Mexer com a obra de Dorival Caymmi é por si só uma aventura bastante arriscada. Não apenas porque as canções foram imortalizadas de forma inconfundível pelo próprio cantor e compositor baiano, que é um pilar fundamental da música brasileira, como porque esse mesmo repertório já foi revisitado de diferentes formas por algumas das maiores cantoras do país, indo de Nana Caymmi a Gal Costa e Maria Bethânia.
Sendo assim, Alice Caymmi, neta de Dorival, encara o desafio com muita naturalidade e se volta para o legado do avô trazendo novas perspectivas, sem abrir mão da própria identidade e de toda a experiência acumulada com experimentações no pop e na MPB desde sua estreia em 2012. Caymmi, seu sexto álbum de estúdio atualiza o legado da família, ao mesmo tempo, em que reposiciona a cantora e compositora em um lugar interessante após os tropeços de “Imaculada” (2021), seu disco anterior.

São 12 faixas, entre clássicos e alguns lados B, que foram reimaginadas para um olhar mais pop e muito solar. Aqui, as canções de Dorival tem seu DNA latino-americano sublinhado, ganhando um novo brilho através de ritmos como o reggae, o ska, a salsa e o carimbó, porém se desprenderem da sua herança afro-brasileira, tendo o samba, e os elementos das religiões de matriz africana também muito presentes. Tudo fluindo muito bem com a produção musical de Iuri Rio Branco e uma Alice Caymmi bastante a vontade e segura da sua proposta.
A abertura com “O que é que a baiana tem” já deixa bem evidente a atmosfera da obra, com uma versão deliciosa que dá um novo frescor a um clássico que faz parte do DNA brasileiro. Em seguida vem, “Acalanto”, canção de ninar que passa por uma das transformações mais radicais do disco e ganha novos significados em uma versão mais soturna. “Modinha Para Gabriela”, imortalizada na voz de Gal Costa, vira um reggae delicioso e com uma interpretação a altura e completamente diferente.

“Maracangalha” ganha uma das versões mais divertidas e dançantes do disco. Momentos como “Canção de Partida”, “Dora”, “Canto de Obá” e “Adeus” destacam os vocais impecáveis de Alice que esbanja aqui toda a bagagem da herança da família e canta com a leveza de quem nasceu embalada por essas canções. “Dois de Fevereiro” segue com uma roupagem na MPB, porém ainda mais luminosa e marcada pelo excelente arranjo de sopros.
“Eu não tenho onde morar” sai do samba para se aventurar por um reggae com elementos eletrônicos e uma veia dub. “Morena do mar” vai mais afundo no universo eletrônico e se aproxima da atmosfera do disco “Rainha dos Raios” (2015). “O Bem do Mar” vira um bolero delicado e uma interpretação luxuosa que fecha o disco com elegância.
Em “Caymmi”, Alice consegue trazer a obra do avô para o seu universo, renovando e apresentando novas possibilidades para canções de mais de meio século, porém mantendo respeito pelas melodias, as harmonias, e preservando a essência que as fazem imortais. Aqui, a artista mostra um domínio criativo brilhante, sem tropeços, sem exageros, mas também sem medo de arriscar e aposta no novo.
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