Desde que me entendo por gente, Star Wars ocupa um espaço afetivo difícil de explicar. Cresci vendo aquelas imagens gastas em VHS, ouvindo o som dos sabres de luz ecoando pela casa e acreditando que existia alguma coisa de genuinamente mágica naquele universo. Com o passar dos anos, o amor pelo cinema naturalmente me levou para outros lugares, outros cineastas, outras sensibilidades. Ainda assim, havia algo em Star Wars que permanecia intacto: uma memória emocional de aventura, de encantamento visual, de imaginação cinematográfica em estado puro. Justamente por isso que Star Wars: O Mandaloriano e Grogu provoque uma sensação tão estranha. Não exatamente raiva. Mas um vazio mais melancólico do que indignado.
Existe uma diferença importante entre reconhecer que uma franquia é um produto e aceitar que ela se transforme apenas nisso. Cinema industrial sempre existiu. O próprio George Lucas revolucionou a lógica do blockbuster moderno. A questão nunca foi mercadoria contra arte. O problema aparece quando o produto parece esquecer completamente a necessidade de criar qualquer sensação. E o mais assustador em Jon Favreau não é a incompetência – ele claramente sabe organizar uma produção gigantesca –, mas uma espécie de ausência de impulso criativo. Tudo em Mandaloriano e Grogu parece calculado para existir sem atrito, sem personalidade, sem risco e, consequentemente, sem memória.
A narrativa avança como uma coleção de tarefas automáticas. Os personagens atravessam situações, enfrentam obstáculos, encontram criaturas, participam de perseguições e trocam diálogos expositivos com uma mecânica tão funcional que o filme passa a impressão de estar constantemente preenchendo espaço entre um ponto e outro. Não existe progressão dramática real porque quase ninguém ali parece mudar, aprender ou sequer reagir emocionalmente aos acontecimentos. O roteiro opera como uma longa sucessão de “e então isso acontece”, sem construir acúmulo emocional ou tensão narrativa. A sensação é menos a de assistir a um longa-metragem e mais a de acompanhar uma extensão dilatada de episódios televisivos incapazes de justificar a mudança de formato.
Isso talvez fique ainda mais evidente na mise-en-scène. Poucas franquias carregam uma responsabilidade imagética tão grande quanto Star Wars. O cinema moderno hollywoodiano de efeitos visuais foi redefinido por essa saga. Existe uma tradição visual ali: desertos infinitos, contrastes cromáticos intensos, silhuetas icônicas, planetas que pareciam possuir textura e identidade própria.
Em Mandaloriano e Grogu, porém, quase tudo possui a mesma aparência opaca e artificial. A direção de fotografia mergulha o filme em sombras acinzentadas, corredores escuros e ambientes digitalmente dessaturados que parecem esconder mais do que revelar. Não há sensação de escala. Não há composição visual memorável. Em vários momentos, o longa parece incapaz de produzir um único plano verdadeiramente forte.

Esse é, sem dúvidas, o aspecto mais triste da experiência: a pobreza imagética. Não uma limitação financeira, porque claramente existe dinheiro na tela, mas uma pobreza de imaginação cinematográfica. Os cenários possuem textura de volume virtual. Os enquadramentos raramente sugerem atmosfera ou emoção. A câmera simplesmente registra ações. Em determinados momentos, parece até existir um receio de estilização, como se qualquer tentativa de construção visual mais expressiva pudesse afastar o filme de uma neutralidade corporativa cuidadosamente calculada.
Nem mesmo os personagens conseguem escapar dessa sensação de esvaziamento. O Mandaloriano continua preso à mesma rigidez emocional de temporadas anteriores, mas agora sem o frescor inicial que tornava seu silêncio minimamente intrigante. Grogu, por sua vez, torna-se cada vez mais um mecanismo de reação programada: o personagem aparece para provocar fofura instantânea, arrancar uma risada pontual ou movimentar a trama através da Força. Pouco existe ali de desenvolvimento afetivo genuíno. A relação entre os dois continua dependendo quase exclusivamente da memória emocional que o público construiu na 1ª temporada da série – de onde, aliás, comecei e terminei.

Curiosamente, essa dependência nostálgica que mais limita o filme. O longa referencia constantemente acontecimentos passados, personagens derivados de outras séries e elementos reconhecíveis do universo expandido, mas raramente transforma essas conexões em material dramático significativo. Há participações e aparições que parecem existir unicamente para ativar reconhecimento imediato. Um gesto típico da cultura contemporânea de franquias: o aplauso condicionado pela familiaridade.
As participações vocais de atores como Jeremy Allen White e Sigourney Weaver acabam reforçando ainda mais essa impressão de automatismo industrial. Não porque sejam artistas sem talento – muito pelo contrário –, mas porque o filme parece incapaz de extrair qualquer presença real deles. As vozes entram e saem da narrativa sem peso dramático, como peças adicionadas para ampliar valor de mercado e circulação de manchetes.

Dentro desse cenário quase anestesiado, a trilha sonora de Ludwig Göransson surge como uma das poucas tentativas genuínas de criar identidade. Sua música continua buscando texturas diferentes dentro do universo de Star Wars, misturando western espacial, aventura clássica e ecos eletrônicos melancólicos. Em alguns momentos, a trilha parece lutar sozinha para dar energia ou emoção a cenas visualmente inertes. Existe uma sequência mais silenciosa na metade final que funciona justamente porque o filme finalmente desacelera e permite algum espaço para atmosfera. Por alguns instantes, reaparece uma sombra distante daquele senso de aventura contemplativa que marcou os melhores episódios da série original.
O aspecto mais desconfortável seja perceber como o longa parece incapaz de acreditar em si como cinema. A impressão constante é a de assistir a um conteúdo que já nasce pensando na próxima derivação, na próxima série, no próximo produto licenciado, no próximo elo de continuidade. Tudo é excessivamente seguro. Excessivamente limpo. Excessivamente calculado. A aventura nunca adquire peso físico. As cenas de ação possuem impacto momentâneo, mas desaparecem da memória segundos depois.
Enquanto assistia, pensava muito em como Star Wars sempre foi, acima de tudo, sobre imaginação visual. Mesmo seus capítulos mais problemáticos possuíam imagens que permaneciam. Cenários. Rostos. Movimentos de câmera. Silhuetas recortadas contra o espaço. Em Mandaloriano e Grogu, quase nada permanece. O filme passa diante dos olhos como fluxo contínuo de informação audiovisual sem densidade, sem textura emocional e sem verdadeiro senso de descoberta.
Longe de ser contra a ideia de mudança –Star Wars sempre mudou –, mas dá a sensação de que o encantamento foi substituído por uma lógica de manutenção permanente. Como se a franquia continuasse existindo não porque ainda possui histórias para contar, mas porque precisa continuar ocupando espaço. Um espaço tão tão distante e vazio.
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