A relação entre Bonnie e Clyde ultrapassou os registros históricos e se consolidou como um dos maiores arquétipos do “amor fora da lei” na cultura pop. Transformados em mito especialmente após o filme “Bonnie and Clyde” de 1967, o casal passou a representar não apenas criminalidade, mas rebeldia, paixão intensa e oposição às normas sociais. A romantização de sua trajetória criou uma narrativa sedutora de dois amantes contra o mundo, unidos até o fim trágico. Foi a partir daí que Maggie Gyllenhaal costurou a história de A Noiva!.
Em A Noiva!, a diretora não faz uma releitura modernizada de “A Noiva de Frankenstein”, ela cria uma colagem indisciplinada, quase punk, que atravessa literatura, cinema clássico, cultura de celebridades e o mito do amor criminoso. O longa começa num plano inesperado: quem narra a história é Mary Shelley, posicionada em uma espécie de plano astral, observando sua própria criatura ganhar novos contornos no século XX. Gyllenhaal brinca que esta é a versão “sem amarras” da autora – e isso se traduz numa perspectiva assumidamente feminista, não apenas na protagonista, mas nas engrenagens que movem a trama.
A história nos leva à Chicago dos anos 1930, onde um Frankenstein melancólico, vivido por Christian Bale, procura a cientista Dra. Euphronious, interpretada por Annette Bening, para criar uma companheira. O que nasce dessa união científica é a Noiva de Jessie Buckley, uma criatura que rapidamente escapa ao controle dos homens que a idealizaram. Há assassinatos, fugas, uma fagulha de movimento cultural radical e um romance fora da lei que remete tanto a Bonnie e Clyde quanto a arquétipos mais contemporâneos de paixão caótica.

Mas o que diferencia A Noiva! de outras revisitações do mito é seu diálogo com a transmídia. Desde o início, o filme reconhece que Frankenstein não pertence apenas à literatura – pertence ao cinema, à iconografia pop, ao teatro, às fantasias de Halloween, às citações publicitárias. Ao colocar Mary Shelley como narradora etérea, Gyllenhaal explicita que está mexendo em um legado que já foi remixado inúmeras vezes. O filme fala sobre reinterpretação enquanto se reinterpreta.
Esse jogo se intensifica quando o monstro demonstra fascínio pelo astro de cinema Ronnie Reed, interpretado por Jake Gyllenhaal. Reed é um galã típico da era de Ouro, mas carrega uma pequena deficiência: uma das pernas é ligeiramente menor que a outra. O detalhe, aparentemente banal, torna-se ponte simbólica entre ídolo e criatura. O monstro não se vê apenas na imagem projetada na tela, mas na imperfeição escondida sob o glamour. O cinema, aqui, funciona como um rastro: as salas de exibição tornam-se marcos da fuga do casal, e a própria arte cinematográfica vira trilha da jornada. A narrativa sugere que o amor deles também é feito de projeções – de como nos enxergamos nas telas e como queremos ser vistos.

Esteticamente, o filme flerta com o exagero. Há diálogos que parecem flutuar fora de órbita, cenas que abraçam o melodrama e uma montagem que, por vezes, soa abrupta, quase estranha. São muitos temas: feminismo, monstruosidade, cultura de massa, deficiência, violência estrutural, radicalização política, amor tóxico, emancipação e máfia. Em mãos menos ousadas, tudo poderia desmoronar. Aqui, curiosamente, a colagem funciona na maior parte do tempo – ainda que, em alguns momentos, resvale no cafona ou no ridículo. Mas talvez isso seja parte do projeto: um filme que abraça o excesso como linguagem.
A Noiva de Buckley é o centro gravitacional. Criminosa, indomável, espirituosa, ela se torna símbolo de uma radicalização feminina que evoca ecos de narrativas recentes sobre figuras à margem – aposto que haverá comparações do impacto cultural de “Coringa”, mas Gyllenhaal evita a mera citação. Sua protagonista não é produto de um colapso individual, e sim de uma estrutura que a quis submissa desde a concepção. Se o Frankenstein de Bale é retraído, quase infantil em sua solidão, ela é impulso e combustão. É ela quem decide, quem atira, quem beija primeiro, quem foge.
E não está sozinha. A Dra. Euphronious de Bening é cientista e arquiteta do impossível, mas também uma mulher que opera em um campo dominado por homens. Myrna Mallow, personagem de Penélope Cruz, surge a única investigadora que sabe o que está fazendo no caso de perseguição ao casal.. São personagens que não orbitam apenas a protagonista; elas constroem o tecido que sustenta a trama. Gyllenhaal parece interessada em mostrar que a monstruosidade não é exceção – é produto de uma sociedade que reprime, exclui e depois se assusta com o que criou.

Até por isso existe algo de poeticamente coerente no modo como o filme se estrutura: assim como o monstro é feito de pedaços de outros corpos, A Noiva! é feito de pedaços de outras linguagens. Literatura gótica, cinema clássico, estética de filmes de gângster, romance trágico shakespeariano, ensaio feminista. Cada parte poderia soar deslocada, mas a costura – ainda que visível – é assumida como cicatriz.
A Noiva! não pretende atualizar um clássico de James Whale com verniz moderno. Quer ser outra coisa: um filme com frescor, que encara o mito de frente e o atravessa com questões contemporâneas. Um filme que abraça o diferente, que transforma imperfeições em identidade e que entende o cinema como espaço físico e simbólico de resistência.
No fim, Noiva! é uma obra exagerada, às vezes cafona, ocasionalmente desajeitada – mas viva. Como a própria criatura, o filme respira por conta própria. E nos convida a olhar para aquilo que sempre chamamos de monstro e perguntar: quem costurou essa imagem? E por quê?
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