Madonna chegava em 2005 atravessando um dos momentos mais delicados da sua carreira. Seu último álbum, “American Life” (2003) havia sido um fracasso de vendas, preço pago por a artista tocar o dedo na ferida ainda aberta nos Estados Unidos da guerra ao terror que vinha sendo promovida pelo presidente George W. Bush. A saída encontrada pela rainha do pop foi se jogar nas pistas de dança com “Confessions on a Dancefloor” (2005) disco que a recolocou em evidência e se tornou o seu ponto alto da década. Agora, em 2026, novamente vinda de um período conturbado e revisando a própria vida, a cantora recorre novamente à dance music em “Confessions II”, seu mais novo disco.

Apesar de retornar ao conceito da obra que marcou sua carreira no início deste século, Madonna escapa completamente da repetição. Confessions II é uma sequência no sentido mais vanguardista da palavra. Ao longo de 16 faixas produzidas novamente ao lado de Stuart Price, produtor do álbum de 2005, a artista aprofunda o conceito de fazer confissões na pista de dança e se mostra completamente conectada ao presente, ao mesmo tempo em que usa autorreferências de uma maneira inteligente.
Madonna vem de uma fase intensa após a turnê que celebrou os seus 40 anos de carreira, com direito ao encerramento apoteótico em Copacabana, em 2024; além de uma tentativa frustrada de produzir sua própria cinebiografia, que acabou virando um projeto de uma série que ainda está para ser desenvolvida; perder amigos e entes queridos e se ver ela própria entre a vida e a morte após uma infecção bacteriana que a atingiu em 2023.
Tudo isso serviu de combustível para a estrela conceber este novo álbum. Aos 67 anos, Madonna se recusa se restringir ao lugar que é esperado de uma mulher 60+ e parece ter redescoberto o que ela sabe fazer de melhor: apontar tendências e ser o referencial a ser alcançado. Tudo em Confessions II soa altamente moderno, instigante, criativo e ousado. As referências da disco music dos anos 1970, marca do primeiro volume, dão lugar ao house e elementos da música eletrônica dos anos 1990 e 2000, que funcionam como base para a cantora refletir sobre a vida e seu próprio legado.
“I Feel So Free” primeiro single revelado, é também a faixa de abertura e funciona como um portal que te transporta para a pista de dança e vai mergulhando na atmosfera do disco. Em seguida, a cantora vai refletindo sobre como a música e a dança são importantes na sua vida. “As pessoas pensam que a música dançante é superficial. Mas entenderam tudo errado. A pista de dança não é apenas um lugar. É uma fronteira. Um espaço ritualístico onde o movimento substitui a linguagem”, recita ela na introdução de “One Step Away”.
“Bring Your Love”, encontro de Madonna com Sabrina Carpenter ganha novas camadas em meio as excelentes transições do álbum que foi todo concebido em non-stop, ou seja, uma música dá sequência a outra sem intervalos, como num set de DJ. “Danceteria” é um dos grandes momentos da obra. Aqui a cantora volta à boate onde deu início a sua carreira, em Nova York, no início dos anos 1980 e que era um dos pontos de efervescência cultural da cena underground da época, com passagem de nomes como Jean-Michel Basquiat e Keith Haring. O ambiente é descrito conforme as memórias da cantora e desaguam em um refrão apoteótico.
Em “Read My Lips” Madonna flerta com ritmos latinos e faz uma experimentação que lembra o que foi proposto em Madame X (2019), só que aqui mais azeitada e bem resolvida. A partir de “Bizarre” o álbum entra em seu momento mais confessional. Na faixa, a estrela norte-americana parece relembrar o seu conturbado primeiro casamento, com o ator Sean Pean. “School” é um dos momentos mais experimentais da obra.
“Fragile” é um dos momentos mais sensíveis do disco. Aqui Madonna faz uma homenagem a seu irmão, Chirstopher Ciccone (1960-2024) “My Sins are My Savior” traz ecos da atmosfera do “Erótica” (1992), além da ótima participação do francês Stromae. “The Test” traz o encontro da artista com sua filha, Lola Leon, em uma bela reflxão sobre maternidade e a relação entre as duas. “L.E.S Girl” encerra com uma quase balada que funciona como uma síntese de tudo o que foi apresentado.
Confessions II é o melhor álbum de Madonna em mais de 20 anos, e em muitos aspectos supera o primeiro Confessions on a Dancefloor. Aqui artista mostra que ainda tem muita fome de criar, de quebrar expectativas, olhar para a frente e jogar luz para o novo. Aos 67 anos, ela segue sendo um farol para as novas gerações e ainda muito mais ousada e destemida do que qualquer outro nome no pop. Madonna segue soberana no trono de rainha do pop e alcançando novos auges, quando ninguém espera.
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