Crítica | Em 'Natal Amargo' Almodóvar percebe que talvez ele seja o tio que conta a piada do pavê
Warner Bros./Divulgação

Crítica | Em ‘Natal Amargo’ Almodóvar percebe que talvez ele seja o tio que conta a piada do pavê

Uma das figuras mais lembradas do Natal é o tio do pavê. Ele surge pontualmente nas festas de fim de ano, repete a mesma piada, recebe as mesmas reações e, ainda assim, retorna no dezembro seguinte convencido de que existe algum valor naquele ritual. Talvez exista mesmo. Afinal, a repetição não é necessariamente um defeito. Às vezes, ela é tradição; em outras, linguagem. Em certos casos, torna-se até identidade. O curioso é que Pedro Almodóvar parece partir exatamente dessa provocação em Natal Amargo. O que acontece quando alguém percebe que está se transformando no tio da própria piada?

A analogia pode soar injusta à primeira vista. O cineasta espanhol construiu uma das filmografias mais reconhecíveis do cinema contemporâneo, com cores vibrantes, personagens atravessados pelo desejo, diálogos que oscilam entre a confissão e o melodrama e uma capacidade singular de transformar dor em espetáculo emocional. Ainda assim, o centro nervoso de Natal Amargo parece ser justamente a suspeita de que o artista corre o risco de se tornar refém daquilo que o consagrou.

Crítica | Em 'Natal Amargo' Almodóvar percebe que talvez ele seja o tio que conta a piada do pavê
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O filme chega alguns anos depois de “Dor e Glória”, obra em que Almodóvar havia realizado uma espécie de autoanálise cinematográfica. Agora, o movimento é diferente. Em vez de olhar diretamente para si, ele cria um espelho. Raúl Rossetti, interpretado por Leonardo Sbaraglia, é um diretor que carrega o peso da própria trajetória. Está afastado das filmagens há anos, recusa homenagens e demonstra um desconforto evidente diante da possibilidade de viver apenas da memória de seus sucessos. O reconhecimento, para ele, parece menos uma celebração do que uma sentença.

Essa crise criativa é apresentada através de uma estrutura que opera em múltiplos níveis. Existe a história de Elsa, vivida por Bárbara Lennie, uma cineasta que abandonou os longas-metragens para trabalhar na publicidade e que tenta reencontrar um caminho artístico após a morte da mãe. Existe a história de Raúl escrevendo essa narrativa. E existe ainda uma terceira camada, mais difícil de delimitar, em que a própria figura de Almodóvar parece infiltrar-se em cada decisão dramática.

Voltamos ao pavê, pelo menos em suas camadas. Uma delas repousa sobre a outra até que o espectador já não sabe exatamente onde termina a ficção e onde começa a confissão. O filme dentro do filme, o diretor dentro do diretor, o trauma transformado em matéria-prima criativa. Tudo parece organizado para discutir o processo artístico, mas também para questionar a legitimidade desse processo.

O aspecto mais intrigante da experiência esteja justamente na transformação gradual da narrativa. Os primeiros movimentos são surpreendentemente confortáveis. O cineasta opera num território que conhece profundamente. A direção exibe segurança absoluta. A fotografia encontra beleza nos ambientes urbanos de Madri e posteriormente nas paisagens vulcânicas de Lanzarote. Os diálogos carregam aquele ritmo tão característico do diretor espanhol, em que informações íntimas surgem de maneira aparentemente casual.

A trilha sonora, as referências constantes à própria filmografia e até mesmo a presença de figuras historicamente associadas ao universo do diretor reforçam essa dimensão autorreflexiva. O filme olha para trás sem assumir uma postura nostálgica. Observa sua herança, mas também parece desconfiar dela.

Em Lanzarote, onde a paisagem vulcânica domina a imagem, essa sensação encontra sua expressão visual mais poderosa. O trabalho de fotografia transforma a geografia da ilha em um estado emocional. As áreas de areia negra e os contrastes cromáticos típicos do cinema de Almodóvar sugerem que a beleza continua ali, intacta, mesmo quando a inspiração parece ameaçada.

Crítica | Em 'Natal Amargo' Almodóvar percebe que talvez ele seja o tio que conta a piada do pavê
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A sensação inicial é a de estar diante de mais um filme de Almodóvar. E isso não é uma crítica nem um elogio automático. É um reconhecimento de estilo. Da mesma forma que ninguém se surpreende ao ouvir certos acordes de um músico veterano, o espectador identifica rapidamente os códigos do cineasta. Só que algo muda quando Raúl começa a interferir no próprio roteiro.

A partir desse momento, Natal Amargo adquire uma estranha resistência. As peças deixam de se encaixar com a mesma fluidez. Determinadas passagens parecem perder impulso. Alguns personagens surgem e desaparecem sem desenvolver plenamente sua função dramática. A narrativa passa a flertar com um certo esgotamento. A questão interessante é que esse enfraquecimento talvez não seja um acidente.

Existe a possibilidade de que Almodóvar esteja encenando o bloqueio criativo de seu protagonista através da própria estrutura do filme. Como se a obra absorvesse deliberadamente as limitações do artista que retrata. Como se a perda de inspiração contaminasse a experiência narrativa. É uma operação arriscada. E também bastante provocadora.

Crítica | Em 'Natal Amargo' Almodóvar percebe que talvez ele seja o tio que conta a piada do pavê
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Porque, nesse cenário, surge uma pergunta inevitável: estamos diante de um filme que perde força ou de um filme que representa a perda de força?

A dúvida ganha ainda mais peso na reta final, quando Raúl finalmente confronta a origem de suas inspirações. O personagem percebe que talvez tenha se aproximado demais da vida dos outros. Que talvez tenha transformado dores alheias em combustível artístico sem realmente encontrar algo novo para dizer. O gesto é brutal porque atinge diretamente uma questão antiga da arte: até que ponto criar significa apropriar-se da experiência dos outros?

A resposta permanece em aberto. E é justamente aí que reside o aspecto mais canalha – no melhor sentido possível – da proposta.

Ao longo de toda a projeção, o espectador é levado a acreditar que caminha em direção a uma revelação. Que existe uma obra-prima escondida dentro daquela engrenagem narrativa. Que o filme de Raúl acabará encontrando sua forma definitiva. Quando a conclusão chega, porém, o que emerge não é a consagração da inspiração, mas a suspeita de que ela talvez nunca tenha existido da maneira imaginada.

Crítica | Em 'Natal Amargo' Almodóvar percebe que talvez ele seja o tio que conta a piada do pavê
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Essa recusa em entregar uma resolução plenamente satisfatória produz um efeito curioso. O verdadeiro filme parece permanecer fora da tela. Como uma promessa. Como uma possibilidade. Como um projeto que ainda será realizado.

É impossível não enxergar aí uma provocação do próprio Almodóvar. Uma espécie de diálogo indireto com sua trajetória. Um artista que, aos 76 anos, continua revisitando seus temas, seus fantasmas e seus mecanismos criativos parece perguntar se ainda é possível surpreender quando todos já conhecem seus truques.

Essa é a grande discussão levantada por Natal Amargo. Não exatamente sobre a criatividade, mas sobre a consciência da repetição. Sobre o momento em que um artista percebe que conhece tão bem seus próprios caminhos que passa a desconfiar deles. Sobre o instante em que o tio do pavê finalmente escuta a própria piada e se pergunta se ainda existe algo novo para descobrir dentro dela.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.