Toda odisseia pressupõe um desvio de rota – um afastamento temporário do território conhecido antes do retorno inevitável ao lar. Nessa mesma lógica narrativa que rege a mais recente empreitada de Christopher Nolan: o cineasta se permite, aqui, um desvio dentro da própria carreira, abandonando por quase três horas a sisudez que sempre marcou seu cinema, sem contudo se entregar de corpo inteiro ao melodrama. Nasce daí A Odisseia, seu melhor filme, um épico que dialoga abertamente com as superproduções bíblicas dos anos 1950 e 1960, mas que carrega, para o bem e para o mal, as digitais de seu autor.
A trama acompanha o retorno do guerreiro grego Odisseu (Matt Damon) para casa após o fim da Guerra de Troia. Na travessia de volta a Ítaca, o herói esbarra em criaturas e divindades que testam sua astúcia e sua resistência: o Ciclope, as sereias de canto hipnótico e a feiticeira Circe estão entre as figuras que povoam o poema atribuído a Homero e que aqui ganham corpo, voz e ameaça. Em casa, sua esposa Penélope (Anne Hathaway) resiste aos pretendentes e aguarda, com uma paciência que beira o mito, a volta do marido.

É curioso notar como o filme se apoia na grandiloquência sem necessariamente descambar para o sentimentalismo. A fotografia, generosa com planos abertos que insistem em diminuir a figura humana diante do mar, do céu e das ruínas, remete a produções como “Ben-Hur” – ainda que, aqui, o exercício pareça menos interessado em pregar uma lição moral e mais preocupado em recriar a sensação de contemplar algo maior do que o humano. É um épico de escala, não de sermão. O roteiro, por sua vez, opta por preservar boa parte da estrutura fragmentada do poema original, capítulo a capítulo, em vez de costurar uma linha reta e previsível entre o passado de guerra e o presente da travessia.
O elenco, estrelado a ponto de beirar o excesso, poderia facilmente comprometer a condução da narrativa – e, ainda assim, isso não chega a acontecer de maneira grave. Algumas presenças soam como cameo, participações que existem mais pelo peso do nome na marquise do que pela função dramática, mas nada que desestabilize o conjunto. A opção por rostos conhecidos, em vez de fragmentar a atenção do espectador, acaba reforçando o caráter coral dessa travessia, como se cada parada de Odisseu exigisse um rosto à altura do mito que ele está prestes a enfrentar.

Por falar em Odisseu, o trabalho de condução do personagem de Matt Damon, seja quando ele está em tela ou não, é primoroso. Você pode gostar ou não do personagem, mas o filme constrói de forma grandiosa essa figura humana, que aos poucos vai se tornando mitológica. O elenco estrelado é um suporte de luxo para o trabalho de Damon.
Se há um ponto de atrito, ele mora na montagem. As idas e vindas entre o presente da jornada e os episódios que a compõem, por vezes em forma de flashback, ora agilizam o relato, ora o interrompem, quebrando um ritmo que se pretendia contínuo. O efeito é quase episódico, como se cada provação de Odisseu fosse um capítulo autônomo dentro do martírio maior – o que talvez seja, inclusive, fiel ao espírito fragmentado do texto original, ainda que nem sempre funcione a favor da fluidez da experiência como um todo.

O aspecto mais interessante da direção, contudo, revela-se numa espécie de exercício de humildade. Nolan não abre mão do fascínio pelo maquinário – aqui, bem-vindo – nem do compromisso com um certo realismo que sempre perseguiu, mesmo diante do fantástico mais evidente. Mas o fantástico que ele constrói se aproxima, surpreendentemente, do conto de horror: sombras, criaturas fora de quadro, um senso de ameaça que não costuma habitar seus filmes anteriores. O arco do Ciclope é o exemplo mais evidente dessa aproximação, quase um curta de terror encaixado dentro do épico – e é a partir dele, aliás, que o filme parece encontrar sua identidade, como se o diretor só se sentisse plenamente confortável diante do mito quando ele ganha contornos de pesadelo.
Chama atenção, por outro lado, que o elemento mais marcante da direção esteja, em boa medida, fora das mãos do próprio diretor. Refiro-me à trilha sonora de Ludwig Göransson, que repete a parceria com o cineasta depois do Oscar conquistado por “Oppenheimer”.
O compositor volta a demonstrar enorme capacidade de compreender os interesses do diretor sem simplesmente repetir fórmulas anteriores. Sua música não busca apenas engrandecer imagens já grandiosas. Em muitos momentos, ela oferece justamente a dimensão espiritual que a encenação evita explicitar. Existe um trabalho sofisticado entre silêncio, percussão e temas melódicos que acompanha as transformações internas do protagonista muito mais do que seus deslocamentos geográficos.
As cenas de ação seguem uma lógica de escala quase inversa: funcionam bem quando o confronto é contido, mas tropeçam diante da grandeza que a própria narrativa insiste em convocar. A preparação para a invasão de Troia pelo cavalo, por exemplo, é construída com tensão crescente e um domínio nítido do suspense, quase como um exercício de precisão. Quando a batalha finalmente eclode, no entanto, Nolan repete uma inabilidade já conhecida de seu cinema – a dificuldade em traduzir escala visual em impacto emocional, problema que ecoa desde os confrontos de “O Cavaleiro das Trevas Resssurge”. Ele não é novo, mas incomoda mais aqui, justamente porque o filme multiplica essas grandes batalhas e cobra delas o peso dramático que o resto da narrativa constrói com paciência.

A tensão entre controle e entrega fez de A Odisseia um capítulo tão particular dentro da filmografia de Nolan. Seu cinema continua reconhecível, mas já não parece completamente satisfeito em explicar tudo. O rigor permanece presente, embora agora aceite conviver com forças que desafiam qualquer engenharia narrativa. O resultado não elimina as marcas autorais do diretor nem dissolve suas limitações. Ao contrário, torna ambas mais visíveis. Em meio a seres gigantes, deuses e mares intermináveis, o cineasta parece descobrir que o mito exige menos respostas do que disposição para atravessar perguntas antigas que continuam ecoando sempre que alguém decide contar, mais uma vez, a história de um homem tentando encontrar o caminho de volta para casa.
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