Após um período se dedicando intensivamente a alcançar o mercado pop internacional, com trabalhos repletos de estratégias comerciais, porém sem identidade, Anitta deu uma guinada artística na carreira e vem apresentando propostas interessantes, como é o caso do álbum “Funk Generation” (2024). Agora, a cantora vai além e apresenta “Equilibrivm”, disco em que a religiosidade serve como ponte que interliga pop, funk, sons e elementos da cultura afro-brasileira.
Não é à toa que nas redes sociais a obra recebeu o apelido de “Anitta Racional”, referência aos discos da breve, porém intensa, fase religiosa de Tim Maia. Aqui, a carioca canta sobre suas experiências no candomblé e parte desta perspectiva para trazer atabaques, samba de roda e outros elementos da musicalidade das religiões de matriz africana para o seu pop.

Ao longo das 15 faixas, essas diferentes referências vão se desenrolando com muita fluidez e ainda encontram referências da MPB e do pop latino. O resultado é uma obra na qual a cantora parece mais certa do que nunca do que quer. A identidade artística que fazia falta antes, aqui aparece bem resolvida. De fato, parece que a cantora está em busca de um equilíbrio entre o sucesso comercial e suas ambições artísticas.
O álbum abre com “Desgraça”, faixa em que a cantora já deixa claro que a artista pretende trafegar por diferentes caminhos. A faixa é descrita como um chorinho em homenagem a Carmen Miranda e ao mesmo tempo também traz referências à pomba gira, entidade cultuada no candomblé e na umbanda.
A partir daí, Anitta vai apresentando uma série de parcerias com nomes importantes do cenário atual da música brasileira. Cada uma bem alinhada com a proposta do álbum, com uma mescla entre o universo do convidado e o seu. “Mandinga” é um excelente dueto com Marina Sena que conta com sample e interpolação de “Canto de Ossanha”, de Vinicius de Moraes e Baden Powell.
“Caminhador” traz Liniker no afrobeat; “Bemba” apresenta a veia mais pop de Luedji Luna; “Ternura” traz os vocais impecáveis de Melly; “Caso de Amor” mistura referências da MPB com o R&B do trio Os Garotins; “Vai Dar Caô” traz o flow inconfundível de Ebony e a produção de Papatinho; e “Choka Choka” leva Shakira para o funk, cantando em português.
Os pontos altos do disco estão nas faixas nas quais a artista combina o funk com pontos de macumba e sobe um degrau a mais na experimentação. É o caso de “Nanã”, faixa que tem como base “Cordeiro de Nanã”, dos Tincoãs, e que ganha peso com os versos de Rincon Sapiência; e “Meia Noite”, um dos momentos mais frenéticos, e também mais empolgantes de “Equilibrivm”.
Curiosamente, a única derrapada do álbum está na sequência de faixas voltadas para o público internacional. A versão em espanhol de “Várias Queixas”, do Olodum, que não se distancia do que já foi apresentado pelos Gilsons; a esquecível “So Munch Love” e “Pinterest”, versão em espanhol do single lançado originalmente em português e que também pouco acrescenta à obra.
“Equilibrivm” é o melhor disco de Anitta até aqui. Após período de oscilações, a cantora acha na espiritualidade o caminho para se reencontrar musicalmente como artista no pop e apresentar uma obra que ganha peso e profundidade com as referências das raízes da música brasileira, e aponta para direções interessantes a serem seguidas.
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