Crítica | A História do Som é mais que um romance queer, é um épico de amor pela música
MUBI/Divulgação

Crítica | A História do Som é mais que um romance queer, é um épico de amor pela música

Eu descobri, ainda na adolescência, que enxergava sons. Não é figura de linguagem – quando ouço uma música, vejo cores flutuando no ar, texturas que se desenrolam como fumaça e formas que dançam. Sinestesia, chamam. Durante A História do Som, passei a projeção inteira com a sensação de que Oliver Hermanus, o diretor, talvez enxergue também. Ou, no mínimo, entende que certos afetos só conseguem existir na fronteira entre os sentidos, lá onde uma cantiga folk vira abraço e um cilindro de cera guarda mais que gravação – guarda a própria alma de quem partiu.

O filme começa com uma festa universitária em 1917. Luzes de lampião e jovens de roupa engomada. É então que David (Josh O’Connor) abre a boca para cantar e, do outro lado da sala, Lionel (Paul Mescal) congela. Não porque a voz seja extraordinária, mas porque a melodia é a mesma que sua mãe cantava, a mesma que embalou sua infância, a mesma que não deveria estar ali, na boca de um estranho. Ninguém no salão entende o que acontece naquele instante. Ninguém vê as faíscas. Mas nós, espectadores, somos admitidos como cúmplices de um segredo que mal começou.

Hermanus constrói essa cumplicidade com uma paciência de ourives. Ele parece ter encontrado em A História do Som seu equilíbrio mais delicado. A câmera não se agita. Os cortes não se apressam. Há um prazer quase perverso em deixar a imagem pairando, obrigando a gente a preencher as lacunas com o próprio peito. Quem espera por declarações bombásticas ou conflitos escancarados vai passar 127 minutos se perguntando onde está o filme. Quem se entrega, descobre que o filme está justamente no que não é dito.

Crítica | A História do Som é mais que um romance queer, é um épico de amor pela música
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Porque não se diz quase nada, entenda. Ao longo de toda a narrativa, que acompanha Lionel e David em viagens pelo interior dos Estados Unidos para registrar canções folclóricas em cilindros de cera, ninguém pronuncia as palavras “gay”, “homossexual” ou “amor proibido”. Ninguém é descoberto, perseguido ou punido. A sociedade ao redor vê dois rapazes dedicados à pesquisa acadêmica, dois grandes amigos que dividem estradas e gravações. Apenas nós – e uma única personagem secundária que escolhe o silêncio – sabemos o que realmente acontece nas frestas da floresta, nas madrugadas do apartamento de David, nos olhares que duram um segundo além do aceitável.

Essa escolha tem gerado controvérsia. Há quem acuse Hermanus de fazer um filme “no armário”, tímido demais para mostrar o que deveria mostrar. A crítica é reforçada quando comparamos as cenas íntimas: a relação entre os dois homens é filmada com candura, beijos sugeridos, corpos ocultos; já os encontros heterossexuais de ambos recebem tratamento mais explícito, mais carnal. Seria recato? Medo? Ou algo mais complexo, uma decisão consciente de colocar o amor de Lionel e David numa bolha tão hermética que nem mesmo a câmera consegue invadir por completo?

Minha sinestesia, mais uma vez, me oferece uma pista. Se sons têm cor para mim, talvez Hermanus esteja propondo que certos amores têm textura – e a textura desse amor específico é a música. Desde o primeiro encontro, quando David canta a canção da infância de Lionel, fica estabelecido que a comunicação entre eles se dará por ondas sonoras. Eles não escrevem cartas longas, gravam cilindros. Não fazem declarações de amor, mas entoam duetos. A música é, ao mesmo tempo, a linguagem do afeto e o único território onde esse afeto pode existir sem precisar de justificativa ou nome.

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Essa construção é levada às últimas consequências técnicas. O som, tratado com rigor quase documental, é o terceiro protagonista do filme. Quando Lionel perde o pai, Hermanus sobrepõe vozes e canções num crescente caótico até que o rapaz precise tapar os ouvidos – e nós sentimos na pele aquela dor que não cabe em silêncio. Quando os dois finalmente cantam juntos, a sobreposição de timbres materializa algo que o roteiro jamais verbalizaria: ali, naquela fusão de vozes, está a prova de que se pertencem. Depois que se separam, a música também se separa. Lionel passa a cantar em corais, abraçando o coletivo; David canta sozinho, cada vez mais isolado em sua solidão sonora. A fotografia acompanha esse movimento com a delicadeza de quem entende que paisagens também podem ser partituras.

Há uma cena, perto do final, que sintetiza essa abordagem. Velho, doente, Lionel (Chris Cooper) recebe de volta os cilindros que gravara com David décadas antes. Coloca um no fonógrafo, e a voz do amado preenche o quarto como se o tempo não tivesse passado. Hermanus filma o rosto de Mescal em close, mas sem pressa de arrancar lágrimas. O ator permite que a emoção suba devagar. Não há catarse. Apenas a constatação de que certas vozes não morrem enquanto houver alguém disposto a ouvi-las.

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Josh O’Connor, parceiro de cena, entrega um desempenho igualmente contido. Os atores recusam o sentimentalismo rasteiro com uma disciplina quase monástica. Mesmo nos momentos de maior tensão, mantêm a serenidade. O único choro mais aberto acontece enquadrado de longe, quase imperceptível. Hermanus não quer explorar a lágrima – quer apenas a testemunhar, de longe, como se respeitasse a privacidade da dor.

Isso nos devolve ao paradoxo central. A História do Som é, afinal, um filme gay envergonhado ou um passo corajoso rumo à naturalização de afetos queer? A pergunta não tem resposta definitiva, e talvez seja melhor que não tenha. Porque o que Hermanus propõe é menos uma tese do que uma experiência sensorial: e se, por um momento, abandonássemos as categorias e deixássemos o amor ser apenas amor, sem adjetivos, sem bandeiras, sem necessidade de se explicar? E se aceitássemos que certas histórias não precisam de conflito para serem verdadeiras, nem de tragédia para serem profundas?

Para quem vive num mundo onde sons têm cor e vozes deixam rastros, a experiência é avassaladora. Saí do cinema com a sensação de ter passado duas horas num cilindro de cera – guardado, preservado, flutuando num tempo que não passa. E entendi, enfim, que talvez Lionel e David nem precisassem ser o grande amor um do outro. Talvez bastasse terem sido a melodia certa no momento certo. Porque tem amor que não precisa de nome. Tem amor que precisa apenas de escuta.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.