Crítica | Blue Moon e a melancolia de quem nunca sai do balcão
Sony Pictures Classics/Divulgação

Crítica | Blue Moon e a melancolia de quem nunca sai do balcão

Em Blue Moon, o bar é um confessionário, palco, trincheira e espelho. E o que vemos refletido ali não é só o rosto cansado de um artista em crise, mas o retrato de alguém que transformou a própria inteligência numa armadura tão brilhante quanto frágil.

Richard Linklater sempre demonstrou interesse por personagens que falam muito – e, sobretudo, que falam para sobreviver. Aqui, ele escolhe recortar uma única noite na vida do compositor Lorenz Hart, interpretado por Ethan Hawke, para examinar o instante exato em que o talento já não basta para sustentar o ego. O tempo real da narrativa – cerca de cem minutos que acompanham o mesmo intervalo na vida do protagonista – comprime o espectador dentro da mesma atmosfera densa que envolve aquele balcão.

Hart vive o gosto amargo de ver seu antigo parceiro, Richard Rodgers (Andrew Scott), alcançar um novo auge com a estreia de “Oklahoma!”. O filme, no entanto, não transforma essa informação em melodrama. Linklater não está nem um pouco interessado em cenas de sucesso em contraste ao fracasso. O roteiro de Robert Kaplow constrói esse personagem por meio de diálogos que oscilam entre o espirituoso e o cruel, como se cada piada fosse um pedido de socorro disfarçado.

A grande escolha dramatúrgica está em evitar qualquer reverência biográfica convencional. Não há desfile de conquistas, nem retrospectivas que organizem a vida do compositor em capítulos edificantes. Ao contrário: o filme o encontra quando ele já começa a escorregar. E essa decisão é relevante porque desloca o foco do “gênio” para o homem. Em vez de explicar sua obra, Blue Moon prefere expor suas fissuras.

Ethan Hawke assume esse risco com intensidade quase acrobática. Seu Hart tem um corpo inquieto, sempre à beira de um comentário ferino ou de um elogio exagerado. A performance tem algo de teatral – e isso não é defeito, mas coerência com o universo retratado. O ator sustenta longos trechos de texto com variações sutis de ritmo e entonação, permitindo que a euforia se transforme em desalento sem que percebamos exatamente quando ocorreu a virada. Pequenos gestos, como o modo de segurar as próprias mãos ou um olhar que se demora um segundo a mais, revelam uma vulnerabilidade que o discurso tenta encobrir.

Crítica | Blue Moon e a melancolia de quem nunca sai do balcão
Sony Pictures Classics/Divulgação

A encenação poderia facilmente resvalar para o teatro filmado, dado o volume de diálogos e a concentração espacial. No entanto, o diretor de fotografia Shane F. Kelly trabalha o ambiente com mobilidade surpreendente. A câmera circula o bar em movimentos que exploram cada canto, alternando closes que capturam microexpressões e planos mais abertos que situam Hart no meio de grupos que ora o acolhem, ora o toleram. Para o espectador menos familiarizado com termos técnicos: o uso recorrente de enquadramentos fechados intensifica a sensação de claustrofobia emocional, enquanto os planos de conjunto revelam que, mesmo cercado de gente, o protagonista permanece isolado.

A montagem de Sandra Adair reforça essa dinâmica ao variar pontos de vista dentro da mesma cena. Uma provocação não é registrada de maneira única; ela reverbera em diferentes ângulos, quase como se o filme perguntasse: quem está certo aqui? Essa estratégia impede que a narrativa se torne estática, mas também contribui para a sensação de repetição emocional que, em determinado momento, pode cansar. Há um trecho intermediário em que a verborragia constante começa a pesar, e talvez um silêncio mais prolongado amplificasse o impacto do colapso iminente.

O desenho de produção ajuda a sustentar a metáfora central. O bar é minuciosamente ambientado, mas não chama atenção para si como peça de época exibicionista. Quadros, móveis e divisões internas criam molduras dentro do quadro, como se cada personagem estivesse enquadrado numa pequena galeria particular. Essa composição visual transforma o espaço em prisão simbólica: Hart está cercado por referências ao passado, mas não encontra uma saída concreta para o futuro. Até mesmo o fato de os figurinos permanecerem praticamente inalterados reforça a ideia de estagnação.

Outro mérito está na maneira como o filme aborda o alcoolismo. Não há cenas espalhafatosas de queda ou descontrole físico. A decadência se manifesta nos detalhes, na promessa de sobriedade que não se cumpre, no retorno insistente ao balcão, na dificuldade de sustentar relações. Ao optar por essa abordagem indireta, Linklater evita reduzir o personagem a um estereótipo e torna sua trajetória mais humana – e, por isso, mais incômoda.

O elenco de apoio contribui para que a narrativa não se transforme em um monólogo. Andrew Scott compõe um Rodgers que alterna carinho e exasperação, dando às cenas um ritmo quase combativo. Margaret Qualley traz leveza e franqueza às interações, oferecendo a Hart momentos de cumplicidade que escapam do ressentimento predominante. Essas presenças funcionam como contrapontos necessários, elevando o embate dramático a algo próximo de uma dança verbal.

Crítica | Blue Moon e a melancolia de quem nunca sai do balcão
Sony Pictures Classics/Divulgação

Blue Moon parece unir duas tradições: a espontaneidade de diálogos que soam improvisados e o rigor visual de composições cuidadosamente desenhadas. Esse encontro cria uma tensão produtiva. Ao mesmo tempo que a fala beira o balbucio emocional, cada centímetro do quadro é ocupado com precisão. A forma não contradiz o conteúdo; ela o aprisiona, assim como o personagem se aprisiona em suas próprias narrativas.

Ficamos com a sensação de ter presenciado uma noite longa e curta demais – longa pela intensidade dos confrontos, curta porque sabemos que algo pior se aproxima. Blue Moon não oferece redenção, tampouco julgamento. Ele observa. E, ao observar, convida o espectador a decidir se aquele homem no balcão é um artista incompreendido ou alguém incapaz de sair da própria sombra. Talvez seja as duas coisas. Talvez seja justamente essa contradição que o mantenha ali, repetindo histórias, pedindo mais um drink e esperando, quem sabe, que alguém ainda o escute.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.