A relação entre Bonnie e Clyde ultrapassou os registros históricos e se consolidou como um dos maiores arquétipos do “amor fora da lei” na cultura pop. Transformados em mito especialmente após o filme “Bonnie and Clyde” de 1967, o casal passou a representar não apenas criminalidade, mas rebeldia, paixão intensa e oposição às normas sociais. A romantização de sua trajetória criou uma narrativa sedutora de dois amantes contra o mundo, unidos até o fim trágico. Foi a partir daí que Maggie Gyllenhaal costurou a história de A Noiva!.
No longa, a diretora opta por não faz uma releitura modernizada de “A Noiva de Frankenstein”, de 1935, ela cria uma colagem indisciplinada, quase punk, que atravessa literatura, cinema clássico, cultura de celebridades e o mito do amor criminoso.
O longa começa num plano inesperado, com Mary Shelley, posicionada em uma espécie de plano astral, observando sua própria criatura ganhar novos contornos no século XX. Gyllenhaal brinca que esta é a versão “sem amarras” da autora – e isso se traduz numa perspectiva assumidamente feminista, não apenas na protagonista, mas de todas as engrenagens que movem a trama.
A história nos leva a Chicago dos anos 1930, onde um Frankenstein (ou Frank) melancólico, vivido por Christian Bale, procura a cientista Dra. Euphronious, interpretada por Annette Bening, para criar uma companheira. O que nasce dessa união científica é a Noiva (ou Ida, seu nome antes de morrer) de Jessie Buckley, uma criatura que rapidamente escapa ao controle dos homens que a idealizaram. Há assassinatos, fugas, uma fagulha de movimento cultural radical e um romance fora da lei que remete tanto a Bonnie e Clyde quanto a arquétipos mais contemporâneos de paixão caótica como Coringa e Arlequina.

Mas o que diferencia A Noiva! de outras revisitações do mito é seu diálogo com a transmídia. Desde o início, o filme reconhece que Frankenstein não pertence apenas à literatura – pertence ao cinema, à iconografia pop, ao teatro, às fantasias de Halloween, às citações publicitárias. Ao colocar Mary Shelley como narradora etérea, Gyllenhaal explicita que está mexendo em um legado que já foi remixado inúmeras vezes. O filme fala sobre reinterpretação enquanto se reinterpreta.
Esse jogo se intensifica quando o monstro demonstra fascínio pelo astro de cinema Ronnie Reed, interpretado por Jake Gyllenhaal. Reed é um galã típico da era de Ouro, mas carrega uma pequena deficiência, uma das pernas é ligeiramente menor que a outra. O detalhe, aparentemente banal, torna-se ponte simbólica entre ídolo e criatura. O monstro não se vê apenas na imagem projetada na tela, mas na imperfeição escondida sob o glamour.
O cinema, aqui, também funciona como um rastro. As salas de exibição tornam-se marcas da fuga do casal, uma vez que Frank viaja os Estados Unidos (EUA) para assistir os filmes de seu ídolo. Para além de delimitar o caminho dos protagonistas e dos que os perseguem, essa é uma metáfora que a própria arte cinematográfica vira trilha da jornada. A narrativa sugere que o amor deles também é feito de projeções – de como nos enxergamos nas telas e como queremos ser vistos.

Esteticamente, o filme flerta com o exagero, mas nunca deixa de ser pop. Há diálogos que parecem flutuar fora de órbita, sobretudo da Noiva. Cenas que abraçam o melodrama e uma montagem que, por vezes, soa abrupta, quase estranha.
São muitos temas: feminismo, monstruosidade, cultura de massa, deficiência, violência estrutural, radicalização política, amor tóxico, emancipação e máfia. Em mãos menos habilidosas, tudo poderia desmoronar. Aqui, curiosamente, a colagem funciona na maior parte do tempo – ainda que, em alguns momentos, resvale no cafona ou no ridículo. Mas talvez isso seja parte do projeto, um filme que abraça o excesso como linguagem.
Jessie Buckley é o centro gravitacional de A Noiva! – e a escolha do verbo não é acidental. Sua presença não apenas ancora as imagens; ela as distorce ao redor de si, criando um campo de força do qual nenhum outro elemento consegue escapar. Indomável, espirituosa, sua Ida se torna símbolo de uma radicalização feminina que inevitavelmente evocará ecos de narrativas recentes sobre figuras à margem – é fácil antecipar as comparações com o impacto cultural de “Coringa”, mas Gyllenhaal opera em outra chave, evitando a mera citação ou o estudo de caso clínico. Sua protagonista não é produto de um colapso individual gestado no isolamento, e sim de uma estrutura que a quis submissa desde o momento de sua concepção, uma engenharia social que a destinava ao silêncio e à obediência.
Se o Frank de Christian Bale é retraído, quase infantil em sua solidão de homem que nunca aprendeu a habitar o próprio corpo, ela é impulso puro e combustão que não pede permissão para existir. É ela quem decide o rumo da fuga, quem atira quando a mira se apresenta, quem beija primeiro como quem reivindica o próprio desejo, quem mata para viver mais um minuto sobre a terra. A dinâmica entre os dois evoca a eletricidade destrutiva de “Sid e Nancy”, mas Gyllenhaal filma esse amor com uma luz e uma cor próprias – há violência, mas há também uma ternura desajeitada que impede a rendição completa ao trágico como destino inescapável.
Ela não está sozinha nessa órbita. A Dra. Euphronious de Bening é cientista e arquiteta do impossível, mas também uma mulher que opera em um campo dominado por homens, que precisa negociar com o establishment cada descoberta, cada passo em direção ao desconhecido. Sua presença no filme não é funcional – ela carrega a complexidade de quem construiu uma carreira inteira à margem do reconhecimento pleno.
Myrna Mallow, personagem de Penélope Cruz, surge como a única investigadora que efetivamente sabe o que está fazendo no caso de perseguição ao casal, contrastando com a incompetência ou a violência gratuita dos homens ao seu redor. São personagens que não orbitam passivamente ao redor da protagonista – elas constroem, com suas escolhas e seus saberes, o tecido que sustenta a trama, criando uma rede de inteligência feminina que atravessa classes, épocas e ofícios.

Até por isso existe algo de poeticamente coerente no modo como o filme se estrutura. Assim como o monstro é feito de pedaços de outros corpos, A Noiva! é feito de pedaços de outras linguagens. Literatura gótica, cinema clássico, estética de filmes de gângster, romance trágico shakespeariano, ensaio feminista. Cada parte poderia soar deslocada, mas a costura – ainda que visível – é assumida como cicatriz.
Gyllenhaal está interessada em mostrar que a monstruosidade não é exceção – é produto de uma sociedade que reprime, que exclui, que empurra para as bordas tudo o que não cabe em seus gabaritos, e depois se assusta com o que criou, com o reflexo deformado de sua própria violência.
Há uma generosidade radical em seu olhar para essas figuras: ela não as julga, não as patologiza, não as reduz a sintomas. Ao contrário, ela as habita com eles, filma seus comportamentos erráticos com amor evidente, encontrando beleza justamente no que há de mais desajustado, de mais fora do convencional. É essa entrega incondicional aos seus personagens que permite que A Noiva! exista como um filme de estúdio que parece ter sido feito contra tudo e todos – inclusive contra si mesmo.
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