme é confuso e falta uma verdadeira evolução nas situações; o espectador é levado a passar por longos trechos de cenas aparentemente sem propósito, que mais parecem encher espaço do que desenvolver a trama.

Ainda mais decepcionante é a atuação do elenco, que transita entre a caricatura e o desinteresse total. Os personagens não são apenas mal desenvolvidos – eles são, na prática, irrelevantes. Não há arcos dramáticos que justifiquem as escolhas ou atitudes que eles tomam, e é difícil se importar com suas jornadas, especialmente quando estas são tão claramente tratadas como um pretexto para cenas desconfortáveis e choques sensoriais. O roteiro parece mais interessado em martelar a ideia de uma decadência existencial do que em proporcionar qualquer respiro emocional. O sofrimento dos personagens é tratado com uma espécie de desdém cinematográfico, como se a tortura psicológica fosse o único veículo para transmitir a ideia de desespero. A escolha de um personagem infantil, cuja morte soa mais como uma manobra para gerar um impacto barato, exemplifica bem essa abordagem cruel e desprovida de autenticidade.

Esse foco no “choque” e no desconforto atinge seu ápice na tentativa de se tornar um filme de “prestígio”, onde a moralidade e o apoliticismo se entrelaçam de maneira inconveniente. O fato de os personagens principais serem turistas europeus, viajando pelo Saara Ocidental sem qualquer conhecimento ou envolvimento com o contexto político que os cerca, é uma escolha questionável. O filme sugere, de forma desajeitada, que os personagens merecem o que lhes acontece por ignorarem a realidade ao seu redor.

Crítica | Sirāt é uma tentativa de um choque vazio, onde a forma eclipsa o conteúdo
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Mas essa crítica ao privilégio europeu, ao colonialismo e à indiferença não é bem fundamentada. Ela é apenas uma constante repetição de imagens e situações que querem fazer o público sentir-se desconfortável, mas não há realmente um aprofundamento nesse aspecto. É como se Laxe quisesse, de forma vazia, expor a fragilidade e a ignorância de seus personagens, mas sem conseguir criar uma reflexão ou mesmo uma reviravolta significativa. O filme não é subversivo, mas apenas prega uma moral barata e sem profundidade.

As escolhas sonoras, em especial a trilha sonora techno, parecem também ser um artifício para intensificar a sensação de alienação. A música tem o potencial de ser uma camada adicional à narrativa, mas aqui se transforma em um elemento estranhamente deslocado. A repetição das batidas, que no início parecem simbolizar a euforia da festa, acabam se tornando apenas um ruído que reforça a monotonia do filme. Isso é especialmente notável nas cenas de rave, onde a tentativa de nos fazer sentir a energia da festa é falha. A montagem e o som se chocam, criando uma atmosfera fria e desassociada da realidade de quem está ali, tentando, talvez, sentir algo. Ao invés de nos transportar para dentro dessa experiência sensorial, Laxe nos mantém à distância, nos impedindo de vivenciar a festa e os dilemas dos personagens.

Crítica | Sirāt é uma tentativa de um choque vazio, onde a forma eclipsa o conteúdo
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Quando chega ao seu clímax, Sirāt não consegue entregar um grande payoff. A tentativa de levar o filme a um apogeu de brutalidade e reflexão, com uma invasão militar e uma tragédia iminente, acaba sendo apenas um truque barato para gerar um impacto imediato. O tratamento superficial das questões políticas – como o conflito no Saara Ocidental – é vergonhoso, especialmente considerando que o filme poderia ter sido uma plataforma para discutir essas questões de forma mais profunda. Ao invés disso, Sirāt se satisfaz em entregar uma representação rala de um “choque cultural”, sem explorar verdadeiramente a complexidade do ambiente.

Sirāt é um filme que se perde em sua própria ambição visual e narrativa. Laxe não consegue articular suas ideias de maneira coesa e, ao invés disso, recorre a um estilo vazio, onde a forma eclipsa o conteúdo. A tentativa de fazer um filme de festival perturbador e provocador se dissolve em um exercício de moralismo barato, sem qualquer reflexão genuína sobre os temas que sugere. O filme deixa um gosto amargo não apenas pela sua falta de substância, mas também pela maneira como escolhe tratar um contexto complexo e significativo de forma irresponsável.

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