Crítica | Em 'Apenas Coisas Boas' toda promessa de felicidade carrega um prazo de validade
Rensga Filmes/Divulgação

Crítica | Em ‘Apenas Coisas Boas’ toda promessa de felicidade carrega um prazo de validade

Toda promessa carrega prazo de validade, e o título do novo longa de Daniel Nolasco, Apenas Coisas Boas, merecia vir acompanhado de um asterisco: até quando? Nos primeiros minutos, a resposta parece evidente – ali, tudo convida à contemplação. Um homem atravessa de moto as estradas empoeiradas de Goiás, óculos escuros escondendo o olhar, jaqueta de couro grossa desafiando o sol impiedoso do cerrado. A imagem avisa que aquele mundo não obedece à lógica do clima, e sim à do desejo. Trata-se, possivelmente, de uma das aberturas mais vibrantes do cinema brasileiro recente, erguida quase inteiramente pela sugestão visual, sem que uma linha de diálogo precise confirmar o óbvio. Fica a dúvida, contudo, se tamanha inventividade resiste ao restante da jornada – ou se, como sugere o próprio título, algumas coisas boas têm hora certa de acabar.

Conhecemos Marcelo, papel de Liev Carlos, motoqueiro errante cujo caminho cruza o do fazendeiro Antônio (Lucas Drummond). Entre postos de gasolina, lojas de conveniência e propriedades isoladas, os dois se aproximam, se desejam, enfrentam rivais violentos e encontram um jeito de permanecer juntos – tudo isso condensado num primeiro terço de metragem que, em outra produção, ocuparia o roteiro inteiro. É basicamente ali que boa parte dos romances de cinema colocaria seu ponto final. A narrativa, porém, segue adiante, salta no tempo e troca parte do elenco – Antônio passa a ser interpretado por Fernando Libonati –, inaugurando uma segunda metade tomada por mistérios domésticos, pela presença de uma governanta intrometida (Renata Carvalho) e por um cão cego que carrega mais dramaticidade do que muitos diálogos do filme.

Crítica | Em 'Apenas Coisas Boas' toda promessa de felicidade carrega um prazo de validade
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Situar Apenas Coisas Boas em coordenadas realistas seria um equívoco de leitura. Não se trata do Brasil documental, tampouco de uma transposição literal do imaginário americano de virilidade – é um terceiro território. As camisas coladas ao corpo de Antônio, o couro fora de estação de Marcelo, os cartazes homoeróticos pendurados em lojas de beira de estrada, o sangue de textura quase pictórica numa perseguição, o arco-íris que insiste em colorir o fundo do quadro. Cada elemento se entrega abertamente à composição de arquétipos – o motoqueiro, o caubói, o caminhoneiro. Nas mãos de um diretor menos preciso, o resultado poderia beirar a paródia, algo próximo da estética pop do Village People. Aqui, a citação soa menos como colagem do que como vocabulário, um léxico visual que Nolasco já vinha lapidando desde “Vento Seco” e “O Cavalo de Pedro”, sem nunca se limitar à mera referência.

Crítica | Em 'Apenas Coisas Boas' toda promessa de felicidade carrega um prazo de validade
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Esse universo à parte dispensa as obrigações do mundo real. Mesmo gravemente ferido, ninguém cogita conduzir Marcelo a um hospital; ainda que ocorram mortes brutais, nenhuma viatura policial cruza o quadro; leite e queijo saem da propriedade de Antônio rumo a compradores que jamais vemos. A ausência dessas burocracias não soa como descuido de roteiro, e sim como escolha deliberada, o que interessa ao diretor é o acerto de contas afetivo entre os personagens, não a verossimilhança cotidiana. Um beijo, uma lambida sobre um ferimento aberto, um banho compartilhado carregam mais peso dramático do que qualquer explicação lógica sobre como aqueles homens sobrevivem no mundo.

A fotografia de Larry Machado, aliás, talvez seja o elemento mais consistente da obra do início ao fim. Os zooms lentos, quase obsessivos, funcionam como gesto de aproximação. A câmera deseja entrar na cena tanto quanto os personagens desejam uns aos outros. Raro é encontrar, no cinema brasileiro atual, um uso tão assumido e elegante desse recurso, normalmente relegado a citações irônicas ou produções de orçamento reduzido. Somam-se a isso composições simétricas, quase arquitetônicas, nas quais o espaço vazio ocupa tanto quadro quanto os corpos – recurso que comunica solidão e imobilidade sem precisar de uma só fala.

Crítica | Em 'Apenas Coisas Boas' toda promessa de felicidade carrega um prazo de validade
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Mas é na segunda metade do longa que a experiência se transforma. Trocado o cenário e avançada a cronologia, o romance idealizado dá lugar a um enredo quase policial, pontuado por arranhões suspeitos em portas, taças com manchas indecifráveis e a dúvida recorrente sobre a identidade real de um parceiro. Entre o humor da empregada inconveniente e a sedução de um assistente musculoso, o tom nunca se define por completo, hesitando entre mistério, drama e ironia. O ponto mais delicado mora exatamente aí: por mais que a fotografia permaneça precisa e os corpos continuem centrais, a trama parece perder o fio que unia afeto e enredo na primeira parte. O que antes era transparente – desejo, ciúme, violência – torna-se nebuloso, nem sempre de maneira produtiva.

Por trás dos elementos de suspense, ecoa uma ideia quase clássica, digna de “Romeu e Julieta”: a morte eterniza o amor, enquanto a vida cotidiana o desgasta. É uma leitura sedutora, romântica até, que convive mal, porém, com o acúmulo de reviravoltas de impacto moderado que povoam o terceiro ato.

Crítica | Em 'Apenas Coisas Boas' toda promessa de felicidade carrega um prazo de validade
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Comparado ao restante da filmografia do diretor, Apenas Coisas Boas talvez represente seu projeto mais metafísico até aqui. Se em Vento Seco o fetiche em couro ocupava literalmente o quadro, e em O Cavalo de Pedro a história nacional ganhava corpo e pele, aqui Nolasco aposta em evocar, por meio de uma mensagem de voz ou de um gesto fora de campo, acontecimentos que se recusa a mostrar diretamente. A trilha sonora, discreta durante boa parte da projeção, ganha protagonismo justamente nesses instantes em que a imagem cede lugar à sugestão – um deslocamento sutil em relação a um cinema queer brasileiro historicamente ancorado na materialidade explícita dos corpos.

Fica em aberto se essa aposta consolida Nolasco como voz mais confiante do que se convencionou chamar de nova safra do cinema queer brasileiro, ou se a ruptura estrutural de Apenas Coisas Boas compromete parte da força emocional conquistada logo na largada. A resposta dependa de quanto o espectador está disposto a trocar certeza por mistério – e de quanto, depois de testemunhar tanta beleza nos primeiros quarenta minutos, ainda resta fôlego para atravessar o restante da travessia.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.