Crítica | A Morte de Robin Wood é um réquiem vazio, com um verniz de seriedade emprestado pela A24
A24/Divulgação

Crítica | A Morte de Robin Wood é um réquiem vazio, com um verniz de seriedade emprestado pela A24

Um réquiem não precisa necessariamente celebrar aquilo que morreu. Pode também registrar a decomposição de uma imagem, despedir-se de uma ideia que já não encontra lugar no presente ou simplesmente acompanhar, em tom solene, alguém que perdeu a capacidade de continuar vivendo. É nesse sentido que A Morte de Robin Wood parece querer existir, como uma elegia para um herói que deixou de acreditar na própria lenda. O problema é que, ao transformar Robin Hood em um homem esmagado pelo peso do passado, o filme também parece sepultar boa parte daquilo que poderia torná-lo uma figura cinematograficamente fascinante.

A proposta de Michael Sarnoski é compreensível desde os primeiros minutos. Seu Robin, interpretado por Hugh Jackman, não guarda quase nada do aventureiro espirituoso, generoso e idealizado que atravessou livros, desenhos, filmes e adaptações ao longo de décadas. Este é um homem velho, ferido, curvado e permanentemente cansado. A voz parece sair de algum lugar muito distante, como se cada palavra precisasse atravessar anos de violência antes de chegar à boca. O ator abraça esse estado físico e emocional com uma convicção impressionante. Seu corpo parece carregar o peso de cada cadáver que o roteiro atribui ao personagem.

Sarnoski não apenas reconta Robin Hood, ele tenta retirar do personagem a própria possibilidade de lenda. As histórias que conhecemos são apresentadas como versões romantizadas de acontecimentos muito mais brutais. O herói não teria sido um justiceiro popular, mas um homem que roubava, matava e aprendeu a transformar a própria violência em narrativa. A desconstrução, nesse ponto, encontra uma imagem poderosa. Robin é menos o homem por trás do mito do que o sobrevivente condenado a viver dentro dele.

É também aí que surge a aproximação inevitável com “Logan”, também protagonizado por Jackman. Não porque o filme seja uma repetição daquela estrutura, mas porque a ideia dramática é muito semelhante. Retirar um personagem icônico do imaginário coletivo, envelhecê-lo, colocá-lo diante de um corpo que já não responde como antes e fazê-lo encarar as consequências de uma vida construída pela violência. Existe ainda a possibilidade de uma família simbólica, de uma criança funcionando como ponto de contato com algo que o protagonista perdeu. A comparação é quase inevitável justamente porque a simplicidade da proposta de Logan continua sendo uma referência muito forte para esse tipo de desconstrução.

O que muda é o verniz. A Morte de Robin Wood parece revestido essa operação com uma gravidade austera, uma fotografia desaturada e uma atmosfera de cinema independente que imediatamente comunica ao espectador que aquilo não pretende ser uma aventura convencional. É um filme que quer ser levado a sério antes mesmo de começar a desenvolver razões para isso. Existe algo da identidade associada à A24 nessa maneira de apresentar a ruína como objeto de contemplação: imagens frias, personagens traumatizados, silêncio prolongado, violência seca e uma espécie de solenidade permanente.

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Essa aparência, contudo, nem sempre encontra sustentação no roteiro.

O filme se divide praticamente em dois movimentos. O primeiro acompanha Robin em uma sequência de confrontos que o aproxima mais de uma criatura de filme de terror do que de um herói medieval. Pessoas morrem com uma brutalidade quase indiferente. Flechas atravessam corpos, gargantas são cortadas, casas viram fogueiras e crianças também são incorporadas à lógica de uma existência em que qualquer encontro pode terminar em assassinato. Sarnoski não quer apenas dizer que a Idade Média era violenta; ele quer fazer o espectador sentir que a violência constitui a própria linguagem daquele mundo.

A fotografia reforça essa intenção. O enquadramento em scope amplia paisagens que parecem abandonadas pela luz, enquanto os corpos surgem cobertos de lama, sangue e sujeira. Não existe beleza pastoral que alivie a experiência. O campo não oferece refúgio, as estradas não conduzem à aventura e a floresta não guarda nenhum encantamento. Tudo parece contaminado por uma ameaça anterior à chegada dos personagens.

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A mudança posterior de formato, quando Robin encontra abrigo e a narrativa se aproxima de uma intimidade doméstica, poderia representar uma ruptura. E representa, ao menos visualmente. O quadro se torna mais próximo, quase como se o filme finalmente permitisse que aquelas pessoas ocupassem um espaço emocional. A batalha deixa de ser física e passa a acontecer dentro do protagonista.

É justamente nesse ponto que o réquiem se torna mais evidente. Robin não procura recuperar sua antiga identidade. Tampouco parece interessado em ser perdoado. Seu desejo de morrer está menos relacionado à culpa convencional do que à incapacidade de encontrar uma razão para permanecer vivo. Ele não precisa necessariamente de absolvição; precisa de um motivo. A diferença é importante, porque desloca a narrativa do arrependimento para o niilismo. O problema está na insistência com que o roteiro retorna a essa mesma conclusão.

A culpa é apresentada, discutida, retomada e novamente apresentada. A violência do passado volta como assunto, depois como memória, depois como justificativa para outro diálogo. Os personagens conversam sobre aquilo que o filme já mostrou e, muitas vezes, explicam sentimentos que as imagens poderiam comunicar. O silêncio, recurso tão importante para Sarnoski, acaba competindo com diálogos que parecem temer que o espectador não tenha entendido a proposta.

É uma ironia curiosa. Um filme tão interessado em desconstruir a lenda de Robin Hood termina construindo outra espécie de caricatura. Se o herói clássico era excessivamente virtuoso, este Robin parece excessivamente miserável. Se o primeiro vive em um mundo de aventura, o segundo habita uma existência na qual praticamente ninguém parece experimentar prazer, afeto, esperança ou sequer uma pausa emocional.

Essa ausência de contraste prejudica justamente aquilo que a obra pretende discutir. A violência se torna menos perturbadora quando não existe uma experiência humana que ela possa interromper. A morte deixa de produzir choque quando todos parecem já estar mortos por dentro. O sofrimento perde intensidade quando a melancolia ocupa cada plano, cada conversa e cada movimento.

A relação com Margaret, interpretada por Jodie Comer, surge então como uma das poucas brechas nessa muralha. A jovem não funciona apenas como possível instrumento de redenção, mas como uma chance de Robin voltar a enxergar o mundo para além de sua própria biografia. Os momentos em que os dois compartilham o mesmo espaço são importantes porque permitem imaginar outra versão do filme, aquela em que o passado continua presente, mas já não determina cada gesto.

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Existe, porém, uma resistência da própria encenação em deixar essa relação respirar. A aspereza permanece. Os personagens continuam falando como se estivessem carregando uma sentença nas costas. Mesmo quando surge a possibilidade de família, o filme parece desconfiar do afeto, como se demonstrar ternura fosse trair o projeto de brutalidade estabelecido anteriormente.

A trilha sonora acompanha essa disposição de maneira coerente, contribuindo para uma experiência de luto contínuo. Longe de transformar a música em ferramenta de aventura ou grandiosidade, o conjunto sonoro participa da construção de um espaço emocional pesado, quase fúnebre. O problema é semelhante ao da fotografia, aquilo que inicialmente estabelece identidade gradualmente se transforma em repetição. A mesma atmosfera que cria personalidade também limita as possibilidades dramáticas. Mas desconstruir não é necessariamente reconstruir.

Sarnoski sabe filmar essa decadência. Existem imagens de grande força, e a escolha de aproximar o espectador dos personagens na segunda metade demonstra uma tentativa legítima de transformar linguagem visual em comentário narrativo. O cineasta entende que a desconstrução de um mito não precisa acontecer apenas por meio do texto; pode estar no corpo do ator, na textura da imagem, na ausência de cores e até na mudança da proporção da tela.

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Essa é a questão central de A Morte de Robin Wood. O filme trabalha muito bem a ideia de que o Robin Hood das histórias populares pode ter sido uma invenção conveniente. Também encontra imagens interessantes para apresentar o homem escondido atrás dessa invenção. O que falta é uma nova camada que transforme essa descoberta em algo maior do que a simples negação do mito.

O Robin clássico deixa de existir. Em seu lugar, temos um assassino cansado, um homem que deseja desaparecer e uma figura traumatizada que pouco a pouco encontra algum contato com a possibilidade de vínculo. Mas quem surge depois da morte da lenda? Essa pergunta parece ser o verdadeiro centro do filme, e a resposta permanece nebulosa.

Talvez seja justamente por isso que o longa se aproxime tanto de um réquiem. Réquiens não precisam devolver vida ao que morreu. Eles acompanham a passagem. A Morte de Robin Wood entende muito bem como realizar esse funeral, conhece a textura da perda e sabe construir imagens adequadas para uma despedida. O que permanece em aberto é se existe algo esperando para nascer depois dela.

Entre a proposta simples de “Logan”, a violência quase ritualística e a solenidade de sua estética, Sarnoski encontra uma versão de Robin Hood que parece ter sido construída para morrer. A questão é que o filme passa tanto tempo contemplando o cadáver da lenda que quase não encontra espaço para imaginar quem poderia surgir em seu lugar. E talvez esteja aí a contradição mais interessante de sua empreitada: ao tentar retirar Robin Hood do pedestal, A Morte de Robin Wood acaba criando outro pedestal, igualmente imóvel, apenas feito de culpa, sangue e silêncio.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.