Shakespeare era uma mulher negra e judia, afirma nova biografia
Colagem: Black History

Shakespeare era uma mulher negra e judia, afirma nova biografia

Pesquisadora da LSE aponta poetisa elisabetana como verdadeira autora da obra do dramaturgo

Pesquisadora da LSE aponta poetisa elisabetana como verdadeira autora da obra do dramaturgo

Uma publicação lançada no final de janeiro reacende a “questão da autoria” shakespeariana com uma tese radical: o William Shakespeare consagrado pela história seria, na verdade, um pseudônimo masculino adotado por Emilia Bassano, uma poetisa inglesa de pele escura, origem judaica e descendência marroquina que viveu na corte da rainha Elizabeth I.

No livro “The Real Shakespeare: Emilia Bassano Willoughby”, a historiadora feminista Irene Coslet, graduada pela London School of Economics (LSE), argumenta que a figura tradicional de “um homem branco de Stratford” é um mito construído por uma narrativa histórica patriarcal e eurocêntrica. Para Coslet, Emilia – filha de músicos venezianos e uma das primeiras mulheres a publicar um volume de poemas na Inglaterra, “Salve Deus Rex Judaeorum” – teria sido silenciada por viver em uma sociedade que impedia mulheres de escrever para os palcos.

A pesquisadora baseia sua conclusão em documentos históricos frequentemente negligenciados e em análises contextuais. Ela destaca que Emilia era amante de Henry Carey, patrono da companhia teatral The Lord Chamberlain‘s Men, à qual Shakespeare era ligado. “Nenhum historiador conseguiu demonstrar como o homem de Stratford, conhecido como prestamista semierudito, alcançou tamanha sofisticação literária”, afirmou Coslet ao jornal The Telegraph. Em contraponto, a poetisa tinha acesso a línguas, clássicos e conhecimentos jurídicos que permeiam a obra atribuída ao Bardo.

A obra, no entanto, não se limita ao debate de autoria. Coslet propõe uma recolocação de Emilia no contexto das lutas femininas da era elisabetana, explorando sua relação com a rainha Elizabeth I para defender que o feminismo já era uma força ativa naquele período.

A tese de que “Shakespeare era uma mulher” não é inédita – foi proposta inicialmente pelo estudioso John Hudson em 2013. A novidade fica por conta da abordagem de Coslet, que aplica teorias como o conceito de Autor-função, do filósofo Michel Foucault, e a noção de Subalterno, de Gayatri Spivak, para argumentar que recuperar a identidade de Emilia significa reescrever não apenas a história literária, mas também a formação da identidade cultural do mundo anglófono.

Apesar da ousadia da hipótese, a academia reage com ceticismo. Kathleen McLuskie, diretora do Shakespeare Institute da Universidade de Birmingham, classificou as evidências como “inteiramente circunstanciais”, lembrando que nenhum contemporâneo do dramaturgo colocou sua autoria em dúvida e que o poeta Ben Jonson o celebrou como um “gênio para todos os tempos”. Coslet admite não possuir prova direta do plágio, mas sustenta ser “razoável supor” que Shakespeare se apropriou dos textos de Bassano.

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