A ferrugem tem uma função na natureza dos objetos: ela avisa que o tempo passou, que o uso deixou marca, que nada resiste incólume à repetição. É curioso, então, que uma franquia erguida sobre bonecos de plástico e miniaturas de cowboys e astronautas pareça, filme após filme, resistir justamente a esse desgaste que rege tudo o que é feito de matéria e de história. Toy Story 5 chega com a incumbência simbólica de sustentar essa contradição. Falar sobre o gasto das coisas – dos brinquedos, das infâncias, dos vínculos – sem deixar que o próprio projeto se mostre gasto. E, ainda que o roteiro se arrisque em terrenos já bastante pisados pela saga, o resultado escapa, ao menos em parte, do destino mofado que se temia.
A trama acompanha os brinquedos que sobraram na vida de Bonnie, agora uma garota cercada por telas, dispositivos e uma rotina cada vez mais mediada pela tecnologia. Um novo elemento tecnológico surge no quarto da menina e ameaça o espaço afetivo que os bonecos tradicionais ainda tentam ocupar, forçando Jessie a – finalmente! – assumir um protagonismo que parecia ser questão de tempo dado seu potencial nos capítulos anteriores da saga. É a partir desse triângulo – o brinquedo antigo, o objeto novo e a criança que cresce entre os dois – que o filme tenta articular sua reflexão sobre pertencimento, obsolescência e a angústia de quem vê seu lugar ser disputado por algo mais atual.

Essa é, aliás, a fresta mais interessante da obra. Usar o enredo dos brinquedos ultrapassados como metáfora não tão sutil do próprio lugar da franquia dentro do imaginário do público. Chama atenção que uma saga que já soma cinco capítulos escolha justamente discutir o momento em que algo perde a validade, o instante em que o “novo” ameaça apagar o “velho” – como se a Pixar, em algum nível, estivesse dialogando com as próprias plateias que se perguntam se ainda há motivo para essa história continuar.
Do ponto de vista da direção, de Andrew Stanton – um dos nomes mais experientes da Pixar –, há um cuidado em orquestrar cenas de brincadeira que reencontram o fôlego lúdico da franquia, com sequências que resgatam o prazer quase coreográfico de ver os bonecos em movimento – um dos poucos territórios em que a saga ainda parece ter fôlego renovado. A fotografia digital, por sua vez, segue impressionando tecnicamente, ainda que num cenário de animação contemporânea tão plural e experimental, o virtuosismo do hiper-realismo já não cause o mesmo espanto de outrora.
A iluminação quase tátil, fazendo do plástico envelhecido, dos tecidos desgastados e das superfícies riscadas elementos carregados de textura e memória. Existe uma beleza em observar brinquedos marcados pelo uso sem que a animação tente mascarar sua idade. O virtuosismo técnico deixa de funcionar como espetáculo isolado e passa a reforçar precisamente o tema central do filme: o tempo deixa marcas.

A trilha sonora compreende bem essa atmosfera. Em vez de recorrer apenas ao peso da nostalgia, prefere acompanhar os estados emocionais dos personagens com discrição, permitindo que pequenos silêncios carreguem parte da carga afetiva da narrativa. Existe um cuidado evidente em não transformar cada reencontro numa celebração automática. Woody e Buzz Lightyear voltam a dividir a tela, mas o filme demonstra uma consciência rara de que reencontrar alguém importante nem sempre significa reviver exatamente aquilo que existia antes. Algumas amizades permanecem; outras apenas mudam de lugar.
O roteiro, escrito por Stanton e McKenna Harris, esse sim, é o ponto que mais divide. A subtrama envolvendo o grupo de Lightyear parece flutuar à parte do núcleo emocional do filme, sem encontrar um propósito claro dentro da arquitetura geral da história – um daqueles elementos que parecem existir mais por obrigação de elenco do que por necessidade narrativa. Já o embate com o mundo digital, tema que poderia render uma discussão mais profunda sobre a relação da infância contemporânea com as timelines, acaba tratado de maneira mais ilustrativa do que aprofundada, como se o filme tivesse medo de se comprometer de fato com a complexidade do assunto que ele mesmo levanta.
Outra menção importante, seja do roteiro, mas principalmente da direção, foi de evitar transformar Jessie numa simples substituta emocional de Woody. Sua jornada possui identidade própria, muito ligada à sensação de inadequação e à tentativa de encontrar sentido quando o mundo ao redor parece reorganizar prioridades. Não se trata apenas de aprender a deixar Bonnie crescer. Trata-se de compreender o que resta quando a função que definia toda uma existência deixa de ser suficiente.

Existe, portanto, uma imagem que atravessa o longa inteiro sem nunca ser explicitada. Brinquedos antigos permanecem guardados porque alguém acreditou que ainda carregavam valor, mesmo depois do brilho desaparecer. Franquias longevas sobrevivem pelo mesmo motivo. Algumas continuam sendo revisitadas apenas por força do reconhecimento da marca. Outras conseguem encontrar novas perguntas dentro de personagens que pareciam completamente conhecidos. O desgaste, nesses casos, deixa de representar esgotamento e passa a funcionar como evidência daquilo que resistiu ao tempo.
Esse ponto foi justamente o que me surpreendeu em Toy Story 5. Em vez de esconder as rachaduras acumuladas por décadas de continuações, o filme faz delas parte do próprio discurso. Os brinquedos envelhecem. Os espectadores também. As franquias igualmente carregam suas marcas. Entre todas essas superfícies riscadas, ainda existe espaço para descobrir sentimentos que não dependem apenas da nostalgia para existir.
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